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    Editorial


    O risco de ser criança entre adultos sem rumo

    Falta infância a um número bastante expressivo das nossas crianças. Não é preciso muita pesquisa de campo para constatar esse nível perverso da sociedade que se diz cristã, vende bondade a quilos e não pode dormir tranquila, com medo ser assaltada, quem sabe morta... por um adolescente. A população de crianças e adolescentes, entre zero e 18 anos, de Manaus, soma 641.104 indivíduos. É um terço do total de habitantes da cidade, segundo estimativa mais recente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – possivelmente mais, pois nenhuma estatística é exata, o que melhor reflete é o máximo de possibilidades de precisão. Não é pouco. Mesmo que fosse um décimo desse total estimado, seria demasiado.
    Desde a promulgação da Constituição Cidadã, em 1988, e muito antes dela, a imposição legal de que “lugar de criança é na escola” foi absorvida até pelo mais ignorante dos cidadãos. Mas as crianças estão nas ruas, expostas às situações adultas e aprendendo a reagir como adultos, que nem sempre são bons exemplos de ações e reações para crianças e nem mesmo para adultos. Existem aparelhos de Estado dedicados à criança, ao adolescente e ao jovem, numa faixa etária que vai de zero a 24 anos. Existem organizações não-governamentais dedicadas ao problema. Existem ações (não políticas públicas) pontuais, voltadas para esse público. Existe dinheiro, muito dinheiro do contribuinte, em flagrante delito, sustentando as ações isoladas dessas entidades e instituições, cada vez mais desconectadas umas das outras.
    O resultado de toda essa desconstrução de esforços é um sentimento de impotência; de que a sociedade e o Estado estão diante de um problema insolúvel, o que significa apenas rendição ou acomodação, porque não existem problemas insolúveis. Em todo o mundo (e o fenômeno já reflete no Brasil), as populações nacionais estão envelhecendo mais depressa do que conseguem repor seu contingente de juventude, talvez porque já se tenha disseminado o medo do risco que representa pôr uma criança no mundo. Não sem razão: do jeito que essas populações envelhecidas trataram e tratam crianças, adolescentes e jovens, em pouco tempo o mundo será governado por bandidos velhos, viciados em mando e desmando. Se já não o está. Não adiantará perguntar mais tarde – talvez tarde demais: onde foi que falhamos?