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    Centernários


    Clubes centenários vivem desafios para renascimento do futebol no AM

    Nacional, São Raimundo e Rio Negro são os clubes centenários do Amazonas, mas diferente de muitos clubes antigos brasileiros estão em desfalque no futebol regional e nacional

    Momentos de Nacional, São Raimundo e Rio Negro | Foto: Divulgação e arquivo

    Manaus - Atlético Rio Negro Clube, Nacional Futebol Clube e São Raimundo Esporte Clube são os três times centenários do Amazonas. Além de dividirem momentos marcantes na história do futebol amazonense, os clubes partilham também o sentimento de nostalgia pelos anos antigos, com realidades distintas e semelhantes se comparadas ao tempo atual.

    O Nacional FC, com 107 anos, é recordista de títulos estaduais: são 42 conquistas, incluindo um hexacampeonato entre os anos 1976 e 1981. Tornou-se o primeiro clube da região a disputar a Série A do Campeonato Brasileiro,  sendo o recordista de participações com 14 edições no currículo. Na Copa do Brasil, também é o amazonense que mais vezes esteve na disputa, com o total de 16.

    Time do Rio Negro Clube tetracampeão Estadual
    Time do Rio Negro Clube tetracampeão Estadual | Foto: Divulgação

    Em 2020, apesar de chegar à fase de semifinais do primeiro turno do Campeonato Amazonense e ter em disputa a pré-Série D do Brasileirão, o clube é alvo de muitas críticas, sendo a maioria direcionada para a diretoria e presidência do clube. Com três jogos disputados no returno do Estadual, o Nacional ocupava a 4ª colocação, com quatro pontos de nove possíveis.

    O maior rival do Nacional é o Rio Negro, com os 17 títulos do Campeonatos Amazonense em 106 anos de existência, incluindo um tetracampeonato entre 1987 e 1990. O Galo foi o primeiro amazonense a ganhar um torneio à nível regional,em 1928, e também o primeiro a ganhar um torneio fora do Brasil - a Copa Guiana Inglesa, em 1963. É um dos três clubes do futebol regional que já participou da Série A do Campeonato Brasileiro, em seis edições diferentes, além das seis vezes que jogou a Copa do Brasil.

    Time do Nacional FC em 2020
    Time do Nacional FC em 2020 | Foto: Divulgação

    O cenário interno turbulento de 2019 fez com que o clube fosse rebaixado para a Série B do Estadual. Com salários atrasados, uma dívida de R$ 2, 5 milhões e mudança no comando geral, o Barriga Preta ficou, inclusive, de fora da Segundinha do mesmo ano. Desde que assumiu a presidência, Jefferson Oliveira definiu um objetivo: reerguer a sede do clube e voltar à elite do futebol.

    Já o São Raimundo EC é talvez o clube amazonense de maior reconhecimento nacional, após as seis edições consecutivas que esteve na Série B do Brasileirão. O Tufão possui também um vice-campeonato da Série C - ficando atrás apenas do Fluminense - e marcou presença em oito edições da Copa do Brasil. Dentre os destaques, também está a honraria de ser o primeiro time amazonense a disputar uma competição internacional oficial. Em 1999, o título da Copa Norte deu vaga à Copa Conmebol, organizada pela confederação Sul-Americana de Futebol, onde o São Raimundo caiu nas semifinais, para o CSA (AL).

    Time do São Raimundo na temporada 2020
    Time do São Raimundo na temporada 2020 | Foto: Lucas Silva/ Em Tempo

    O time não participa de competições nacionais desde 2007 e o início do Barezão 2020, com o técnico Anquimar Moreira, o "Mazinho", não foi muito animador. Terminou o 1º turno na 5ª colocação, fora da zona de classificação para o mata-mata e coincidentemente o mesmo lugar onde encerrou o returno. Ao todo, foram 11 pontos conquistados de 30 possíveis, além de conceder 18 gols e marcar apenas dez.

    Leão da Vila Municipal

    Torcida do Nacional FC
    Torcida do Nacional FC | Foto: Divulgação

    O Leão da Vila Municipal foi fundado em 13 de janeiro de 1913, como parte do antigo Manaos Sporting Club. Os mascotes são a águia e o leão, este último mais reconhecido e responsável pela alcunha do Nacional, também em homenagem ao bairro da Vila Municipal, atual Adrianópolis, na Zona Centro-Sul de Manaus - onde fica a sede social do clube.

    Para o Barezão 2020, o Nacional entrou pressionado para mostrar um bom desempenho, já que teria a disputa do Campeonato Brasileiro da série D, no segundo semestre do ano. Classificou-se para a fase de mata-mata do 1º turno na última rodada, contando com um tropeço do São Raimundo, e acabou eliminado por 4 a 2 para o Amazonas FC. Até à paralisação pelo coronavírus, foram três treinadores diferentes à frente do time em dez partidas disputadas.

    "Mantivemos praticamente nove jogadores da espinha dorsal de 2019 e, por isso, conseguimos fazer um time bom para o Estadual de 2020, mesmo não indo além do nosso limite, que é imposto pela diretoria do Nacional", avalia o presidente do clube, Nazareno Pereira. Segundo ele, a diretoria impõe um limite orçamentário para que não se gaste além do arrecadado e "por isso o clube está de pé ainda".

    "A gente impõe um limite para que não se faça além da realidade. O time está montado, mas, com o campeonato suspenso, os jogadores foram para casa e os contratos também estão suspensos. Vamos aguardar a situação da CBF porque falta estipular uma data para começar a Série D e a gente não pode fazer nenhum planejamento para a equipe sem previsão de datas", esclarece o mandatário sobre a cara do time para o Brasileirão.

    Técnico Gilberto Pereira assumiu o time após o empate com o São Raimundo, que custou o emprego de Aderbal Lana
    Técnico Gilberto Pereira assumiu o time após o empate com o São Raimundo, que custou o emprego de Aderbal Lana | Foto: Divulgação

    Desde 2019 à frente da presidência do Nacional, Nazareno Pereira de Melo, de 60 anos, é muitas vezes o alvo principal das críticas provenientes de torcedores e parte da mídia esportiva. Apesar de reconhecer o incômodo que traz ao dia-a-dia, o mandatário do Leão afirma que não se deixa afetar por isso. Segundo ele, os criticismos vêm de quem "não conhece a realidade do clube".

    "A crítica vem de todos os lados quando não se conhece a realidade do clube, então eu acho que para criticar precisa conhecer o que está acontecendo. Se eles [torcedores] tivessem o conhecimento do que vem acontecendo no Nacional desde 2015, 2016, não estariam criticando essa diretoria, que está enfrentando problemas não atuais, mas sim do passado. A nova está tentando resolver o passado para melhorar o presente", aponta o presidente.

    De acordo com ele, desde que assumiu o clube, em 2019, a principal missão é reerguer o time. Apesar da situação complicada que descreve, o mandatário ressalta os bons resultados em 2019, que renderam vaga à quarta divisão nacional este ano. O ponto negativo da temporada no Barezão 2020, segundo ele, foi a saída do técnico Aderbal Lana e a má adaptação do técnico Gilberto Pereira à equipe.

    Nacional não poupou e investiu pesado em contratações. Ao todo foram 16
    Nacional não poupou e investiu pesado em contratações. Ao todo foram 16 | Foto: Divulgação

    Para voltar aos dias de glória, o Nacional aposta na reestruturação das categorias de base. Com trabalhos intensos e, de certa forma "privilegiados" no campo próprio, assistência rara nos times de Manaus, o Nacional espera reinventar o jeito de jogar, de uma maneira mais semelhante àqueles que outrora deram muitas alegrias à torcida nacionalina e enchiam o estádio Vivaldo Lima.

    "O trabalho com a categoria de base foi intenso e priorizado. Disputamos todas as categorias que podíamos. Há seis anos o Nacional não ia para a Copa São Paulo de Futebol Júnior, e em 2020 quem representou o Amazonas fomos nós e por pouco não conseguimos uma classificação inédita. Dessa categoria tem vários jogadores que seriam e serão aproveitados quando voltarem as atividades. Nossas categorias de base continuam com um trabalho muito sério, sob comando do Ribamar", relata Nazareno.

    Galo da Praça da Saudade

    Jefferson Oliveira na sala de troféus do Rio Negro Clube
    Jefferson Oliveira na sala de troféus do Rio Negro Clube | Foto: Lucas Silva/ Em Tempo

    O Atlético Rio Negro Clube foi o último clube a conquistar o Campeonato Amazonense quatro vezes seguidas, entre 1987 e 1990. Fundado em 13 de novembro de 1914, o Rio Negro foi importante não só no desenvolvimento do futebol regional na capital, como foi também referência tanto em outros esportes, como são os casos do vôlei e do handebol, quanto no âmbito social, com a organização de festas e eventos.

    O apelido "Barriga Preta" se deve por conta do tradicional uniforme: camisa branca e uma faixa horizontal preta. Em conjunto, o mascote e a localização do Rio Negro Clube, no bairro Centro formam a outra alcunha famosa. Além dos 17 títulos Estaduais, o Galo também conta com um título da Segundinha em 2008  e uma expressiva 9ª colocação na Série B do Brasileirão de 1986.

    "Assumimos em 3 de abril de 2019, com uma situação bem ruim: dívidas, salários atrasados, clube precisando de reforma, então fizemos uma coisa de cada vez. Reformamos primeiro o clube, pintamos e colocamos o salário da maioria das pessoas da temporada 2019 em dia. Caiu no meu colo uma série B, as dívidas disso e reabrimos o clube, que na realidade estava fechado, para muitos eventos", conta o presidente do clube, Jefferson Oliveira.

    Jefferson Oliveira é presidente do Rio Negro desde 2019
    Jefferson Oliveira é presidente do Rio Negro desde 2019 | Foto: Lucas Silva/ Em Tempo

    Os diversos eventos realizados no Rio Negro Clube são, atualmente, o carro chefe para manutenção dos 12 funcionários que trabalham para a ressurreição do Galo. Em 2020, o clube foi reaberto e, inclusive, voltou a ter a tradicional festa de carnaval, ausente em 2019. Jefferson conta que o mês de março, inclusive, rendeu lucro aos cofres, mas a parada do coronavírus trouxe tudo à estaca zero.

    "Estamos atrás de outras soluções, claro, e uma das coisas que vamos fazer a partir de semana que vem é começar a vender as máscaras personalizadas do Rio Negro. Conseguimos uma parceria com uma empresa que vai fazer as máscaras para tentarmos arrecadar algum dinheiro. Depois que passar essa fase, vamos ver qual a realidade que vamos enfrentar. Todos somos conscientes de que teremos uma outra realidade em tudo. Agora temos que nos adaptar à isso e tocar o barco", revela o presidente.

    Camisa do Rio Negro Clube
    Camisa do Rio Negro Clube | Foto: Leonardo Mota

    Questionado quanto à volta do time ao futebol regional em 2020, o mandatário afirma que não pode fazer muitos planos por conta da instabilidade instaurada do mundo com a pandemia, mas garante que o Rio Negro irá participar das competições assim que forem restabelecidas. Ainda que com uma "realidade diferente", os torcedores do Barriga Preta certamente estarão felizes de ver o tradicional time de volta.

    Para facilitar na aproximação e fazer o dinheiro chegar, a estratégia foi se juntar ao combate à pandemia. Para isso, o clube decidiu comercializar máscaras de proteção com o escudo do clube. Surgiu como uma saída para nós, e a partir de segunda (20) que vem estaremos fazendo uma ação com essas máscaras, pedindo para o torcedor rionegrino nos ajudar, porque além da proteção carrega a paixão pelo clube", explica Jefferson.

     Tufão da Colina

    São Raimundo brilhou na Série B do Brasileirão durante seis temporadas consecutivas
    São Raimundo brilhou na Série B do Brasileirão durante seis temporadas consecutivas | Foto: Divulgação

    Com 101 anos, o São Raimundo Esporte Clube foi fundado em 1918. O clube é o mais novo dos três centenários no Amazonas e completa aniversário no dia 18 de novembro. As tradicionais cores azul royal com branco estampam o uniforme do time heptacampeão Estadual e o primeiro amazonense a participar de um torneio internacional oficialmente.

    Da derrota para o CSA (AL), na semifinal da Copa Conmebol de 1999 - que deixou o Tufão na terceira posição no torneio - para os dias de hoje, certamente muita coisa mudou. Para o Barezão 2020, sem expectativas muito altas, o time ainda foi duramente criticado por parte da torcida. O time terminou o Estadual na 6ª colocação geral, atrás de Amazonas, Manaus, Penarol, Fast e Nacional, nesta ordem.

    "A temporada foi bem melhor do que imaginávamos. Apesar de termos brigado contra o rebaixamento, antes da parada do campeonato conseguimos uma vitória importante, que seria importante tanto contra o rebaixamento, quanto para a classificação para as semifinais. Foi bem melhor porque sabemos das dificuldades que o clube passa, mas vamos conseguir fazer um trabalho de soerguimento", garante Cícero Júnior, representante do clube e das categorias de base.

    Torcida do Tufão
    Torcida do Tufão | Foto: Divulgação

    À frente das divisões de formação de atletas desde 2017, juntamente com o ídolo alviceleste, Delmo, Cícero revela que o São Raimundo vem fazendo um trabalho focado na formação de atletas profissionais para o clube, acima de  tudo. Esse é um dos principais passos para a reestruturação de um dos clubes da região Norte de maior renome no cenário esportivo moderno. Apesar de parecer óbvio, não é o caminho utilizado pela maioria dos times.

    "Em 2018 começamos a disputar todas as competições federadas, do Sub-11 até Sub-21. Não focamos muito em títulos em 2018, mais na reorganização da base. Continuamos em 2019, sendo campeões sub-17 e sub-21. A proposta é de continuidade, porque o trabalho com a base é o que reergue o clube. As equipes sub-19, que disputa o Amazonense e Sub-17, que vai jogar a Copa do Brasil, estão formadas, mas as demais categorias farão seletivas quando as atividades retornarem", conta Cícero.

    Torcida do São Raimundo no estádio da Colina
    Torcida do São Raimundo no estádio da Colina | Foto: Divulgação

    Para os planos futuros do Tufão, o dirigente indica que o foco deve ser na continuidade dos trabalhos de formação, com a mesma base que disputou o Barezão 2020 disponível para voltar a campo com a camisa alviceleste. As expectativas, portanto, seguem na luta contra o rebaixamento. "A proposta é manter a base de 2020, conforme reorganização do calendário, e ano que vem voltar na série A e tentar fazer um campeonato que não resulte no rebaixamento", revela Cícero Jr.