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    Puerpério


    Por que é tão difícil fazer sexo depois da chegada da maternidade?

    Durante o puerpério, período que pode se estender por até dois anos, a mulher enfrenta alterações físicas, hormonais e psicológicas que influenciam sua vida sexual

    O puerpério costuma durar cerca de dois anos depois do nascimento | Foto: Divulgação

    Laura olha no espelho e não se reconhece. “Esse é meu corpo? Meu peito era empinadinho, agora está caído e toda hora sai leite. Minha barriga está cheia de estrias e minha cicatriz deu queloide.” Há dez meses ela teve uma menininha linda, mas ainda não se sente confortável consigo mesma, nem preparada para o sexo.  

    ''Demorou um bom tempo para eu querer ter relação sexual e quando eu tive foi horrível. Não tinha lubrificação nenhuma e era como se queimasse minha pele'', diz Laura. Ela trocaria tudo por um longo banho sozinha (como não tem ajuda, costuma tomar banho junto com a bebê). ''Eu queria mesmo era ficar 10 horas no banho. Depilar minha perna, passar um creme, fazer a sobrancelha, relaxar e me sentir mulher''.

    O que acontece com Laura é o que acontece com grande parte das mulheres durante o puerpério. Esse período não tem nada a ver com o resguardo sexual, que é de 40 dias por questões médicas. Segundo a psicóloga e consultora em sexualidade Patrícia Ramos, o puerpério costuma durar cerca de dois anos depois do nascimento. Só nesse momento o bebê será mais independente, saberá se comunicar e a amamentação vai estar chegando ao fim. 

    ''Na verdade não se fala muito sobre puerpério, é um período meio camuflado, inclusive existe confusão com o resguardo. Mas ele está mais relacionado com questões emocionais'', afirma Patrícia. ''O puerpério é o luto de uma mulher que não existe mais''. 

    Laura concorda:

    ''É como se eu não fosse a mesma pessoa. Sinto luto por quem eu era. Não é só o corpo. Eu era decidida e independente, hoje sou cautelosa e para tudo eu penso primeiro na minha filha”. 

    Pior que a menopausa 

    Além de todos os aspectos emocionais, a parte biológica também não ajuda. Com o parto, há uma queda hormonal abrupta: a progesterona, hormônio da gravidez produzido pela placenta, cai 400 vezes, por isso dá aquele baby blues. Depois vem a amamentação, e a prolactina, que é o hormônio do leite, passa a inibir estrogênio e testosterona.  

    Não há nada errado. É uma artimanha da natureza para que a nova mãe se dedique ao filhote e não engravide de novo tão cedo. Mas o resultado é cruel para a mulher moderna: falta de libido e pouca lubrificação na vagina. 

    ''Além de não dar vontade, ainda pode ficar doloroso. A maternidade é muito antierótica. Essa energia sexual é desviada para os cuidados com o bebê. Também é necessária uma reconexão com o próprio corpo, que não é o corpo da grávida, mas também não é o corpo que a mulher tinha. Ela ganhou peso, a barriga pode estar flácida, o peito pode jorrar leite. É complicado. Os primeiros meses são piores do que a menopausa. Mas é natural e importante'', afirma Carol Ambrogini, ginecologista e sexóloga, coordenadora do projeto Afrodite, da Unifesp. 

    Quanto mais sozinha a mulher está na empreitada, mais difícil será para ela se reconectar consigo mesma ou com o parceiro. O grau de envolvimento dele com os cuidados e uma boa rede de apoio fazem muita diferença. Se a mulher não tem o que comer, não tem como tomar banho direito, não dorme, fica difícil esperar que tenha disposição para transar. 

    ''O casal tem que ter diálogo, falar sobre a dinâmica familiar, a ajuda com o bebê, a falta de sono, as alterações de humor. É uma situação temporária e à medida que o bebê vai crescendo e a mulher vai retomando a vida dela, voltando a trabalhar, sair com as amigas, fazer ginástica, vai retomar a sexualidade. Mas muitos casais se desconectam nessa fase''. 

    A retomada da vida sexual 

    A situação ideal pode demorar para acontecer. Mas isso não significa que o casal não possa ir se curtindo, afinal sexo vai muito além da penetração. Sexo oral e masturbação são atos sexuais que podem servir para manter o casal mais próximo.  

    Ingrid continuou transando no puerpério dos seus quatro filhos. Não teve problemas com libido e lubrificação. Para ela, o sexo era uma forma de ter de volta o controle sobre seu corpo, seu querer e ter um pouco de diversão. Mas era do jeito que dava. 

    ''Fazia meio vestida por causa da vergonha com o meu corpo. Várias vezes durante o sexo acontecia de esguichar leite, eu ria, é meio constrangedor, a hora que você lembra que seu corpo está muito na função de mãe, mas a gente seguia em frente. Eu sou mulher e sou mãe, não é possível que eu só vá dormir, acordar, dar de mamar e trocar fralda. No fim, mantinha a gente junto, aumentava a nossa cumplicidade''. 

    Cada caso é um caso, e o corpo e o psicológico de cada mulher reagem de formas diferentes quanto a ter um filho (e pode ser diferente do primeiro para o segundo). Mas, no geral, as especialistas recomendam uma retomada gradual.  

    ''A vontade de transar tem que ser buscada, com um filme mais quente, um conto erótico, uma ida ao motel. Não tem um creme mágico de testosterona que vá resolver isso'', diz a ginecologista.

    Para Patrícia Ramos, ainda há uma cobrança muito grande da sociedade e dos parceiros para voltar à ativa.

    ''Mas são tantas coisas que acontecem no período... O que ela precisa para retomar é se reconhecer como outra mulher, retomar o prazer por ela mesma. O grande lance é entender que as coisas mudaram. Quando a gente começa a transar, vai pisando em ovos, não é? O sexo no puerpério é isso, a retomada de uma vida sexual de uma nova mulher e de um novo homem''.