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    Editorial


    A renúncia do papa não é uma deserção

    da debilidade física aos 86 anos, Joseph Ratzinger, o Bento 16, ainda teve forças para provocar o mundo religioso ocidental. No fim do Carnaval (no calendário brasileiro), noticiou-se que ele se referira com desilusão à “hipocrisia religiosa, o comportamento dos que buscam o aplauso e a aprovação do público”.
    Bento 16 lamentava a religiosidade pop que acomete legiões de conversões, sustentadas por um tipo de feitiçaria, encantada por uma teologia da prosperidade, onde o dízimo (o que se oferece) é a devolução de supostos milagres que acontecem ou aconteceriam, principalmente, na conta bancária desses neofiéis, com polpudos resultados para as igrejas ou palácios consagrados a essa versão do cristianismo comprometida com o capitalismo financeiro.

    Esse papa, cujo conservadorismo desagradou a gregos, troianos e baianos, fundamentou seu ministério no resguardo da fé que ele ainda acredita ser possível restaurar na humanidade. É provável que seus opositores tenham o mesmo objetivo e queiram alcançá-lo por novos caminhos, uma fé renovada de uma humanidade que se renova. Bento 16, ele mesmo, reconheceu que a igreja que ainda chefia se permitira atrasar alguns passos (na história, às vezes, séculos) para se alinhar ao tempo que reivindicava uma nova bênção.

    A provocação desta pós-semana carnavalesca não objetiva, com certeza, apenas o mundo católico, mas o cristão e o próprio islamismo com quem contatou mais de uma vez, em busca de uma unidade em torno de um Deus. A renúncia, porque a fé só é possível no exemplo, dá mais profundidade à referência à “hipocrisia religiosa” dos que fundamentam a vida na ambição da audiência a qualquer custo. O papa reconhece sua fraqueza física, mas ao dizer, ontem, que se retira da cena para viver “escondido do mundo, não renunciou ao que reputa ser a verdadeira fé: a superação dos individualismos e rivalidades.

    Conservador, sim, mas coerente, Bento 16 rearfirma que o verdadeiro discípulo não serve a si mesmo, “mas ao Senhor, de maneira singela, simples e generosa”. A renúncia de Bento 16 não é deserção.