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    Soltar pipa


    Vendas de "papagaios" disparam na pandemia e prática aumenta em Manaus

    A prática de soltar "papagaios" (pipas) é considerada como tradição e gera discussões sobre a segurança de praticantes e terceiros

     

     

    Soltar papagaio é patrimônio histórico e cultural de Manaus, porém falta um ponto público para a prática dos adeptos
    Soltar papagaio é patrimônio histórico e cultural de Manaus, porém falta um ponto público para a prática dos adeptos | Foto: Arquivo/Portal Em Tempo

    Manaus - Os céus dos bairros de Manaus já estiveram lotados de pipas, conhecida regionalmente como papagaios, com a famosa "guerra no céu". Durante a pandemia do novo coronavírus, surge a dúvida se a desapareceria por conta da recomendação de quarentena em casa.

    Os praticantes revelam que a prática se intensificou e a antiga discussão acerca das pipas ressurge: o perigo da utilização de cerol nas linhas e a falta de locais próprios para a prática popular. 

    Soltar pipas é uma prática em que é repassada de pai para filho. Este é o caso do jogador profissional Guanair Júnior, de 25 anos. Ele é um dos praticantes e comenta que aprendeu tudo o que sabe com o pai, Guanair, que tinha uma fábrica de pipas antes do nascimento do filho. 

    “Comecei muito cedo a soltar pipa. Não sei exatamente a idade, porque meu pai fazia pipas para vender, foi até como eu adquiri esse costume. Desde que eu me entendo por gente, já tenho essa prática”, revela o atleta. 

    Morador do bairro Cidade Nova, na zona Norte, o jovem revela que durante a pandemia as vendas na fábrica de seu pai aumentaram cinco vezes. Ele explica o fenômeno, associa a permanência em casa e conta que a prática serviu de distração. 

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    Durante a pandemia aumentou muito. Se mil pessoas brincavam no meu bairro antes da pandemia, durante, chegou a 10 mil. A galera que não brincava há mais de 10 e 20 anos voltaram a brincar. É uma coisa que tinha como manter o distanciamento. Todos brincavam na frente de suas casas. "

    Guanair Junior, Atleta

     

    O dono de uma loja de pipas em Manaus, que não quis se identificar, afirma também, que durante a pandemia, a brincadeira intensificou e ganhou mais adeptos. O empresário chegou a comparar a quantidade de pipas no céu com o Rio de Janeiro, local em que a prática é grande. 

    “A prática de soltar pipa se fortaleceu durante a pandemia. Foi como se tivesse voltado há uns 20 anos atrás, em uma época que tinha muita pipa. Eu chego até comparar ao Rio de Janeiro, muita pipa. Vendemos todo dia, tendo vento ou sol. Feriado então, aqui bomba”, revelou. 

    Prática representa riscos

     

    O uso de cerol pode ser um risco tanto para quem pratica e outras pessoas
    O uso de cerol pode ser um risco tanto para quem pratica e outras pessoas | Foto: Arquivo/Portal Em Tempo

    A brincadeira é antiga, assim como a discussão sobre o perigo. O uso do cerol, que é um composto feito com pedaços de vidro e cola, e a "linha chilena", que é feita de quartzo moído e óxido de alumínio, trazem riscos para quem está empinando a pipa e para também para terceiros, como motociclistas e pedestres.

    Outro perigo está se o material entra em contato com a rede de energia elétrica. Ao cortar a camada protetora dos fios, a linha interrompe a transferência de corrente elétrica, podendo provocar um curto-circuito, e até mesmo a linha ser um condutor de energia e eletrocutando a pessoa que a está segurando. 

      A Lei 1.968/2015 proíbe a venda e o uso de cerol nas linhas dos papagaios em Manaus, o valor atual da multa para cada conjunto de material apreendido, pode chegar até R$ 418,90. Fica proibida a venda, o armazenamento, o transporte e a distribuição de cerol ou qualquer material cortante utilizado para empinar pipa de papel.  

    Algum dos casos que a brincadeira já fez vítimas por conta do cerol, foi o da frentista  Marta Cristina Souza da Silva, 38, que morreu após ter o pescoço cortado por uma linha de cerol enquanto pilotava sua motocicleta na Rua Margarita, bairro Cidade de Deus, Zona Norte.

    O caso aconteceu no dia 29 de maio de 2020, e Marta ainda foi internada na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) , no Hospital e Pronto-Socorro (HPS) Platão Araújo, mas morreu no mesmo dia. 

    Um outro caso que a linha perigosa foi um risco, foi no dia 25 de maio de 2020, quando também provocou ferimentos graves no motociclista Douglas Duarte, que dirigia próximo ao Posto do São Raimundo, bairro Centro, Zona Sul da capital, a vítima teve o nariz cortado e precisou passar por cirurgia. 

    As vítimas de cerol podem ser enquadradas em crimes de lesão corporal ou lesão corporal seguido de morte. A prática de soltar pipas não é é crime, no entanto, há consequências para casos que lesionem outras pessoas.

      A primeira emissora do Amazonas, a TV Manauara, também foi uma das vítimas do cerol. Fundada em 1967, a rede teve dificuldades com transmissão devido a linha perigosa. Cabos de postes de eletricidade já haviam sidos instalados, porém a experiência não deu certo. Diversos problemas técnicos vieram, pois os fios não eram fortes o suficiente e constantemente cortados pelas linhas de cerol.  

    O jogador Guanair Jr., revela que nunca sofreu e nem presenciou nenhum tipo de acidente enquanto esteve praticando, e que sempre busca tomar todos os cuidados possíveis para que não haja nenhum incidente grave. 

     

    Praticantes e vendedores revelam que a prática aumentou na pandemia
    Praticantes e vendedores revelam que a prática aumentou na pandemia | Foto: Arquivo/Portal Em Tempo

    Pipódromo em Manaus?

    Desde maio de 2019, soltar papagaio é patrimônio histórico e cultural de Manaus. A Lei municipal 2.427/2019 foi sancionada pelo ex-prefeito Artur Neto e institui a prática no rol dos bens imateriais da capital. No entanto, a capital não tem espaços administrados pela prefeitura direcionados para a prática de soltar pipas, os pipódromos. 

      Os espaços para soltar papagaios são tema da lei promulgada pela Câmara Municipal em 2013, de autoria do ex-vereador Gilmar Nascimento e previa a criação de espaço para que as pessoas brinquem de pipa em todas as zonas da cidade.  

    Segundo a lei aprovada pelos vereadores, o pipódromo tem como objetivo “proporcionar ao público amante das pipas um local seguro para se soltar pipas e papagaios sem causar e sofrer acidentes”.  A determinação era que o prefeito da época construísse o espaço. No entanto, após oito anos, o espaço não foi criado. 

    Guanair, revela que costuma brincar na lage de casas de amigos ou até mesmo na rua do bairro. Sobre a criação de um lugar especifico para a prática, o atleta expõe que dependeria da localização do Pipódromo da sua casa, já que a locomoção poderia ser um problema se o local fosse afastado.

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    Quando se fala em fazer um ponto público sempre pensam em um lugar mais afastado, longe da cidade. Isso acaba afastando as pessoas. Nem todos possuem transporte e dinheiro para deslocamento. "

    Guanair Junior, Atleta

     

    A Reportagem do Portal Em Tempo questionou a Prefeitura de Manaus sobre a criação de um pipódromo, no entanto, até o fechamento da matéria não obteve retorno. O espaço está aberto para resposta. 

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