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    The Rock


    Do pó ao pódio: a história do lutador Adriano 'The Rock' Balby

    Aos 39 anos, o lutador relembra a trajetória de promessa no MMA a morador de rua em Manaus e, finalmente, o convite para disputar o UFC

    Aos 39 anos, o "The Rock" busca lutar o UFC e não pensa em aposentadoria
    Aos 39 anos, o "The Rock" busca lutar o UFC e não pensa em aposentadoria | Foto: Reprodução/ Acervo pessoal

    Manaus - Há quase duas décadas em Manaus, o potiguar Adriano "The Rock" Balby relembra como chegou na capital amazonense como promessa no MMA, morou nas ruas e, depois de ser campeão em três continentes lutando cinco categorias diferentes, foi chamado para lutar no Ultimate Fighting Champioship (UFC) aos 39 anos.

    Nascido em Natal (RN), Adriano Balby entrou no mundo da luta com 16 anos, quando morava em Porto Velho (RO). Ele jamais poderia imaginar que as fitas VHC de Royce Gracie - lenda brasileira das artes marciais - que ele usava para aprender os movimentos do jiu-jitsu, o levariam a conquistar um cartel de 16 vitórias, três derrotas e cinturões, como: Rebel FC, Mr. Cage, Big Way, Elite Cage, além de títulos na Sérvia e na China. 

    Focado no futuro como campeão, Adriano também se decida a projetos sociais
    Focado no futuro como campeão, Adriano também se decida a projetos sociais | Foto: Daniel Boechat

    "Deus me tirou do pó, do lixo e me fez sentar à mesa com os príncipes da terra. Voltei a disputar competições com 33 anos, quando achei que não conseguiria e todo mundo falava que eu já estava velho. Então venci nos 120kg, 110kg, 93kg, 84kg e 77kg, algo que parecia impossível aos olhos humanos", conta The Rock.

    Da TV  ao octógono

    Quando criança, Balby revela que sofria bullying na escola e no bairro onde morava por conta do sobrepeso: ele recorda que aos 12 anos, pesava aproximadamente 100 quilos. Como virou alvo de apelidos ofensivos e agressões físicas, resolveu que aprenderia a se defender com golpes básicos, aplicados em travesseiros e animais de pelúcia.

    Lutador venceu a dependência química e hoje foca nos treinos para somar resultados positivos na carreira
    Lutador venceu a dependência química e hoje foca nos treinos para somar resultados positivos na carreira | Foto: Daniel Boechat

    "Eu vivia me escondendo em todo lugar, era motivo de chacota. Mas tenho muita facilidade para aprender, se vejo alguém fazendo uma posição, não preciso que repita, consigo reproduzir rapidamente. Quando a gente quer, então vai mais rápido ainda", diz o lutador.

    Depois de perceber os resultados que os poucos golpes que sabia proporcionavam, Balby resolveu procurar uma academia de artes marciais para, assim, começar oficialmente a carreira como lutador. Ainda em Rondônia, ele lembra do primeiro dia na academia, quando forjou a graduação na faixa azul e teve de enfrentar um oponente que, de fato, pertencia ao "segundo degrau" na modalidade.

    Adriano coleciona muitos títulos foram do Brasil
    Adriano coleciona muitos títulos foram do Brasil | Foto: Daniel Boechat

    “Nesse dia, rolei com todo mundo, na base da vontade, e acabei vencendo. O professor falou que eu não tinha técnica nenhuma, mas força bruta e gás, sim. Depois disso, comecei a aprender o verdadeiro jiu-jitsu e mantive a faixa azul até ganhar um certificado de que estava apto para aquela faixa”, afirma ele.

    O vigor físico e a explosão dos golpes renderam destaque para o jovem atleta, que começava a se aperfeiçoar aos poucos no MMA - que ainda era chamado Luta Livre à época. Após construir uma reputação em Porto Velho, veio para Manaus seguindo uma derrota para Ian, da Família Mascarenhas, com renome nas artes marciais.

    O lutador espera fazer bonito em novos desafios pelo UFC
    O lutador espera fazer bonito em novos desafios pelo UFC | Foto: Daniel Boechat

    "Eu era forte lá, mas nosso jiu-jitsu era muito inferior, então em 2001 quis vir para Manaus, depois de descobrir que aquele cara era bom. Aqui, minha primeira luta foi contra o Cristiano Ribeiro, que já era campeão mundial, brasileiro, faixa preta e eu ainda na azul. Nocauteei ele e começaram a me notar e com o treinador Fábio Aníbal, me desenvolvi no MMA", recorda The Rock.

    Adriano chegou a pesar 130 kg quando ficou longe da luta
    Adriano chegou a pesar 130 kg quando ficou longe da luta | Foto: Daniel Boechat

    À espera de um nocaute

    Já multicampeão na "Paris dos trópicos", Adriano Balby não sabia que a luta mais importante e mais difícil da carreira estava prestes a começar. Em 2005, sofreu com o término do relacionamento e acabou se envolvendo com drogas, afundando na miséria até o ponto de morar nas ruas, vagando pelo Centro de Manaus. "Nessa época era morrer ou morrer", conta.

    Além da forte dependência adquirida rapidamente, Balby revela que atentou contra a própria vida diversas vezes, de inúmeras maneiras. Segundo ele, ninguém o queria por perto, o que levou à mendicância. "Quem iria querer alguém que rouba tudo e vende para comprar drogas? Toda vez que bebia, queria usar porque me sentia bem naquele momento. Sempre amei a luta, mas nem ela me tirou do mundo das drogas", afirma o lutador.

    Assim como muitos outros atletas, em diversas modalidades, o "amazonense de coração" foi acolhido pela igreja, e encontrou forças na fé para mudar o caminho que estava trilhando e voltar as atenções para os pódios. Ele relembra que passava em frente à uma igreja universal e ocasionalmente parou para pedir água. O pastor, em solidariedade, permitiu com que ele morasse em um salão, nas dependências da igreja, por aproximadamente sete meses.

    | Foto: Daniel Boechat

     “Eu não queria nada com nada, mas acho que sempre tive alguém orando por mim. Lá a gente comia muita farinha e arroz e, durante o período, engordei 40kg, chegando até aproximadamente 130kg. Eu ia para o bar à noite sem um real, bebia e saía sem pagar", recorda.

    Do pó ao pódio

    Convertido, recuperado e livre de impeditivos, The Rock explica que nada poderia tê-lo tirado daquela situação sem que houvesse, inicialmente, uma revolução interna, com a promessa de que iria "obedecer ao bem". Novamente com o apoio da família, ele conta que alterou a ordem das prioridades e que, atualmente, o vício é lutar.

    | Foto: Daniel Boechat

    "Tenho na cabeça que somos uma bíblia que as pessoas não leem, então preciso ser o exemplo. As pessoas te observam, ainda mais as que te acompanham e gostam de você. Hoje em dia sou obreiro, professor de MMA, Muay Thai, jiu-jitsu e Coach. Com 33 anos, voltando 'velho', conquistei o mundo através da minha fé", diz.

    A rotina normalmente inclui sessões de treino quatro vezes ao dia, todos os dias, enquanto se prepara antes das lutas. Hoje em dia, com as restrições da pandemia do coronavírus, são dois a três por dia. "Claro que não da maneira que deveria, mas sem ficar parado. Faço de 40 a 50 min de corrida e à tarde treino pesado", explica.

    | Foto: Daniel Boechat

    Dentre muitos adversários importantes, como o Japonês Akihiro Gono - que já enfrentou nomes como Chael Sonnen, Dan Henderson e Maurício Shogun, pelo torneio Pride FC -, Balby destaca o primeiro desafio internacional da carreira, contra o sérvio Stefan Sekulic, pelo Serbian Battle Championship, em 2017.

    "Fui sozinho, sem cornermen [apoio no octógono], sem preparador, contra o número 1 da Sérvia, campeão, às vésperas de ir para uma luta no UFC. Eu estava perdendo a dois minutos do fim, quando defendi um chute que acabou quebrando a perna do adversário e eu venci a luta", descreve o atleta.

    Inspirado no brasileiro Rodrigo "Minotauro" e no americano Mike Tyson, Adriano Balby dedica o tempo livre aos projetos sociais que auxilia. Ele participa do projeto Resgatando Vidas, na Aldeia Infantil SOS e no Força Jovem Universal (FJU), que se propõem a tirar crianças da situação de rua.

    | Foto: Daniel Boechat

    Em 2019, ele foi chamado pela primeira vez para lutar pelo UFC, na categoria até 77kg “fiquei extraordinariamente feliz, mas o oponente, que tinha 70kg, não quis subir de peso e batemos na trave", diz. Apesar do revés, ele continua ativamente marcando lutas durante o período de quarentena, sem perder a esperança de alcançar o lugar mais alto do pódio.