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    Depressão


    Por que a depressão é mais comum em mulheres? Especialistas respondem.

    Estudo realizado pela Universidade da Califórnia tenta desvendar os principais motivos da depressão ser maior em mulheres do que em homens

    O Brasil lidera o ranking de países da América Latina com maior índice de casos de depressão | Foto: Divulgação

    Manaus – Mulheres são mais propensas a desenvolver depressão do que homens. A afirmação é o resultado do estudo da Universidade da Califórnia que busca as diferenças biológicas entre homens e mulheres como forma de explicar os motivos do índice de depressão em mulheres ser mais elevado do que em homens.

    O estudo recrutou 69 mulheres e 46 homens e que por meio de tarefas que visavam testar o sistema de recompensa do cérebro, que promove sensação de prazer e que na depressão é inibido. Os cientistas constataram, por meio de ressonância magnética funcional, que as mulheres apresentaram maior inibição da sensação de prazer, apresentando maior propensão a desenvolver a depressão.

    De acordo com dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), até 2020 a depressão, que é um distúrbio mental decorrente de um conflito interno e de uma alteração bioquímica, será a principal doença mais incapacitante do mundo. E o Brasil lidera o ranking de países da América Latina com maior índice de casos de depressão, com aproximadamente 5,8% da população convivendo com a depressão. 

    O sintomas da depressão estão associados a tristeza sem relação com a vida pessoal e profissional, culpabilização por algo, perda de energia, alteração do sono, aumento ou diminuição de apetite e irritabilidade. E em mulheres esses sintomas são mais abrangentes, pois incluem alterações hormonais maiores do que os homens, e também estão inseridas em contextos de violência contra a mulher.

    Segundo a psicóloga e especialista em avaliação psicológica, Ana Cordovil, os quadros clínicos de depressão devem ser analisados separadamente. “Cada caso possui peculiaridades. A pessoa que possui depressão geralmente tenta disfarçar o problema na sociedade. Então é necessário ficar atenta aos sinais que a vítima apresenta na sua vida cotidiana e procurar uma ajuda profissional”, destaca a psicóloga.

    Ana Cordovil destaca que a hereditariedade, estresse, luto e ansiedade também podem desenvolver a depressão. Como é o exemplo da historiadora Lídia Helena Oliveira, de 53 anos, que iniciou o tratamento há 18 anos. “Desenvolvi depressão a partir de uma síndrome do pânico, resultado de uma rotina com alto nível de estresse, e também devido um histórico desde criança, que com um afogamento que sofri contribuiu muito para o desenvolvimento. Então, eu procurei ajuda, realizei os tratamentos e consegui conviver com os sintomas", complementa.

    Lídia Oliveira destaca que os tratamentos realizados com ajuda do psiquiatra, o apoio da família e ajuda espiritual foram essenciais para conviver com os sintomas da depressão, porém com a chegada da menopausa e disfunção de hormônio, Lídia tem aumentado as precauções.

    Equilíbrio hormonal

    O Período menstrual, a menopausa e a gravidez são as principais fases em que a mulher apresenta grandes alterações hormonais. E devido isso, a psicóloga Ana Cordovil destaca a importância do acompanhamento médico em outras especialidades para auxílio de um diagnóstico do quadro de depressão em mulheres. “A questão hormonal nas mulheres é muito comum e não pode ser descartado para fator que leva ao quadro depressivo. Por isso é sempre necessário um acompanhamento com um endocrinologista, que pode avaliar por meio de exames da tireoide, como anda o equilíbrio hormonal da mulher”, destaca a especialista.

    Para Lídia os fatores hormonais têm sido uma situação complicada para associada ao quadro. "É uma situação muito difícil conviver com menopausa quando você tem depressão. Você precisa ter muito força para lutar contra o próprio corpo e as reações biológicas. Não deve ser algo para segundo plano como fator para contribuir com a depressão", complementa Lídia. 

    Depressão pós-parto

    Apesar de a maternidade ser um momento desejado para muitas mulheres que planejam ser mães, uma em cada quatro brasileiras apresenta sintomas de depressão pós-parto, de acordo com a pesquisa da Escola Nacional de Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) realizada em 2017. 

    Os motivos que levam as mulheres desenvolverem depressão pós-parto ainda são desconhecidos, mas a queda hormonal de progesterona pode estar associada ao quadro. De acordo com a Ana Cordovil, o quadro depressivo afeta diretamente a relação maternal. “As mães começam a rejeitar os filhos e a impaciência para as atividades básicas são maiores. E é quando entra o cuidado maior de parentes mais próximos para suprir a necessidade básica do bebê. Além do descuido com si próprias como a falta de higiene pessoal também podem ser um dos sintomas associados”, destaca a especialista.

    Superação de violência

    De acordo levantamento realizado pelo DataFolha, encomendado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública,  mais de 500 mulheres foram agredidas a cada hora em 2018 no Brasil. O índice de violência contra a mulher é também um motivo de preocupação para a saúde, principalmente a saúde mental, devido as consequências na vida das mulheres que vivem o ciclo de violência.

    Não existem dados específicos de vítimas de violência doméstica com o quadro de depressão, mas o aumento de procura nos consultórios psicológicos e centro de atendimentos por vítimas de violência doméstica tem sido maior em diversas cidades brasileiras. 

    Como é o exemplo da professora de inglês Fabiana (*nome fictício), de 34 anos, que prefere não se identificar. Fabiana conviveu 5 anos em um relacionamento abusivo e hoje realiza psicoterapia com ajuda profissional para conviver com a depressão desenvolvida a partir das violências verbais e físicas no relacionamento. "Nunca apresentei quadro de depressão, mas quando as agressões iniciaram, eu comecei a mudar meu comportamento no trabalho, evitei contato com os meus amigos e familiares, pois tinha vergonha de contar para eles. Conviver com as lembranças de todo os ano sofrendo  ataque, mexeu com a minha autoestima e minha capacidade de acreditar no que eu posso realizar", destaca. 

    Alternativas de tratamento

    Além de procurar uma ajuda profissional para o tratamento da depressão também existem tratamentos alternativos e complementares para melhorar a qualidade de vida, como: a acupuntura, disponível pelo Sistema Único de Saúde (SUS), a prática de atividades físicas que libera a endorfina, hormônio fundamental para auxiliar no tratamento depressivo, além do apoio de família e amigos.

    Ana Cordovil aponta que o acompanhamento do trabalho do psicólogo e psiquiatra devem ser realizados de forma conjunta. “Além das medicações para estabilização do quadro, que deve ser realizado pelo psiquiatra, a realização da terapia em paralelo com acompanhamento do psicólogo é muito importante”, destaca a psicóloga.

    Lídia Oliveira conta que além dos tratamentos com profissionais, a ajuda dos amigos e familiares e o auxílio espiritual foram importantes durante o tratamento. “Todo esse processo é para fortalecer a mente, alma e espírito. É preciso querer. Lembro que os médicos sempre me diziam isso. É difícil, mas é o objetivo principal”, destaca Lídia.

    Segundo Fabiana, a ajuda de uma amiga de profissão foi o início do processo para buscar ajuda profissional e o apoio da família. "A minha colega de profissão percebeu alterações no meu rendimento no trabalho e começou a conversar comigo, foram mais de 4 meses até eu conseguir explicar a situação para ela, que me apoiou e indicou ajuda psicológica. Depois tive coragem e contei para a minha família que foi fundamental no meu processo de separação e acolhimento". 

    A psicóloga Ana Cordovil destaca que o preconceito e a falta de informação sobre a depressão são dois fatores que atrapalham o tratamento do paciente com quadros de depressão. “O julgamento é algo que deve ser evitado. A depressão não é uma escolha do paciente e falar sobre o problema é um processo complicado e eles geralmente contam quando atingem um limite da situação. Por isso é necessário um acolhimento das pessoas no convívio  diário, aliados a ajuda profissional", destaca a psicóloga.