Doping


Após confirmação de doping, brasileira afirma: 'não agi de má fé'

Nadadora Patrícia Pereira violou regras no Parapan de Lima, em 2019, mas após confirmação de doping, afirma que não agiu de má fé

Patrícia foi suspensa por 12 meses, pena mínima, após comprovar falta de intenção
Patrícia foi suspensa por 12 meses, pena mínima, após comprovar falta de intenção | Foto: Divulgação/ Instagram

Um dia após receber a notificação oficial por parte do Comitê Paralímpico Internacional (IPC, sigla em inglês) de suspensão de 12 meses, por violar a regra antidopagem durante os Jogos Parapan-Americanos de Lima no ano passado, a nadadora Patrícia Pereira dos Santos admite negligência e afirma que não agiu de má fé.

No resultado do exame de urina, realizado no último dia 21 de agosto, foram encontradas  hidroclorotiazida e metabólito, e SARM LGD-4033 (Ligandrol) e metabólito, que constam na lista de substâncias proibidas da Agência Mundial Antidopagem.

A punição nesse caso, conforme a regulamentação, vai de um a quatro anos de suspensão, mas a brasileira recebeu a pena mínima por ter provado que não teve culpa e assumido que foi negligente. Patrícia Pereira conquistou a medalha de prata nos 50m livre classe S5, no Papan de Lima, no Peru.

O que você pode falar sobre a ingestão dessas substâncias que apareceram nos exames?

Patrícia: Gostaria de reforçar que não agi de má fé e isso foi comprovado pelas autoridades responsáveis. Admito a negligência e reforço que sempre estive à disposição das autoridades antidopagem. Sou atleta paralímpica desde 2009 e na minha carreira meu histórico em testes antidopagem demonstram meu comprometimento. Por isso, de boa-fé, acato a suspensão esportiva e voltarei a praticar o esporte que amo a partir de agosto deste ano.

Existe algo mais a ser feito para buscar uma alteração na punição? Alegando que você não teve culpa, existe uma chance de alcançar a absolvição?

Patrícia: Eu aceito a advertência. Acredito que as autoridades tomaram a decisão correta depois da análise do caso. O maior tempo de suspensão seria de quatro anos, fui suspensa por um ano porque ficou provado que não fiz o uso intencional das substâncias.  No começo é claro que ficamos com os nervos à flor da pele, mas isso já está no passado. Quero sempre olhar para o futuro e dar o melhor de mim nas piscinas. A sensação é de que ainda posso dar muito mais para o meu país e posso representar o Brasil da melhor forma, vou atrás disso. 

Depois do Parapan, você não competiu mais. Os dias têm sido só de treinamento?

Patrícia: Eu continuei fazendo treinos em casa, mas longe das piscinas. Estou tentando me manter ativa com alguns exercícios em casa e fazendo o máximo que posso para voltar bem aos treinos.

O adiamento dos Jogos Paralímpicos de Tóquio acabou trazendo uma nova perspectiva para você resolver essa questão do doping e participar lá no Japão?

Patrícia: A postergação dos Jogos foi necessária devido à situação que infelizmente o mundo vive. Para qualquer atleta os Jogos Paralímpicos são um sonho. Eu já tive a felicidade de participar de um quando conquistei a prata na Rio 2016, e agora farei o meu melhor para voltar a participar de um evento com tanta magnitude quanto esse. Meu objetivo é mais uma medalha paralímpica no currículo e estou muito feliz por voltar a treinar em agosto, e poder ter essa chance novamente. Tenho que pensar competição por competição até chegar lá. Um passo de cada vez. A natação é um esporte de dedicação e isso eu tenho de sobra. Serão dias intensos até Tóquio 2021, mas estou preparada.

Entenda o caso 

As substâncias hidroclorotiazida e SARM LGD-4033 (Ligandrol) detectadas pela Wada no exame de urina da nadadora constam da lista de subtâncias proibidas nas classes S5 (Diuréticos e agentes mascaradores) e S1.2 (outros agentes anabólicos) respectivamente.

Hésojy Gley, médico-chefe e coordenador da equipe antidopagem do Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB) esclareceu à Agência Brasil quais são os efeitos dessas substâncias no organismo.

“A Hidroclorotiazida é um diurético que tem o uso para pressão alta, hipertensão e algumas raras condições metabólicas. Mas, no mundo da suplementação, acaba sendo usada para mascarar situações, ou para a perda de peso. É proibida desde os primórdios e é bem conhecida no meio esportivo", afirma.

Os suplementos utilizados pela nadadora foram analisados em um laboratório credenciado pela Wada, e dois deles foram definidos como contaminados com essas substâncias. Dessa forma, pelo nível reduzido de culpa da esportista pela violação e com base nessa contaminação dos suplementos, o IPC e a atleta concordaram com a sanção de 12 meses. 

A SARM LGD-4033 (Ligandrol) já é bem mais nova. Em muitos casos, essa droga não aparece nos rótulos dos suplementos. O nome é a sigla em inglês para um modulador que age diretamente no receptor hidrogênio. É seletivo para esse receptor. Ou seja, onde o hormônio análogo à testosterona - ou a própria testosterona - atua na célula, essa substância vai lá e age", esclarece Hésojy Gley.

Lembrando que, na regulamentação da Wada, a suspensão nesse tipo de caso pode ser de um a quatro anos. O processo, como todos os demais envolvendo o IPC, seguiu em sigilo até a conclusão dos trabalhos. Dessa forma, a nadadora está liberada para voltar a competir a partir do dia 20 de agosto deste ano. 

"A "vantagem" da SARM é que ela é seletiva. Ela vai no receptor celular e dá o sinal para que ele faça a função de aumento de síntese de proteínas, o que a gente chama de anabolismo e, teoricamente, tem menos chance de apresentar efeitos colaterais que seriam a virilização e o acúmulo de gordura ruim nas mulheres. Mas, apesar de parecer ter menos efeitos colaterais, ela é bem mais cancerígena do que as outras testosteronas", alerta o médico.

Medalhas

Com a punição, Patrícia Pereira também perdeu as duas medalhas conquistadas em Lima (Peru), a prata nos 50m livre e o bronze nos 100m livre da classe S5. Nos 50m, a argentina Ana Noriega deve herdar a prata, e o bronze ficará com a outra brasileira Esthefany de Oliveira. Na prova dos 100m, Esthefany, que originalmente chegou em quarto lugar, ficará com o bronze. Assim, o Brasil mantém a sua campanha histórica que totalizou 308 medalhas, um recorde em todas edições de Jogos Parapan-Americanos.