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    Editorial


    Se a farinha é pouca, meu pirão primeiro

    A Câmara Municipal de Manaus delegou, por 180 dias, ao prefeito Arthur Neto, o poder que a Constituição define ser dos vereadores: legislar. Nesse período o Executivo municipal só não pode decidir sobre finanças, mas pode fazer o desenho da sua administração sem intromissão, que no quadro que se apresenta não seria obstáculo, pois apenas três vereadores (todos do PT) entre os 41 da casa se declaram oposição, dentro da condição do que é oposição no Brasil: tudo o que não está no poder.
    Não é uma situação exclusiva da capital amazonense. Dilma Rousseff conseguiu do Congresso Nacional a alei delegada que lhe permite calcular e definir o salário mínimo dos trabalhadores. As próprias representações sindicais calaram sobre o assunto, pois fazem parte dessa coisa esdrúxula que no Brasil se autodefine como “base aliada”. Em Manaus, o prefeito, em tese, dispõe de 38 votos dos 41 vereadores, o que não é um grande feito, pois esses representantes estão sempre dispostos a uma intimidade promíscua com o poder, uma intimidade concedida, na maioria das vezes, de um jogo de intimidação de ambas as partes – é dando que se recebe, como se sabe.

    O “voto de confiança” com que os vereadores brindaram o prefeito não significa, no entanto, lealdade ou adesão ao programa de governo de Arthur. Eles concordaram com o pedido de redução do salário do prefeito e dos secretários, dentro da perspectiva de redução de despesas. Nenhum ato legislativo é feito sem embasamento ético. Mas apenas reverenciaram a postura do prefeito. Em nenhum momento cogitaram em anular, também, o aumento de salário que eles mesmos se concederam no apagar das luzes de 2012.

    Da mesma maneira procederam com relação ao auxílio-paletó de que não abrem mão. O auxílio é legal? É. Mas é indecente e imoral. Foram também os legisladores que o criaram para aparecer bem na foto com o prefeito. Aceitá-lo só porque é legal não torna ninguém mais limpo. Pela análise de um comportamento que se tornou histórico o novo prefeito de Manaus precisa pensar duas vezes antes de acreditar que tem mesmo uma base aliada. Seguro morreu de velho.