Relacionamento abusivo


Amor ou abuso? Vítimas e especialistas ajudam a identificar

Além de agressões e gritos, relacionamentos abusivos podem também existir em pequenos comportamentos. Saiba reconhecer!

Agressões também podem estar nos pequenos detalhes | Foto: Arquivo/Agência Brasil

Manaus - Neste mês de junho, a miss Manicoré Kimberly Mota foi assassinada a facadas pelo namorado. À polícia, o autor do crime confessou ter ciúme excessivo da vítima, o que teria motivado a ação. O caso da jovem faz parte de outras mortes e agressões a mulheres mesmo durante a pandemia. Para tentar evitar novas vítimas, especialistas e sobreviventes de relacionamentos abusivos relatam como saber se  vínculo é saudável ou não. 

Jacqueline Suriadakis é advogada e presidente do projeto Fenix Amazonas, que acolhe mulheres vítimas de violência. Ela diz que o mais complicado para quem está numa relação abusiva é perceber a situação. Segundo a profissional, a vítima se encontra em um buraco escuro e sem conseguir enxergar a saída.

"Acredito que as pessoas costumam confundir o amor por terem carência afetiva, talvez mais ainda associada à infância, mas não apenas. Como a pessoa não teve esse afeto, acaba por não saber diferenciar amor e abuso. E fica mais suscetível a entrar em relacionamentos com pessoas de má intenção, agressivos", afirma Jaqueline.

Sinais abusivos

A advogada explica que o primeiro sinal de que está em um relacionamento abusivo é o controle por parte do parceiro. Ela lembra que no início dos namoros algumas pessoas costumam achar "bonito" o namorado que liga várias vezes para saber onde você está, o que faz e se está com alguém. No entanto, Jacqueline alerta para o perigo desse comportamento.

Jacqueline sobreviveu a um relacionamento abusivo e hoje ajuda mulheres vítimas de violência
Jacqueline sobreviveu a um relacionamento abusivo e hoje ajuda mulheres vítimas de violência | Foto: Divulgação

"Isso é um autocontrole disfarçado de proteção de querer bem. Gradualmente o parceiro vai te manipulando e dizendo que você não pode sair para certos lugares e nem ter certas amizades, não pode usar certas roupas e nem carregar maquiagem porque é errado. A pessoa passa a controlar a vida por completo da vítima e ela pensa que isso é um cuidado que ele está tendo com ela, uma forma de amor", diz a advogada.

Outro sinal do abusador é a manipulação, segundo Jaqueline. Ela sugere que se observe se a pessoa está sempre culpando a outra por tudo, se a ofende na frente de outras e depois diz que era brincadeira. 

"Se a pessoa te inferioriza, te constrange, se quer sempre exercer domínio sobre você, se ela te deixa mal e depois pede desculpas, mas sem se importar de verdade, isso pode ser um sinal de abusividade", afirma ela.

Família deve 'meter a colher'

Muito já se ouviu o ditado 'em briga de marido e mulher, não se mete a colher'. Mas quantas vítimas poderiam ter sobrevivido e se livrado de relacionamentos abusivos se alguém tivesse 'se metido'?

Para Jacqueline, é importante que a família apoie e não julgue a vítima. Ela afirma que familiares devem ser solidários e lembrar que a pessoa não está sozinha.

Projeto Fenix Amazonas já ajudou mais de 200 mulheres em dois anos, diz Jacqueline
Projeto Fenix Amazonas já ajudou mais de 200 mulheres em dois anos, diz Jacqueline | Foto: Divulgação

"Quando não há julgamentos e nem recriminação da vítima ela se sente mais segura e à vontade para contar o que ela sente e fica muito mais fácil ajudá-la a sair do relacionamento abusivo", comenta a advogada.

Psicológico da vítima (e do agressor)

 É de se esperar que constantes abusos e agressões podem prejudicar a saúde mental das vítimas. América Medeiros, psicóloga, explica como relacionamentos não saudáveis afetam os envolvidos. Antes de tudo, ela lembra que relacionamentos abusivos podem ser entre homem e mulher, mas também pessoas do mesmo sexo.

"Geralmente o abuso provoca marcas profundas no indivíduo. Umas das piores formas do relacionamento abusivo é que ele vai minando os recursos e a maneira de reagir, tornando o indivíduo refém do medo. A saúde mental das pessoas é sempre a primeira a ser afetada. Quando ocorre o abalo psicológico os principais sintomas a surgirem são: baixa autoestima, ansiedade, insônia, fadiga, medo, fobia, dores na cabeça e a depressão", afirma a especialista.

Psicóloga defende que vítima e agressor procurem ajuda profissional
Psicóloga defende que vítima e agressor procurem ajuda profissional | Foto: Divulgação

A psicóloga desenha também o quadro das mentes de abusadores. Segundo ela, esses parceiros querem sempre demonstrar seu poder sobre a vítima. Nem sempre eles partem para atitudes físicas, como exploração sexual ou agressões, explica a profissional.

"Existem abusos mais sutis. O agressor põe sua vítima em uma situação de inferioridade, depositando nela toda a responsabilidade emocional por ele, e isso gera prazer ao abusador", diz a psicóloga.

Terapia de casal resolve?

Caso tenha se reconhecido em um relacionamento abusivo, você pode pensar se é possível mudar esse quadro ou se a única solução é terminar. A depender do caso, América Medeiros diz que terapia pode ajudar a salvar a relação.

"Terapia de casal pode ajudar porque ela tem por objetivo contribuir com a resolução dos conflitos, disponibilizando um espaço para a comunicação reflexiva e assertiva, procurando alinhar as expectativas do casal. Porém, em alguns casos, o casal em terapia percebe que o melhor para ambos é a separação. Isso não quer dizer que a terapia não deu certo", diz a profissional.

Ela sugere ainda que o acompanhamento psicológico seja feito individualmente ao invés de casal, porque assim a vítima pode se sentir mais à vontade para falar. A psicóloga diz que isso ajuda a pessoa que foi afastada de amigos e familiares por força do lado abusivo da relação.

Relatos para se inspirar

Carla Oliveira, 38, (nome fictício para proteção da vítima) mora em Manaus e conta ter vivido em um relacionamento abusivo por 12 anos. Apesar de todo o tempo, ela só se viu livre do marido abusivo há dois anos.

"Não era violência física, e por vezes eu justificava por isso mesmo, dizia que ele nunca havia me batido. Mas, por outro lado, tinha muita pressão psicológica. Eu tinha medo de sair na rua e quando eu saía eu precisava ver se ele não estava me seguindo. Se ele me visse fora de casa, até mesmo com amigas, ele gritava e me fazia voltar com ele", conta a mulher.

Com o tempo, ela diz ter desenvolvido uma série de sensações como ansiedade, picos de pressão alta e azias. Ela fez boletins de ocorrência por pertubação do sossego e ameaças, mas o marido sempre dava um jeito de se desculpar com ela, que por isso desistia de seguir com as acusações.

Carla diz que tomou coragem para deixar a relação quando viu que não cuidava de si, nem da aparência, só para ver se assim o marido a deixava. Ela adoecia ou ia para festas em família e ele não se importava. 

Seis meses depois de terminar o casamento abusivo, ela diz que encontrou outro rapaz. O casal já está junto há um ano e Carla conta que é diferente com ele. Seu namorado faz questão de segurar sua mão e eles conversam muito. 

Ciclo da violência

É denominado 'clico da violência' o processo que pode entrar uma mulher ao se relacionar com alguém que tem comportamentos abusivos e violentos. A vítima, sem se dar conta, passa por estágios de agressões já conhecidas por juristas e psicólogos até que algo mais grave ganha possibilidade de acontecer. O infográfico abaixo demonstra as etapas da violência em um relacionamento. 

Ciclo da violência que vive uma pessoa vítima de relacionamento abusivo
Ciclo da violência que vive uma pessoa vítima de relacionamento abusivo | Foto: Alexandre Sanches

Busque ajuda e denuncie

Caso queira denunciar ou procurar ajuda, pode ligar para os números 180, 181 e 190. O atendimento também pode acontecer na Delegacia Especializada em Crimes Contra a Mulher (Deccm), localizada no bairro Parque 10, Zona Centro-Sul. Caso precise de um endereço alternativo, a mesma delegacia tem uma unidade especializada situada no bairro Cidade de Deus, zona Norte, atrás do 13º Distrito Integrado de Polícia (DIP). 

Além da denúncia, o apoio psicológico pode ser feito no Serviço Assistencial e Psicológico Emergencial às Vítimas de Violência (Sapem) ou no Centro de Referência de Amparo à Mulher (Cream), da Secretaria de Estado de Justiça, Direitos Humanos e Cidadania (Sejusc). O telefone é (92) 3624-5370.

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