Zona Sul


Time de handebol resiste contra criminalidade no bairro Betânia

Quadra utilizada por alunos para treinar foi cenário da execução de 17 traficantes, no mês passado

Alunos venceram em 1º lugar no Campeonato Amazonense de Handebol Masculino Infantil 2019. | Foto: Divulgação

Manaus - Resistência é uma palavra que o time de handebol da escola estadual Professor Nelson Alves Ferreira conhece muito bem. Os alunos da instituição, localizada no bairro Betânia, Zona Sul de Manaus, ganharam, no último domingo (10), o Campeonato Amazonense de Handebol Masculino Infantil 2019. A vitória é fruto de muito esforço e dedicação do time, que estava sem local de treino desde a execução de

17 traficantes nas proximidades da quadra do Bodó, em outubro deste ano, naquela região.

O professor de educação física Alessandro Garcia, de 35 anos, explica que os alunos treinavam às segundas, quartas e sextas na quadra. O local foi cenário da execução que deixou 17 traficantes mortos no mês de outubro. “Como criminosos invadiram a área, pela segurança dos alunos, deixamos de ir para lá”, disse o professor. 

Atualmente, os alunos treinam em um pátio improvisado dentro da instituição de ensino, de segunda a quinta, das 17h30 às 18h30. Já às sextas, os alunos contam com o espaço da escola estadual Antônio Lucena Bittencourt, para treinar das 17h30 às 19h30. 

Quadra improvisada não tem cobertura e alunos sofrem com o calor.
Quadra improvisada não tem cobertura e alunos sofrem com o calor. | Foto: Divulgação

O pátio da escola, que é utilizado como quadra, não tem cobertura e é de tamanho reduzido. “As aulas de Educação Física são feitas todas ali, tanto pela manhã, quanto pela tarde. Às vezes, o calor é insuportável”, relata Alessandro. 

Campeonato Amazonense 

“Ressalto que ganhamos na garra e na coragem, já que não temos nem quadra poliesportiva em nossa escola. Treinamos num pátio improvisado como quadra”, afirma Alessandro. 

O professor leciona da Escola Estadual Professor Nelson Alves Ferreira desde fevereiro de 2013 e começou a trabalhar o handebol com os alunos em 2015, quando foram campeões da categoria infantil da seletiva para o Jogos Escolares do Amazonas (JEAs) pela Coordenadoria Distrital de Educação 02, da Secretaria de Estado de Educação e Qualidade de Ensino do Amazonas (Seduc). “Desde aí, venho desenvolvendo esse trabalho em prol dos alunos que queiram jogar e gostem do handebol”, relata. 

Em 2016, a escola participou do Campeonato Amazonense de Handebol Infantil, mas não teve um bom resultado. Nos anos seguintes, 2017 e 2018, ficaram em terceiro lugar. O tão aguardado título veio neste domingo (10), quando foram consagrados campeões da modalidade.  

“Essa vitória representou um sonho concretizado para eles, pois durante dois anos seguidos perdemos na semi final e ficamos em terceiro lugar. Esse ano tinha que ser diferente. Treinamos muito para chegar a essa vitória”, desabafa o professor. 

Patrocínio 

O professor Alessandro trabalha com alunos das categorias Mirim (10 e 11 anos), Infantil (12 a 14 anos) e Cadete (15 e 16 anos). Como não tem patrocínio, apenas a equipe da categoria Infantil participou do Campeonato. O objetivo é que, em 2020, o professor consiga o apoio necessário para que as outras equipes também possam participar. 

Atualmente, o professor arca sozinho com os gastos da competição, que envolvem transporte, alimentação, pagamento de inscrição e arbitragem. 

Time

Kleberson Lira da Silva, de 14 anos, capitão do time, conta que foi uma grande emoção ver seu time ganhando. “Este foi o maior prêmio que ganhei até hoje. Eu dei meu sangue lá”. O aluno treina handebol desde 2016 e tem o esporte como uma importante parte de sua vida. “Se eu parar de treinar handebol, nem sei o que eu farei da minha vida”, diz. 

Kleberson Lira da Silva, 14, capitão do time.
Kleberson Lira da Silva, 14, capitão do time. | Foto: Divulgação

Assim como os colegas de time, Kleberson vive em um ambiente de bastante criminalidade e vulnerabilidade. “Muitos moram em áreas de risco”, conta Alessandro. 

Um outro colega, chamado Davi, foi expulso do local onde morava com a avó por criminosos de uma facção. Davi foi o artilheiro do Campeonato Amazonense, nos anos de 2018 e 2019.

Estas são só algumas das histórias que o professor já vivenciou. “Já cheguei até a comprar tênis para os alunos poderem participar. Ontem, por exemplo, o aluno Felipe jogou com um tênis emprestado meu”, compartilha. 

Apesar das dificuldades, todo esforço é recompensado. Como diz Alessandro, “o esporte é transformador”. Alguns alunos do time eram muito faltosos, iam de vez em quando para a escola. “Aos poucos fui trabalhando essa questão das faltas com eles, com muito diálogo. Hoje em dia, todos meus atletas são assíduos. Dificilmente faltam às aulas. Só participa da equipe quem frequenta e tem boas notas”. 

Para aqueles que queiram ajudar o time, o professor disponibiliza o número: (92) 99230-8182.