Relações


Como as relações afetivas se comportam na era do 'fast sex, slow love'

Expressão 'fast sex, slow love' (rápido para transar, devagar para amar) incorpora o modo como a maioria das pessoas busca se relacionar hoje em dia, esclarece psicóloga

A expressão fast sex, slow love (rápido para transar, devagar para amar) evidencia justamente como a Geração Z se dedica mais às relações físicas | Foto: Reprodução/Internet

Manaus – Com a propagação da internet e das ferramentas digitais, o jeito de amar mudou ao redor do mundo. A expressão fast sex, slow love (rápido para transar, devagar para amar) evidencia justamente como a Geração Z se dedica mais às relações físicas, encontradas na fase do pré-compromisso, do que às afetivas, que levam tempo e esforço para se consolidarem. A psicóloga Cyntia Loiola explica os motivos e os resultados dessa nova configuração.

Segundo Cyntia, o surgimento e a propagação da tecnologia fez com que novas formas de conexões humanas passassem a existir e essa proximidade virtual é uma das grandes responsáveis pela configuração dos relacionamentos atualmente: breves e banais. “São novas formas de relacionamento e agora, durante a quarentena, a maioria consegue perceber essas mudanças claramente”, explica.

Psicóloga Cyntia Loiola
Psicóloga Cyntia Loiola | Foto: Divulgação

Geração Z

A Geração Z é uma definição sociológica para a geração de pessoas nascidas entre a segunda metade dos anos 1990 até o início do ano 2010, que corresponde ao momento do nascimento da World Wide Web, criada em 1990 por Tim Berners-Lee, e ao "boom" da criação de aparelhos tecnológicos modernos. As pessoas dessa geração são conhecidas por serem nativas digitais, muito familiarizadas com a internet, estando extremamente conectadas. 

As pessoas da Geração Z são conhecidas por serem nativas digitais
As pessoas da Geração Z são conhecidas por serem nativas digitais | Foto: Reprodução/Internet

A psicóloga afirma que, além da internet, o modo de produção predominante na sociedade também é imensamente responsável pelo modo como as pessoas tendem a se relacionar amorosamente.  “A sociedade vive no capitalismo e esse modo de produção traz consigo um discurso do ter, do produzir, do fazer. E isso é repassado para todos nós desde cedo, quando crianças”, esclarece.

Cyntia ressalta que os resultados dessas influências na infância e na adolescência faz com que os jovens adultos acabem procurando fugir de responsabilidades e compromissos na vida afetiva. Eles procuram investir em suas carreiras profissionais, pois são instigados a sempre produzir, mas não a se relacionar.

As pessoas sentem que têm 'mais o que fazer' da vida do que assumir compromissos
As pessoas sentem que têm 'mais o que fazer' da vida do que assumir compromissos | Foto: Shutterstock

“É uma sociedade que prega o imediatismo. Tudo tem que ser agora e para hoje. É também, por isso, uma sociedade do desejo, que precisa consumir logo. O problema nisso é claro, não aprendemos a lidar com frustrações e temos dificuldades na hora de construir vínculos afetivos fortalecidos: compromisso, namoro, casamento”, salienta Cyntia.

A profissional deixa claro que, uma vez que o desejo é um impulso momentâneo e intenso, ele não pode ser traduzido em relacionamentos duradouros. “É quando chegamos ao fast sex, slow love. Relações sexuais não exigem compromisso nem responsabilidade emocional e isso é muito conveniente e cômodo para quem tem ‘mais o que fazer’ da vida, principalmente no trabalho. Essas relações poupam tempo e energia, ninguém quer sofrer nem se esforçar para amar”, observa.

"Ninguém quer se esforçar para amar", observa Cyntia
"Ninguém quer se esforçar para amar", observa Cyntia | Foto: Reprodução/Internet

Slow love

A ideia em torno da expressão faz menção ao movimento Slow, que nasceu na Itália nos anos 1980, pregando uma desaceleração total do louco mundo contemporâneo, cheio de fast-food, digitalização e correria, até virar filosofia de vida.

Quem cunhou o termo slow love foi a antropóloga norte-americana Helen Fisher, que há mais de 30 anos se dedica a estudar as relações amorosas e é responsável pela Singles in America, pesquisa nacional anual sobre o comportamento dos solteiros norte-americanos, que já ouviu 35 mil pessoas com idade entre 18 e mais de 70, entre 2010 e 2017.

Antropóloga norte-americana Helen Fisher
Antropóloga norte-americana Helen Fisher | Foto: UOL

A interpretação de Fisher em relação aos números da pesquisa é otimista, pois a antropóloga acredita que, na verdade, as pessoas estão mais cautelosas antes de entrar em um relacionamento. Elas preferem conhecer mais seus parceiros e, muitas vezes, fazem isso por meio do sexo. “Você aprende muito sobre uma pessoa quando está entre os lençóis, não só se eles são bons de cama. Dá para saber se são pacientes, se têm senso de humor”, afirma.

"Escondem uma solidão"

Contudo, a psicóloga Cyntia assegura que é preciso refletir um pouco sobre os resultados de todas essas mudanças em uma geração tão acelerada e frenética. “As pessoas vão perdendo certas habilidades sociais e não anseiam pela possibilidade de experimentar vínculos afetivos duradouros. Acabam escondendo uma certa solidão e não sabem o que é amar, porque, como diz Carlos Drummond, amar se aprende amando, e sem uma desaceleração, sem sacrifícios, como fazer isso?”, questiona.

"Acabam escondendo uma certa solidão e não sabem o que é amar", explica a psicóloga
"Acabam escondendo uma certa solidão e não sabem o que é amar", explica a psicóloga | Foto: Getty Images

A resposta para Cyntia está na aceitação e na reflexão sobre cada um desses temas. Segundo ela, é preciso compreender melhor o uso da internet, o modo de produção global e as relações vistas nas redes sociais e as verdadeiras, vivenciadas. “Ninguém quer sofrer em uma sociedade hedonista, que só busca o prazer. Mas é preciso aceitar que o compartilhar diário não é sempre perfeito, é preciso querer aprender a amar”, declara.