Fonte: OpenWeather

    Editorial


    Casa-grande e senzala no plenário do Congresso

    O Congresso Nacional ainda não conseguiu atravessar a barreira do tempo que o separa da modernidade. É inacreditável como se comportam esses “representantes do povo”, eleitos pelo povo, mas não para o povo, pois logo que recebem o primeiro auxílio-paletó se emancipam da sociedade e se dedicam a desmoralizar aquilo que ainda se chama democracia representativa e que custou muito sangue, suor e lágrima para constituí-la e tentar mantê-la – sem sucesso, ao que parece.
    As eleições para as presidências da Câmara (4 de fevereiro) e do Senado (1º de fevereiro), não inspiram nenhuma perspectiva de que o Brasil tenha realmente acabado com o regime de casa-grande e senzala. E a casa-grande tem todas as possibilidades de assumir as duas casas legislativas, com o apoio do governo. Renan Calheiros (PMDB), que já foi presidente do Senado e renunciou em 2007, sob acusação de que uma grande empreiteira financiou estudos de sua filha, tem o apoio do Palácio do Planalto, e faz uma campanha nos bastidores, sem admitir oficialmente que está na disputa.

    “Minha candidatura à presidência da Câmara se ampara em minha história política e na premissa de resgatar a grandeza que tem dignificado a trajetória de nossa Casa”, afirma Henrique Alves (PMB), candidato à presidência da Câmara, sem referir que é alvo de suspeita de irregularidades em repasses de sua verba parlamentar: a “Folha de S.Paulo” revelou que Aluizio Dutra de Almeida, assessor do peemedebista, é sócio de uma empresa que recebeu, por meio das emendas parlamentares, verbas indicadas pelo próprio Henrique Alves.

    Numa tentativa de restabelecer a democracia da disputa no Senado, o senador Randolfe Rodrigues (PSOL-AP) lançou ontem sua candidatura à presidência da casa.

    Em manifesto elaborado com o apoio de parlamentares, Randolfe pede que os colegas não escolham o presidente “levando a cédula sem conhecer o nome do candidato escrito nela pelos antigos coronéis do interior”. Um acordo entre os partidos definiu que as maiores bancadas se revezem na presidência da Câmara e do Senado, mas quem move as peças no tabuleiro é eminência parda de José Sarney, patriarca da casa-grande.