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    Mercado de Trabalho


    No volante de um ônibus, Dolores Cordeiro ganha a vida em Manaus

    Já contamos a história da frentista Neiry Charles. Nesta edição, a manauara Dolores Cordeiro fala sobre a trajetória como motorista de ônibus

    A alegria e dedicação no dia a dia da motorista Dolores Cordeiro de Almeida contagia as pessoas
    A alegria e dedicação no dia a dia da motorista Dolores Cordeiro de Almeida contagia as pessoas | Foto: Oziete Trindade

    Manaus (AM) - Chamadas ainda de sexo frágil, as mulheres cada dia mais estão provando que essa fragilidade ficou no passado. Hoje, elas cuidam do lar, do esposo, dos filhos e ainda se destacam em suas profissões, em um mercado muitas vezes dominado por homens 

    O sorriso cativante, a alegria e dedicação no dia a dia como motorista de transporte público, faz com que a manauara Dolores Cordeiro de Almeida, 37 anos, seja considerada um exemplo de competência e profissionalismo entre os colegas. Dolores é da localidade de Janauacá, distrito próximo à Capital, casada e mãe de 3 filhos, todos já adultos.   

    Ela nos conta que está há 7 anos como motorista no transporte público da Capital, mas começou sua carreira em uma linha de ônibus executivo como cobradora. Na ocasião veio então a conhecer seu atual esposo, que também é motorista na mesma empresa na qual trabalha. Apesar de atuarem na mesma profissão, ela ressalta que não foi apenas por influência do esposo a escolha para motorista. Sempre teve vontade de seguir essa carreira desde a adolescência. 

    Às 5h em ponto dá início então ao seu trabalho na Linha 350
    Às 5h em ponto dá início então ao seu trabalho na Linha 350 | Foto: Oziete Trindade

    “Desde adolescente eu tinha o sonho de ser motorista de ônibus. Na época, algumas pessoas chegaram até a me desencorajar dizendo que não era uma profissão para mulher. Mas o meu esposo foi uma das pessoas que mais me incentivou na realização do meu sonho. Então, de certa forma, ele é um dos grandes responsáveis também pelo meu sucesso hoje”, revelou. 

    Rotina

    Sua rotina de trabalho começa cedo, às 3h30, horário em que acorda. Toma seu café e não esquece do batom, um acessório sempre presente em sua bolsa. Às 4h sai de casa no bairro Nova Cidade, na Zona Norte, fazendo um percurso de 20 minutos de carro até a garagem de ônibus na Cidade Nova - Núcleo 15, onde se prepara pondo o seu uniforme. 

    Da garagem vai com o ônibus até o Terminal 3. Às 5h em ponto dá início então ao seu trabalho na Linha 350 (Dijalma Batista - Terminal 2). São 3 viagens por dia, das 5h às 13h30, numa jornada diária de 8h, com 1h de almoço. Trabalha 6 dias e folga 1 (sábado ou domingo). Quando ela passa pelas ruas de Manaus é logo reconhecida com o ônibus de cortinas rosa pink, ao estilo ‘Penélope Charmosa’. “Essa se tornou minha marca pessoal na cidade”, disse ela entre risos.   

    Testes e curso para condutores

    Ela disse que para ser admitida passou por um treinamento criterioso de alguns dias (teste prático e teórico) com percursos feitos na cidade. “Não foi fácil, mas fui logo aprovada e em poucos dias comecei a trabalhar”. E há uns 4 anos fez um curso de aperfeiçoamento para condutor de passageiros. Exames de audiometria, visual e psicotécnico são realizados periodicamente. 

    Preconceito

    Sobre preconceito, ela cita um caso interessante que aconteceu de um passageiro não querer ir com ela por ser mulher.  “O senhor chegou na porta do ônibus e quando viu que era uma mulher a motorista falou que não iria comigo de jeito nenhum. E saiu reclamando. Naquele dia eu fiquei muito triste e infelizmente senti de perto o preconceito em relação às mulheres nessa profissão. Mas só foi apenas esse caso”, ressaltou. 

    Quanto aos colegas motoristas ela confessa ter tido sempre o apoio de todos, inclusive quando foi selecionada pela chefia para fazer um teste em um ônibus trucado (com 2 eixos traseiro).  

    “Nossa, quando fui selecionada para o teste tive muito receio de não passar. Mas todos os meus colegas, confiantes da minha capacidade, me deram a maior força. E por incrível que pareça, além de passar no teste é o ônibus que eu mais gosto hoje de dirigir. A direção hidráulica faz com que o câmbio e a embreagem fiquem mais leves, facilitando nas manobras”, explica.

    E entende de mecânica....

     Além de assumir o volante, Dolores também entende um pouco de mecânica. E quando o veículo dá problema, inclusive em viagens na rua como no dia de nossa entrevista, ela ajuda também a consertar verificando problemas na direção, motor etc.  Mas não para por aí os sonhos da nossa motorista.  

    Ela já pensa em trocar da categoria D para E, a fim de começar a dirigir caminhão e desbravar as estradas do País. Como incentivo para as mulheres ela deixa um recado: “Mulheres, nunca desistam dos seus sonhos. Pare, pense, reflita e siga sua intuição na busca de seus objetivos”, concluiu ela, confiante em sua competência.  

    *Oziete Trindade é jornalista, graduada em Comunicação Social com habilitação em jornalismo pela FMU/SP e pós-graduada nível Lato Sensu em Comunicação/Marketing Político pela Fundação Cásper Líbero/SP.