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    Impacto social


    Sensei Henrique Machado acredita que a arte suave transforma vidas

    Honra, disciplina, lealdade e gentileza. O professor de jiu-jitsu acredita que todas essas virtudes podem ser adquiridas por meio do esporte

    O professor de artes marciais atua há mais de 20 anos e atualmente trabalha na Gracie Barra,
    O professor de artes marciais atua há mais de 20 anos e atualmente trabalha na Gracie Barra, | Foto: Reprodução/Facebook

    Manaus - O Amazonas se tornou, nos últimos anos, um palco das artes marciais para o mundo. Judô, jiu-jitsu e até o mais famoso UFC ganharam projeção nacional e internacional. Um dos atletas amazonenses que alcançou esse destaque foi o lutador Felipe Ferreira, como narrou o EM TEMPO. Mas, há pelo menos 30 anos, a arte suave já mudava a vida das pessoas.

    Sensei Henrique Machado é um deles. O professor de artes marciais atua há mais de 20 anos e atualmente trabalha na Gracie Barra, uma academia com mais de mil unidades espalhadas pelo mundo. Em Manaus, se localiza no bairro Aleixo, Zona Centro-Sul.

    O mestre não só teve a própria vida moldada pelo esporte, mas também a de muitos dos seus alunos. "Comecei a lutar ainda na década de 70, por influência do meu pai. Logo cedo, ele viu que eu me interessava pelo esporte e me levou para treinar. Eu posso dizer, seguramente, que o jiu-jitsu não só mudou a minha vida, como também é meu estilo de vida", comenta o profissional.

    Ele conta que iniciou primeiro no judô e karatê, e em 1984 já pegou a faixa preta
    Ele conta que iniciou primeiro no judô e karatê, e em 1984 já pegou a faixa preta | Foto: Reprodução/Facebook

    Ele conta que iniciou primeiro no judô e karatê, e em 1984 já pegou a faixa preta. Na academia em que treinava, os alunos aprendiam também jiu-jitsu, o que fez com que Henrique passeasse com mastreia por várias modalidades das artes marciais.

    O professor lembra com nostalgia e orgulho do período em que se tornou lutador. Chama de "era de ouro do esporte", e diz que as artes marciais estavam no auge quando ele passou a treinar. 

    "Bruce Lee, Mestre Shaolin e outros do cinema eram nossas inspirações. Nós assistíamos muito esses filmes e mesmo com a qualidade de dublagem não muito boa, nos emocionávamos com as histórias. Sabíamos que, apesar das histórias serem ficção, elas representavam uma realidade. Que a luta exige sacrifícios, como eu mesmo fiz", comenta Henrique.

    "A luta mudou a minha vida"

    A frase do Sensei Henrique reflete, segundo ele mesmo, a realidade de muitos jovens que entram para o esporte na procura de uma vida melhor. Ele diz que se orgulha da disciplina que aprendeu a ter no esporte e atribui a isso todas as vezes em que deixou de ir em festas e aniversários no decorrer da sua história. 

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    "A luta me ensinou a ser uma pessoa pré-determinada, uma pessoa cortês, mas, acima de tudo, alguém que leva a sério a própria palavra. Ela [luta] muda a vida de qualquer um que a leve a sério", comenta o Sensei.

    Quebrando barreiras

    Ele diz que as artes marciais fazem com que as pessoas lutem contra o maior inimigo, que são elas mesmas. Segundo Henrique, quando se luta contra si próprio, você precisa quebrar muitas barreiras e deixar de lado muitas crenças que não fazem mais sentido.

    Henrique diz que os pais dos alunos o procuram vez ou outra para elogiar mudança no comportamento dos filhos
    Henrique diz que os pais dos alunos o procuram vez ou outra para elogiar mudança no comportamento dos filhos | Foto: Divulgação

    "A luta te dá essa segurança para mudar como ser humano, principalmente seu caráter. E ela te dá forças para ir atrás dos seus sonhos também, seja uma graduação ou um pós-doutorado", afirma o professor.

    O Sensei lembra que na própria vida ele só cresceu porque diz ter conhecido as pessoas certas e estado nos momentos certos, por causa da luta. E cita exemplos de seus próprios alunos.

    "Eu não vou citar nomes ou histórias muito específicas para não enaltecer apenas alguns alunos, porque todos merecem reconhecimento pelas suas lutas. É o meu conceito. Mas de modo geral, eu posso dizer que por causa das artes marciais, eu tenho alunos que se tornaram grande exemplo e contribuem para a sociedade", afirma o professor.

    Ele diz que com a honra, disciplina, e outras habilidades adquiridas na academia, seus alunos puderam se dedicar aos estudos e alcançar grandes metas nas áreas de saúde, humanas e exatas. 

    "Esses guerreiros podem dizer que chegaram onde estão porque tiveram grandes ensinamentos com as artes marciais, mas também com exemplos entre eles mesmos e de profissionais do judô e jiu-jitsu", comenta Henrique.

    O caminho para a mudança

    O professor cita o código de honra das artes marciais, que procura ensinar, segundo ele, disciplina, honra, gentileza, lealdade e responsabilidade. Para Henrique, a academia ensina essas virtudes por meio do exemplo de todos para todos.

    Henrique diz que os pais dos alunos o procuram vez ou outra para elogiar mudança no comportamento dos filhos
    Henrique diz que os pais dos alunos o procuram vez ou outra para elogiar mudança no comportamento dos filhos | Foto: Divulgação

    "Quando você vive num meio assim, que preza essas ações, é muito difícil você se desvirtuar. É praticamente impossível, porque você será cobrado de imediato. E essas coisas nós levamos muito a sério, tanto é que assiduidade na academia é um ponto. E para alcançá-la, precisa, no mínimo, de três dessas virtudes", afirma o Sensei.

    Ele lembra de casos de alunos que algumas vezes quiseram faltar aos treinos por preguiça, mas que entenderam que "é nesses momentos que se faz a diferença" e, ao invés de ficarem em casa, colocam o quimono e seguem para academia. 

    Henrique é professor há mais de 20 anos
    Henrique é professor há mais de 20 anos | Foto: Divulgação

    O Amazonas no esporte

    No ano passado, o Amazonas somou mais medalhas de ouro no mundo do jiu-jitsu. Uma delas foi a do lutador Joel Adan. Ele ganhou em 1º lugar no Campeonato Austin Open 2019, no Texas, Estados Unidos. Mas, nas vitórias, não foi o único. Somou nomeação para o Estado também o atleta mirim Leno Henrique, mais conhecido como "Tubinha". Ele foi campeão mundial de jiu-jitsu esportivo na modalidade mirim, no ano passado. A competição foi em São Paulo (SP).

    Com todos esses pontos, o Sensei Henrique elogia a posição do Amazonas no jiu-jitsu e diz que considera um dos cinco estados melhores do Brasil. Ele aproveita para comentar apenas alguns pontos que acredita poderem ser aperfeiçoados.

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    "Acredito que o que pode melhorar é o suporte para os atletas. Principalmente físico e mental, que é tão essencial para eles", afirma o professor, que também apoia mais palestras e outros eventos que possam atrair mais pessoas para as artes marciais. 

    Ele lembra a dificuldade que é conseguir patrocínio, principalmente no caso de atletas novos no mundo dos esportes. "Você acaba dependendo muito do esforço e finanças próprias, ou de familiares, mas muito jovens não têm essa possibilidade", comenta Henrique.

    As federações e outros grupos de esportes poderiam ajudar mais os atletas e sortear passagens para os selecionados para competir em outros estados ou países, sugere o Sensei. Para ele, isso já facilitaria muito para os lutadores e poderia até abrir caminho para outros patrocínios. 

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    Exemplo na pandemia

    Durante o distanciamento social, método para evitar o contágio do novo coronavírus, Sensei Henrique tem feito lives em seu perfil no Instagram (@senseihenriquemachado) para continuar o diálogo com os alunos. Ele ressalta que a atividade permite também bate-papo com quem tem interesse pelo jiu-jitsu.

    "É uma forma de nos aproximarmos nesses tempos. Não perdermos o contato. Nós, eu e os alunos, temos boas conversas descontraídas, mas também aproveito para tirar dúvidas sobre a luta, treinamentos e técnicas. É uma troca boa de conhecimento", comenta o professor.