Entrevista Especial


Administradora destaca ascensão da mulher no mercado de trabalho

Administradora em Comércio Exterior, Olinda Pereira Marinho, diz que empreender é uma forma que a mulher obtêm independência e se torna empoderada

Administradora dá orientações para mulheres se tornarem independentes
Administradora dá orientações para mulheres se tornarem independentes | Foto: Divulgação

Manaus- Administradora em Comércio Exterior e Mestre em Turismo e Hotelaria, Olinda Pereira Marinho, 56 anos, nascida em Nova Olinda do Norte (AM), serve de inspiração e exemplo de mulheres que fazem história e ensinam o caminho a outras que lutam para entrar no mercado de trabalho. Ela assumiu, recentemente, a coordenadoria de uma escola de negócios e, Em entrevista ao Em Tempo, falou um pouco de sua trajetória de luta e conquistas, e deixou um recado importante para as mulheres que sonham em conquistar a tão sonhada liberdade financeira.

1) Dentre as várias atividades a senhora avalia projetos de inovação e empreendedorismo. Como a mulher vem se comportando nesse cenário?

As minhas experiências me fizeram enxergar que é necessário buscar uma nova forma de ver o mundo e especialmente de ver as pessoas, para que possamos transformar nossas dores e as das outras em potência. Diante dos novos desafios que circundam esse cenário, a participação feminina vem crescendo de forma empreendedora e inovadora em todos os segmentos, e nem sempre vem vinculada a uma ação profissional formalizada, mas ainda com pouca ou nenhuma orientação de gestão, minimizando a possibilidade de empoderamento, mas sempre presente e em busca constante de conhecimento e de crescimento. No decorrer dos últimos, a Global Entrepreneurship Monitor (GEM) vem pesquisando o desenvolvimento da ação empreendedora feminina no Brasil e de mais 34 países. Constam no Relatório Executivo do Empreendedorismo no Brasil, informações que podem contribuir para a compreensão desse cenário. O Brasil se destaca entre os países pesquisados, alcançando a 7ª colocação entre as nações com renda média e renda alta. É possível averiguar outras distinções: a participação empreendedora feminina, como a ocupação em 15º lugar de empreendedorismo por oportunidade, caracterizada pela criação de uma atividade favorável pelo mercado socioeconômico. Em contrapartida, encontrava-se na 4ª posição na iniciativa de empreendimentos por necessidade, que são aqueles profissionais que iniciam ação diante da dificuldade de se manterem no mercado de trabalho, não encontrando soluções interessantes para si de ocupação e renda e ainda bate hoje com a pesquisa realizada pelo GEM em 2005. Nesse mesmo ano a participação do gênero feminino em atividades empreendedoras atinge a 6ª colocação por igualdade de gênero dos países pesquisados, computando uma taxa percentual de 10,8%, quando observada no cenário de todos os países pesquisados, enquanto a do gênero oposto ocupa o 13º lugar, com percentual de 11,8%. A mulher tem uma garra dentro de si, e já nasce com essa coisa de empreender e desconstruir para reconstruir. Para a mulher chegar ao mercado de trabalho ela tem que empreender ao longo de sua vida, dentro da personalidade, dentro da criação, como aquela coisa de realizar, de tentar, de fazer.

2) Pesquisas revelam que as mulheres são maioria no segmento empreendedor, Amazonas é um exemplo. Em sua opinião, as políticas públicas são suficientes para incentivar a participação feminina nesse segmento?

Eu venho do mercado corporativo e acadêmico, são mais de 38 anos trabalhando para empresas de todos os portes e eu sempre via que as mesmas não tinham um processo de trabalho fluído e integrador, mas quando uma mulher assumia o comando esse quadro mudava. Ao mesmo tempo observava que os gestores eram homens “importados” que não conheciam a singularidade regional e legal de nossa região, por isso meu interesse em administração e estudar comércio exterior para colaborar com sugestões para criação de políticas públicas, não só visando incentivar a participação feminina nesse segmento, mas alertar para as muitas oportunidades que já existiam e deixávamos passar. As mulheres, no Amazonas, visavam casar ou encontrar um homem rico que as sustentassem e a seus filhos, tudo muito em função da própria criação amazônica. Isso me incomodava profundamente, por isso, com 16 anos já estava em Brasília, e aos 18, no Rio de Janeiro, e já adentrando a área de comércio exterior, e, logo depois, aos 28, como conselheira técnica da Associação de Comercio Exterior do Brasil (AEB), percebi que as políticas públicas não discriminam homens e mulheres, e no Amazonas não é diferente, por esse motivo vimos hoje mulheres à frente e na gestão em diversos segmentos. Eu era garota e trabalhava na Dismac, lembro de uma mulher chamada Eunice Michiles, na época de um Amazonas com uma estrutura muito engessada, entregas e estruturas rígidas, modelos muito quadrados de gestão e de valorização feminina, e eu via que ela tinha essa visão holística que envolvia o todo e focada, especialmente nas políticas públicas. Sem ela saber, me estimulou a aproveitar essas oportunidades e atrair para nosso estado programas como o PEIEX (Programa de Qualificação às Exportações), que capacita empresas para exportação, da APEX Brasil. Eu fico ligada no PPA para planejar negócios. Se você perguntar para um empresário se ele conhece o Plano Plurianual para o seu país, estado ou município o cara não sabe, então fica a dica mulherada, não vale somente criar políticas públicas temos que conhecer, dissecar e gerar negócios com a aplicação das políticas públicas na diversidade regional do país, por meio do desenvolvimento econômico e da participação feminina empreendedora, vinculada às ações elaboradas desde o início de 2009, com a criação da Secretaria Especial de Políticas da Mulher da Presidência da República (SPM), que particularizou o olhar feminino para os negócios.

3) Existem características particulares ao gênero que ajudam a mulher a empreender mais? Elas podem representar a "economia criativa" nessa área?

Economia criativa é um conceito utilizado para definir negócios movidos pelo capital intelectual e cultural, então, imagina no Amazonas as riquezas que podemos explorar nessa área, especialmente nas milhares de comunidades ribeirinhas, indígenas e quilombolas, onde a maioria dos líderes comunitárias são mulheres que vão passando de geração em geração a sua arte, cultura, lendas, histórias, que vão se desenrolando e se transformando em artesanato, biojoias, artigos para cama, mesa e banho, com um grande toque e originalidade local. Essa singularidade criatividade aliada à arte e cultura cabocla ribeirinha tem gerado resultados nas chamadas indústrias criativas, envolve atividades que guardam relação com a criação, a produção e a distribuição de produtos e serviço, a criação e a produção por si só já é uma característica feminina da nossa região. No Amazonas, 75% são mulheres empreendedoras e sábias que transformam a economia criativa em produto para exportação, em sua maioria com foco na gastronomia de raiz, artesanato, biojoias, empreendedorismo social, startups em diversos segmentos, criação de programas e projetos voltados para maior capacitação empreendedora com inovação de baixo custo, esse tipo de tecnologia de baixo custo chamado de lowtech tem sido muito utilizadas nas ações nessas regiões.

4) A senhora assumiu recentemente a coordenadoria de uma escola de negócios. Como será desenvolvido esse trabalho?

Esse é um grande desafio, sempre a educação é desafiadora e me instiga a criar metodologias, ferramentas e desenvolver estratégias deliberadas e emergentes para momentos como esse que estamos vivenciando, de contingências e oportunidades. O trabalho já está sendo desenvolvido e conforme meu estilo, a partir de uma visão holística, visão do todo, de forma planejada, organizada e direcionada para que haja uma coordenação integrada com as demais coordenações e setores da IES. Venho observando a pegada da Faculdade Santa Teresa desde a participação das coordenadoras em um HawkLab na Fundação Paulo Feitoza, onde fui mentora e avaliadora na criação de projetos inovadores. Como é raro vermos coordenadores metendo de fato a mão na massa, aquilo me chamou a atenção, e procurei saber a missão, visão, valores, propósito e objetivos gerais e específicos da IES, levantei tudo pela Internet quando me deparei com uma frase da diretora Amanda Stald que me impactou e despertou meu interesse por conta da forte pegada de negócios que transmitia e com uma proposta focada em business. Iniciei em janeiro na IES ministrando empreendedorismo e inovação para 3 turmas da graduação e pós graduação em liderança e motivação. Já deu para perceber que os alunos tanto da graduação quanto da pós, estão afoitos em desenvolverem as habilidades e competências na prática facilitando o acesso a mercados nacionais e internacionais. Com uma mudança de mindset direcionado não somente para conseguirem gerar emprego e renda, mas, especialmente se encontrarem na profissão que seus dons e talentos conduzem a empreender, e que a maioria das pessoas deixa adormecido por não se conhecerem e por jamais terem feito um teste vocacional ou um teste de perfil empreendedor.

5) A senhora também coordena o Núcleo de Qualificação às Exportações, da Agência Apex Brasil, no Amazonas e em Roraima. De que forma o núcleo contribui para a economia da região?

O PEIEX é o Programa de Qualificação para Exportação oferecido pela Apex-Brasil para que as empresas interessadas em exportar seus produtos iniciem o processo de exportação de forma planejada e segura. As empresas que nunca exportaram têm várias dúvidas em relação à comercialização internacional como por exemplo: Minha empresa está pronta para exportar? Qual é a melhor forma de fazer meu produto chegar a determinado mercado? Como deve ser a negociação com o comprador internacional? Como formar o preço do meu produto para outro país? Devo exportar diretamente, ou fazer uso de uma comercial exportadora? O PEIEX ajuda a responder essas e a muitas outras questões relacionadas à exportação, como o Programa é implementado em todas regiões do país, e seu foco é a exportação, a venda de produtos para o mercado externo,  o resultado da exportação contribui sobremaneira para a alavancagem da balança comercial local, regional e nacional, além da visibilidade que é dada  nos 25 países onde a APEX atua com seus escritórios, o que proporciona não só a comercialização de produtos e serviços, mas o turismo em diversas vertentes. Por meio de parcerias da Apex-Brasil com instituições de ensino (Universidades, Parques Tecnológicos ou Fundações de Amparo à Pesquisa) ou Federações de Indústria que são chamadas de entidades executoras do programa, elas são responsáveis pela aplicação da metodologia do PEIEX na qualificação de empresas.

6) A senhora é um exemplo de mulher bem sucedida profissionalmente. Quais os desafios de conciliar a carreira com as atividades em família?

Eu não tive muita dificuldade nessa conciliação, pois alinhei tudo antes com esposo, avô, avó, tios e meus colaboradores. Deleguei responsabilidades pra todo mundo, e, na época, servi de exemplo para outras colegas. Quando estava ministrando aula em Barcelona, na Espanha, minha filha estava com 4 meses e ainda amamentando, fiz um estoque do meu leite para que ela mamasse o mês inteiro que eu estivesse fora, e o pai cuidando. Quem sofria era eu quando dava vontade de ela mamar e o seio quase empedrava, e eu usava a maquininha para tirar o leite lá no exterior e doar para o banco de leite local. Essa realmente foi a pior parte, mas que deu um grande ibope quando um canal de TV foi na minha casa para filmar o pai da minha filha, que era surfista, no trabalho doméstico e cuidando da criança, trocando fraldas, dando banho, esquentando leite materno para dar na mamadeira, ou seja, fazendo o papel da mãe, enquanto a mãe trabalhava.  Há 24 anos, as viagens eram o meu maior desafio, pois tenho uma empresa de comércio exterior, a Marinho Comex, que criei durante a faculdade de administração e comércio exterior, as atividades realizadas com meus clientes do Brasil e do exterior me exigiam viagens, empresas como a Papaiz, Peugeot Citroen, PSA, Sadia, Gerdau, APEX, Banco do Brasil dentre outras exigiam uma logística muito bem planejada. Nessa época, eu tinha 29 anos e nas reuniões a maioria eram homens bem mais velhos do que eu, de ternos e engravatados, e eles ficavam esperando o Dr. Marinho chegar para a reunião, achavam que eu era a secretária, tive que mudar essa visão deles na marra, mas com muito jeito, e com os resultados, consegui o respeito de todos.  Quando defendia empresas brasileiras contra práticas desleais e predatórias de comércio ficava até 30 dias longe de casa em hotéis, mas conciliei os estudos da minha filha, a agenda de trabalho, lazer e dá certo. Eu sempre trazia livros pra minha filha ler e hoje ela é uma escritora poliglota. Sempre trabalhei 3 turnos desde pequena quando acordava de madrugada pra ajudar minha mãe e meus 8 irmãos nos afazeres domésticos antes de ir para a escola.

7) Na sua opinião, qual o maior desafio hoje para a mulher se destacar no mercado de trabalho?

Em minha opinião, algumas mulheres se limitam e não sabem se posicionar por conta de baixo estima ou por soberba. Estão muito presas a padrões sociais ultrapassados, se preocupam em excesso com opiniões alheias, tem medo em emitir suas ideias, pensamentos, opiniões, tem medo de errar, de correr risco, de se jogar de fato. Algumas vezes são hipócritas pregando uma coisa e fazendo outras por conta da mídia ou por pressão de gestores, não sendo autênticas, e com isso, ficam inseguras e geram inseguranças. Fazem aquilo que acham que o mercado impõe, agindo algumas vezes como robôs mandados. Precisa equilibrar, precisa reaprender e se valorizar marcando sua posição, não permitindo que outros tirem o brilho do seu resultado, especialmente por alguns homens vampiros que são craques em fazer isso. Às vezes até mesmo seus companheiros nos lares concorrem com ela. Estamos vivendo uma revolução tecnológica e ao mesmo tempo uma revolução humana que está mexendo e dando um reboot geral no mindset feminino, é o momento de se destacar, e é o que tenho observado por meio dos eventos e Lives nas redes sociais, onde estamos mais à vontade para falar e alcançar o que e quem antes era limitado.

8) Que conselho a senhora deixa para as mulheres que sonham em iniciar um negócio próprio e conquistar a liberdade financeira?

As mulheres estão em destaque em todas as áreas e mandando muito bem! Mas só isso não basta, precisa saber negociar, saber monetizar suas expertises, em resumo, saber quanto vale monetariamente dispor de seu tempo, de suas habilidades, competências, redes de relacionamento e todo o cabedal de conhecimento que o universo feminino carrega. Existem várias formas, você pode montar seu próprio negócio baseado nos seus dons e talentos e criar um MEI (Micro empreendedor individual), pode criar um EIRELI aquelas que já tem uma formação e desejam criar um negócio de assessoria ou consultoria, economia criativa, educação, etc. O Sebrae dá o caminho das pedras. Pode ainda empreender e inovar com a criação de Startups, empresa não tradicional voltada para tecnologia e criação de aplicativos que virou referência, e suas metodologias ágeis passaram a ser usadas nos novos negócios nas grandes corporações e multinacionais. Hoje, você pode criar Startup em qualquer segmento. Por meio da Jornada do Empreendedor que aborda a ideação, pré-operação, operação, tração e expansão, alinhada com um Modelo de Negócios, como o Business Model Canvas, você poderá simular diversos negócios e depois evoluir para um Plano de Negócio e para a Jornada Corporativa já com o negócio em ação. Se quiser mais dicas pode procurar a RAMI- Rede de Inovação e Empreendedorismo da Amazônia, que estou presidindo desde outubro de 2018, e que representa os ambientes de empreendedorismo e inovação da nossa região.


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