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    Crônica


    O primeiro beijo: lembranças de uma tarde adolescente

    Tenho dificuldade em imaginar cores, as minhas lembranças são sempre em preto e branco. Quando sonho também é em preto e branco, contudo, lembro dos cabelos loiros dela, da pele levemente bronzeada e dos lábios com um batom rosa suave.

    Tremi, fiquei pálido e não sabia o que fazer. Quase estraguei tudo, mas com muito receio dei um leve selinho nela, pois foi o que consegui fazer.
    Tremi, fiquei pálido e não sabia o que fazer. Quase estraguei tudo, mas com muito receio dei um leve selinho nela, pois foi o que consegui fazer. | Foto: Reprodução

    À época eu morava  em Manaus, no bairro Aleixo e estudava em uma escola particular próximo de casa. Tinha apenas 12 anos (nem faz tanto tempo assim) e estava no sexto ano.

    Onde estudava, diferente da maioria das escolas onde o aluno entra em sala de aula às 13h. No meu colégio eu entrava às 14h. Ficava (ou ainda fica) no conjunto Ica Paraíba. Era uma segunda-feira e eu resolvi ir cedo para a aula, às 13h já está lá. Fui o primeiro aluno a chegar.

    No sábado anterior havia feito um serviço para um vizinho e iria gastar meu dinheiro de rapaz trabalhador (1). Varri o quintal dele e ele me pagou pelo serviço. 

    Fico pensando aqui com meus botões: como meus pais foram tão irresponsáveis ao ponto de me deixarem trabalhar com idade tão tenra e, pior ainda, deixaram-me saber o valor do próprio esforço. Em que mundo eu vivia?

    Lembro-me bem. Havia um mercadinho próximo a escola e lá uma máquina de videogame, comprei uma ficha e comecei a saga. Devo admitir que não era muito bom, mas com alguma frequência fazia uma boa pontuação.

    Depois de jogar longos 5 minutos, perdi. Nesse dia minha performance não foi das melhores.
    Depois de jogar longos 5 minutos, perdi. Nesse dia minha performance não foi das melhores. | Foto: Reprodução

    Depois de jogar longos 5 minutos, perdi. Nesse dia minha performance não foi das melhores.

    Então precisava decidir como gastar o resto do meu rico dinheirinho. Tomei uma decisão bem sensata: comprei um refrigerante e um salgado.

    Sentei-me numa mesa do lado de fora do mercadinho e fui, como dizia minha mãe, adular a comida. Cada pedacinho era muito bem apreciado e saboreado.

    E ela...

    Estava concentrado no lanche e não reparei na aproximação da figura. 

    Tenho dificuldade em imaginar cores, as minhas lembranças são sempre em preto e branco. Quando sonho também é em preto e branco, contudo, lembro dos cabelos loiros dela, da pele levemente bronzeada e dos lábios com um batom rosa suave. Devia ter minha idade e estudávamos na mesma sala. Algo era bem característico nela, daquela fase adolescente: usava um brinco com penas e um relógio da Minie vermelho.

    Ela morava no Japiim e estudava no Aleixo. Confesso que não entendia isso, mas de qualquer forma, como dependia de ônibus, ela  chegava mais cedo que todos, menos nesse dia.

    Quando me viu, chegou até a mim e perguntou se podia sentar. Como eu diria não? Ainda hoje minha timidez me atrapalha com as mulheres, imagina na minha pré-adolescência. Perguntou-me se eu havia estudado para a prova de Matemática e, como bom aluno, respondi que sim. Então ela quis saber se eu poderia lhe tirar algumas dúvidas.

    Como além de tímido sou introvertido, logo precisei desde cedo desenvolver estratégias para ter a atenção das meninas. Em algum momento da vida acadêmica as pessoas (meninas) precisam de ajuda com a Matemática, tratei de ser a referência, para quando esse momento chegasse, eu fosse procurado.

    Respondi que poderia sim ajudá-la e perguntei qual seria a dúvida. Em dado momento, ela me pediu um gole do refrigerante, fanta uva. Garoto matreiro,  eu disse que daria sim, mas desde que ela me desse um beijo.

    Jamais em tempo algum, pensei que ela me responderia com um sim. Esperava um não e diria que era brincadeira, mas ela disse sim, fechou os olhos e fez um biquinho.

    Tremi, fiquei pálido e não sabia o que fazer. Quase estraguei tudo, mas com muito receio dei um leve selinho nela, pois foi o que consegui fazer. 

    Ela abriu os olhos e eu ainda estava próximo ao rosto dela, uma vez que estava petrificado. Ela deu um leve sorriso e disse que foi inesperado, mas que havia gostado.

    Eventualmente trocamos outros selinhos e beijos, mas não durou muito, uma vez que após as férias de meio de ano, ela não retornou às aulas, mudou de escola.

    E eu voltei a minha vida de jogar bola, soltar papagaio e tudo que eu gostava de fazer. Não faço a mínima ideia de por onde ela anda. 

    E assim foi o meu primeiro beijo.


    * Gabriel Magalhães é colaborador do Portal EM TEMPO e escreve sempre às quintas para a seção  "Entre Elas - Encontros e Desencontros".

    Referências

    1 - Faroeste Cabloco  

    Crédito - foto videogame: Por gwaar - Flickr, CC BY 2.0


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