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    Estado Psicológico


    Síndrome de Estocolmo: o que é o 'distúrbio' narrado no filme 365 dias

    Muitos amigos e familiares ficam revoltados quando uma vítima de violência decide não denunciar seu agressor por pena. A ação pode ser resultado da Síndrome de Estocolmo. Saiba Mais!

    | Foto: Divulgação

    Manaus - Novo sucesso da Netflix, o filme 365 dias conta a história de uma empresária que é sequestrada e recebe o prazo de um ano para se apaixonar pelo homem que lhe raptou. O roteiro foi aclamado por uns e criticado por outros que viram, na história, um caso de Síndrome de Estocolmo. Mas você sabe que distúrbio é esse e por que pode ser grave a má interpretação dele? 

    Síndrome de Estocolmo é um estado psicológico em que a vítima de um sequestro ou outros crimes, como estupro, sente solidariedade pelo seu agressor ou raptor. O fenômeno faz com que a pessoa ajude e até desenvolva amor por quem a causa algum mal. Mas especialistas apontam que a síndrome é muito mais complexa e, especialmente, um problema em casos de crimes contra a mulher ou contra a dignidade sexual. 

    Valéria é ativista pelos direitos das mulheres
    Valéria é ativista pelos direitos das mulheres | Foto: Divulgação

    "Filmes como 365 dias ou Cinquenta tons de Cinza podem ser analisados na ótica sociológica como representações da violência de gênero. É a exemplificação do que foi construído na cabeça do homem, o machão, o que não pode chorar, o provedor, e na cabeça da mulher, a que precisa ser mansa e submissa", afirma a socióloga Valéria Marques. 

    Ela diz que muitas pessoas assistem esses filmes com violência e "acham legal, compram chicote e vão brincar com o namorado", mas alerta para o perigo nisso. 

    "Quem tem o instinto violento, seja homem ou mulher, vai fazer dessa possibilidade um palco de terror. E isso vale não só para um casal entre homem e mulher, mas também com gays, lésbicas e transgênero, afinal, todos estamos passíveis de violência, embora em níveis diferentes", comenta a socióloga. 

    Confusão entre violência e amor

    Ela cita o sociólogo contemporâneo Pierre Bourdieu, que, em seu livro 'A dominação Masculina', faz uma análise do conceito de hábitos. Segundo ela, é possível entender na leitura que a dominação do homem sobre a mulher é construída no decorrer da vida e isso afeta a relação entre vítima e agressor.

    "Pierre Bourdieu fala das práticas violentas de vários agentes, como a família. Pessoas que sofreram violência do pai, em especial mulheres, vão confundir esses sentimentos porque você tem como agressor a pessoa que te dá ou deveria dar amor", afirma a especialista.

    Ela diz que a Síndrome de Estocolmo é "uma forma de violência psicológica", e que, portanto, "está tipificada na Lei Maria da Penha como uma das cinco violências contra a mulher". Para Valéria, o distúrbio deve ser tratado dessa forma.

    O direito das vítimas

    Como a socióloga Valéria Marques adiantou, a Síndrome de Estocolmo está também ligada à violência, essa tipificada em forma de crime. Para explicar como o distúrbio aparece em vítimas dos mais diversos crimes, o EM TEMPO entrevistou a delegada Débora Mafra, ex-titular da Delegacia da Mulher.

    A delegada deixou a cadeira de delegada para entrar na vida política, em 2020
    A delegada deixou a cadeira de delegada para entrar na vida política, em 2020 | Foto: Divulgação

    "Esse fenômeno é tão comum com as vítimas de violência contra a mulher e, ao mesmo tempo, difícil de entender. Como uma pessoa que sofre violência não quer utilizar a Justiça para criminalizar seu algoz? Incrivelmente, acontece muito", comenta ela. 

    Ela diz que muitas mulheres não conseguem ir à delegacia denunciar seu agressor porque sentem amor, paixão ou até pena de quem lhe causa mal. Ela diz que essas vítimas desenvolvem laços de amizade, de solidariedade com a pessoa que lhe ameaça, a agride. 

    "É difícil porque  família não entende o motivo que faz a mulher não denunciar a violência que sofre. Muitas vezes pode ser a Síndrome de Estocolmo agindo, por isso é importante que quem for testemunha de violência ajude a vítima a denunciar", ressalta a profissional. 

    Causas e sintomas

    Quem fala sobre o distúrbio é Thaiana Filla Broto. Ela escreveu um artigo que foi publicado no site Psicólogos Berrini, para profissionais da área que atuam na cidade de São Paulo (SP). Em sua análise, a especialista explica como a síndrome ocorre.

    "Ao acatar as regras do agressor, a vítima passa a evitar comportamentos que o desagrade, procura criar um ambiente com menos aspecto de “terror” e mais de “amenidade”, e se o agressor se mostra também confortável com aquela situação, a vítima passa a acreditar que, se ainda está bem, se ainda está viva, é porque o agressor está lhe protegendo e não querendo seu mal", explica a psicóloga.

    Cena do filme '365 Dias', da Netflix
    Cena do filme '365 Dias', da Netflix | Foto: Divulgação

    A ação, segundo ela, faz com que a vítima acredite que a pessoa que lhe causa mal, na verdade, faz isso apenas para ajudar, como se o estuprador ou assaltante estivesse agindo com bondade.

    Ela conta que o termo Síndrome de Estocolmo surgiu após um acontecimento datado de 1973, na cidade de Estocolmo, na Suíça. Lá, dois assantes invadiram um banco, e quando a polícia chegou, os criminosos fizeram quatro funcionários de reféns por seis dias.

    "Quando os policiais fizeram o procedimento para libertação das vítimas, as mesmas não aceitaram a ajuda das autoridades e usaram seus próprios corpos para proteger a integridade física dos assaltantes", conta a profissional.

    Busque ajuda e denuncie

    Caso queira denunciar ou procurar ajuda, pode ligar para os números 180, 181 e 190. O atendimento também pode acontecer na Delegacia Especializada em Crimes Contra a Mulher (Deccm), localizada no bairro Parque 10, Zona Centro-Sul. Caso precise de um endereço alternativo, a mesma delegacia tem uma unidade especializada situada no bairro Cidade de Deus, zona Norte, atrás do 13º Distrito Integrado de Polícia (DIP). 

    Além da denúncia, o apoio psicológico pode ser feito no Serviço Assistencial e Psicológico Emergencial às Vítimas de Violência (Sapem) ou no Centro de Referência de Amparo à Mulher (Cream), da Secretaria de Estado de Justiça, Direitos Humanos e Cidadania (Sejusc). O telefone é (92) 3624-5370.

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