Fonte: OpenWeather

    Beach Handebol


    Potência mundial, Beach Handebol brasileiro 'se vira do jeito que dá'

    Mesmo sendo pentacampeão mundial, tricampeão do World Games e ouro no World Beach Games, Beach Handebol brasileiro "se vira do jeito que dá", revela goleiro Pedro Budega

    | Foto: Divulgação/ COB

    A seleção brasileira masculina de Beach Handebol é inegavelmente a maior potência da modalidade no mundo: são cinco títulos em oito Mundiais disputados, medalha de ouro no World Beach Games de Doha, no Catar e três títulos no World Games. Quem olha apenas os resultados pode imaginar que o esporte e os atletas passam por um bom momento, mas a história mostra que essa não é a realidade.

    "Dificilmente recebemos alguma coisa. A gente se vira do jeito que dá. Muitas vezes, deixamos família, trabalho, às vezes ficando até sem renda. Eu não participei do processo de criação da NBHb, mas sei que a entidade surgiu com a ideia de ter uma administração mais profissional, algo no estilo do NBB. Ainda espero que a gente possa colher esses frutos", lamenta o goleiro Pedro Budega.

    As dificuldades da modalidade são muitas e começaram há bastante tempo. Em 2017, antes dos Jogos Mundiais de Praia da Polônia, as equipes masculina e feminina do Brasil quase não conseguiram ir à Europa para buscar os dois títulos. Thiago Gusmão, ex-atleta e presidente do Novo Beach Handebol Brasil (NBHb), entidade criada em agosto de 2018, lembra daquele período.

    "Foram momentos muito complicados. A falta de recursos para a viagem ao World Games das seleções adultas e teve também a equipe sub-17 que não conseguiu ir aos Jogos Olímpicos da Juventude. Podemos dizer que ali foi o "embrião" do Novo Beach Handebol Brasil. Conseguimos custear a viagem dos adultos com recursos próprios e outras ações. Mas em relação à seleção de base, que estava treinando e, com apenas três dias de antecedência, foi avisada que não viajaria, não tivemos como contornar o problema. Esse cancelamento só a CBHb pode explicar. Assim a ida do Brasil aos Jogos Olímpicos da Juventude em 2018 na Argentina ficou inviabilizada.", destaca.

    Os jogadores chegaram a fazer também uma "vaquinha" para arrecadar o dinheiro necessário. Apenas para as 27 passagens foram necessários aproximadamente R$ 190 mil.

    "Muita gente queria que as coisas mudassem, que o esporte tivesse mais visibilidade. Precisávamos de pessoas correndo atrás das coisas do Beach Handebol. Dentro da Confederação, o nosso esporte sempre ficou um pouco de lado. Mesmo com muitos títulos e mantendo o primeiro lugar no ranking, com finais em todas as competições, quando era necessário algum corte, era sempre o Beach Handebol que mais sofria. A gente sabe que as categorias de quadra também tinham problemas. Mas, a gente, por estar em um esporte que não é olímpico, acabava sempre sofrendo mais", afirma o goleiro carioca Pedro Budega.

    Questionado, Ricardo Luiz de Souza, conhecido como Ricardinho, presidente da Confederação Brasileira de Handebol (CBHb) desde abril de 2018, respondeu da seguinte forma: "A CBHb auxiliou dentro das suas limitações. Ficamos apenas com os recursos da Lei Agnelo Piva (que repassa 2% do valor arrecadado com as loteriais federais ao Comitê Olimpíco Brasil (COB) e ao Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB)). Além de auxiliar diante dessa realidade, buscamos apoio com o COB e empresas privadas. Mas, pelo cenário à época, não conseguimos. Tínhamos também acabado de assumir a presidência da CBHb em meio a maior crise do Handebol. Porém demos toda a assistência possível naquele curtíssimo período de tempo que tivemos até o Mundial", conclui.

    Novo Beach Handebol Brasil

    O Mundial de Beach Handebol desse ano estava previsto para os dias 30 de junho e cinco de julho, em Pescara na Itália. Mas, a pandemia do novo coronavírus que tem o país europeu como um dos mais afetados, forçou a mudança dos planos.

    "Desgastados por esses problemas, refletimos sobre a necessidade de trabalharmos com mais força fora das quadras. Os atletas mais veteranos da seleção lideraram esse processo todo que culminou com a criação da NBHb em agosto de 2018. Nossa intenção sempre foi ajudar e andar em paralelo com a possível chancela da CBHb, por detectarmos que naquele período tínhamos visões diferentes da gestão da modalidade", lembrou Thiago Gusmão,.

    Falando um pouco sobre o trabalho desenvolvido até o momento, o presidente e ex-atleta Thiago Gusmão ressalta as parcerias: "em 2018, atuamos em cojunto com Federação do Rio de Janeiro, e, no ano passado, selamos também uma parceria com a própria CBHb para a gestão compartilhada do nosso circuito brasileiro e para o Sul-Centro. Entregamos um circuito com 100% de transmissão live streaming no Facebook da NBHb e da CBHb, com recursos de parceiros da nossa entidade. Auxiliamos diretamente a organização com o caderno de encargos, identidade visual e prestação de contas após cada uma das etapas mantendo sempre a transparência firmada com os clubes".

    Para esse ano, porém, não houve um acordo entre a NBHb e a CBHb. "Após o aval dos clubes, formulamos uma nova proposta de parceria para que tivéssemos a chancela da CBHB no circuito. Mas, a Confederação nos informou que não daria a total gestão e a chancela para a gestão dessa temporada. E não foi possível manter a parceria. Para o futuro, seguimos trabalhando firme com a Federação do Rio de Janeiro para um torneio estadual e existe a possibilidade de uma competição open".

    “Ricardinho", presidente da CBHb no período, falou o seguinte: " fizemos uma aproximação que gerou a parceria para o circuito brasileiro do ano passado. Nesse ano, participei de uma reunião com o diretor da modalidade, Carlos Roque, e com o presidente da NBHb, Thiago Gusmão, e não chegamos a um acordo para a manutenção da parceria."

    Comitê Olímpico do Brasil

    Procurado, o COB lembrou que não pode investir financeiramente em modalidades que não fazem parte do programa olímpico (o caso do Handebol de Areia). Mas informou que, em anos anteriores, através de recursos extraordinários, colocou aproximadamente R$ 1,3 milhão nos dois naipes da modalidade e outros R$ 300 mil para a participação do país em Jogos Sul-Americanos.

    O gerente executivo de alto rendimento do COB, Sebastian Pereira, disse que "em 2019, para os Jogos Sul-Americanos de Praia de Rosário na Argentina, e dos Jogos Mundiais de Praia de Doha, no Catar, o COB investiu em treinamentos preparatórios das seleções masculinas e femininas para os dois torneios. Como são competições nas quais o Comitê é responsável por organizar as delegações que representam o país, existe a possibildade de fazer esses investimentos no ano de realização dos torneios".

    Ricardinho, presidente da CBHb entre 2018 e 2019, disse que "demos total apoio para as Seleções no ano passado durante os Jogos Sul-Americanos, o Sul-Centro e o World Beach Games. Lidamos com tranquilidade com essas questões, pois temos plena consciência de que buscamos equiparar o Beach Handebol com o esporte de quadra, mesmo com as dificuldades da modalidade não ser olímpica. Sabemos também que a gestão não é apenas organizar um evento, vai muito além disso".

    O goleiro Pedro Budega reconheceu a ajuda do COB: "Em 2017 e 2018, tirando o Pan-Americano de 2018, a gente praticamente não treinou. Fomos para as competições sem nenhuma fase de preparação. E, no ano passado, conseguimos treinar um pouco mais com essa verba do COB. Claro que teve a participação da Confederação para fazer o pedido da verba. E é bom registrar também que, antes de 2016, a gente tinha uma estrutura boa. Foram várias fases de treinamento, sempre com hospedagem e alimentação muito boas. Algo que não temos recebido mais da CBHb".

    Mundial de 2020

    Em março o torneio foi cancelado e não tem uma nova data prevista para ocorrer. "Sabemos que a Federação Internacional de Handebol gostaria de manter a competição para esse ano. Mas transferindo a competição da Europa para um país árabe, que tivesse condições de bancá-la, sem grandes investimentos de infraestrutura. Mas não temos certeza de nada ainda. Está tudo parado. Vamos aguardar", disse Pedro Budega.