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    Violência no esporte


    Tiroteios e execuções em jogos no Amazonas "tiram" paz do esporte

    A violência é registrada em atividades que deveriam promover qualidade de vida aos amazonenses

      

    Casos de violência com vítimas fatais marcam jogos no Amazonas
    Casos de violência com vítimas fatais marcam jogos no Amazonas | Foto: Reprodução

    guerra entre facções causam impactos em diversos setores e no esporte não é diferente. Casos de brigas e execuções durante partidas de futebol causam insegurança para praticantes e moradores dos locais desportivos.

    Seja por acerto de contas ou pela raiva de uma partida não ganha, a violência e rastros de sangue também estão presentes no esporte. Os bairros da periferia de Manaus sofrem com a dura realidade. A violência é registrada em atividades que deveriam promover qualidade de vida.  

      Desde agosto de 2020, o Portal Em Tempo registra casos de violência com vítimas fatais em jogos de futebol. O número é preocupante pelo fato de ser um índice alto em um ano e causam preocupação na vizinhança.  

     

    Nayandro era carregador no Porto de Manaus, deixou esposa e filhos após ser morto
    Nayandro era carregador no Porto de Manaus, deixou esposa e filhos após ser morto | Foto: Arquivo/Em Tempo

    Um dos casos que mais chocou a população amazonense aconteceu no dia 12 de março de 2021 e resultou na morte de Nayandro de Souza Guimarães, de 24 anos.

    O jovem, pai de família e que não tinha envolvimento com o tráfico de drogas, era carregador no Porto de Manaus. Ele estava aproveitando o tempo livre para fazer uma das coisas que mais gostava: jogar futebol.

    Neste dia, o time de Nayandro ganhou a partida, mas o que seria um momento de felicidade, durou pouco tempo. De acordo com testemunhas, traficantes que estariam promovendo o torneio não gostaram da vitória da equipe rival e decidiram resolver a pendência com tiros contra os jogadores. 

    Outra vítima do ataque foi Marcos Antônio Cardoso Reis, de 20 anos. Outras duas pessoas foram baleadas. Nenhuma das vítimas tinha antecedentes criminais e os pistoleiros fugiram do local logo após consumarem os crimes. 

    Quatro meses se passaram desde o ataque no campo de futebol. A família, que fica com a saudade, sofre e não vê o tempo passar. Nayandro era evangélico e deixou a esposa grávida, que na época do crime, estava na reta final da gestação. 

    A esposa do jogador conta que além de receber a notícia da perda do marido, teve que viver um dos momentos mais difíceis. Ver a filha nascer sem a presença do pai. 

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    Quando meu marido morreu, eu já estava pronta para ter minha bebê. Foi muito difícil quando tive minha filha. Não foi fácil aceitar tudo isso, chorei muito por não ter ele do meu lado. Olhava para o lado e via as mães com o pai dos seus filhos acompanhando. Nesse dia tive que ser forte por ela e por meus filhos. "

    Esposa de Nayandro,

     

    Além da bebê, ele tinha mais dois filhos com a esposa - um de cinco e outro de três anos - que ainda não entendem a partida prematura do pai.

    “Os meus meninos sentem muita falta dele. Eles pensam que o pai foi pra algum canto, que ainda vai voltar e chamam por ele. O maior, de cinco anos, já entende e sente muito a falta. Ele fala pra mim ‘mãe tô com saudade do papai’”, relata a viúva. 

    Quebra de rotina

    A partida do jogador alterou a rotina da família em diversos sentidos. A viúva descreve a vida que eles levavam como “perfeita” e que ele era um pai e marido muito presente, mesmo quando tinha que viajar por conta do trabalho. 

    “Nossa rotina era muito boa. Costumávamos acordar com nossos filhos, tomávamos café, almoçávamos todos juntos, brincávamos, era tudo perfeito. Tinha dia que ele saia pra fazer diária no barco - às terças e quartas - e sabíamos o horário dele de chegar em casa. Era essa nossa rotina antes da partida dele”, relembra. 

      A partida repentina afetou duramente a situação financeira da família. A dificuldade em cuidar das crianças, amamentar e procurar emprego não é fácil para a mulher que tem que ser a principal provedora da casa no momento. A viúva revela que tem ajuda da mãe, mas que é muito duro quando os seus filhos pedem alguma coisa e não tem como atender o pedido.  

    A família conta com a ajuda de algumas pessoas, no entanto, tem dias que eles ficam sem nada e quando chove, a casa fica totalmente alagada e não tem como dormir no local. 

    Lembrança do dia

     

    Traficantes não gostaram do resultado do jogo e atiraram contra a equipe oponente. Nayandro foi uma das vítimas
    Traficantes não gostaram do resultado do jogo e atiraram contra a equipe oponente. Nayandro foi uma das vítimas | Foto: Arquivo/Em Tempo

    O jovem costumava jogar no campo onde aconteceu a tragédia todas as sextas e nunca tinha acontecido algo parecido, pois ele era sempre convidado a participar de várias competições no local. A esposa acredita que, em parte, a falta de segurança no local foi um dos fatores responsáveis pela tragédia. 

    A viúva revela que se pudesse mudar qualquer coisa no dia, falaria ao marido que estava sentindo dores, pois sabia que ele não sairia de casa. Ela pressentiu que uma tragédia estava prestes a acontecer. 

    "

    Eu deveria ter feito o que meu coração tinha mandado no dia e eu não fiz. "

    Esposa de Nayandro,

     

    “Sinto saudades de tudo dele.  De receber um abraço, um beijo e escutar um te amo e eu retribuir. De fazer nossos filhos felizes pelo pouco que a gente tinha, nós éramos felizes”, completa emocionada e finaliza. 

    Casos no AM 

    Com a insegurança, existe a possibilidade de sair para jogar ou assistir futebol com os amigos e não retornar para a casa. Desde agosto de 2020 até junho de 2021, casos começaram por diversão e prática de esportes, mas terminaram em tragédia. 

    Morto a facadas em Borba

     

    Roberto foi morto com três facadas após briga por futebol
    Roberto foi morto com três facadas após briga por futebol | Foto: Reprodução

    No dia 9 de agosto de 2020, Roberto Melo Arouca, de 31 anos, foi morto com três facadas após uma briga por futebol na zona rural de Borba (distante 149 km de Manaus). De acordo com informações,  a vítima tentou apartar uma briga motivada por futebol na comunidade Vila do Caiçara.

    Durante a confusão, ele foi esfaqueado. Roberto foi encontrado pela família e ainda foi socorrido, mas já chegou sem vida à sede do município. 

    Um industriário identificado como Marleno da Silva Ferreira, de 32 anos, morreu após ser esfaqueado durante uma discussão no Campo do Vermelhão, localizado na Rua Macapá, bairro Redenção, Zona Centro-Oeste da capital. 

    O caso aconteceu no dia 16 de agosto de 2020, e teria sido motivado por conta de uma briga no meio de uma partida de futebol. Os familiares acusaram  Risonildo Amorim (vulgo Tapauá) como principal suspeito de desferir facadas contra o industriário e iniciaram uma busca por conta própria para encontrar o homem. 

    Pistoleiros invadem partida de futebol 

     

    Pistoleiros invadiram o campo e atiraram contra um vendedor
    Pistoleiros invadiram o campo e atiraram contra um vendedor | Foto: Arquivo/Em Tempo

    No dia 28 de dezembro de 2020, o vendedor Ednilson Barbago do Nascimento, de 31 anos, perdeu a vida durante uma partida de futebol quando pistoleiros invadiram o campo e atiraram ele. O caso aconteceu na comunidade Monte Sião, bairro Jorge Teixeira, zona Leste de Manaus.

    Segundo relatos da companheira de Ednilson à polícia, o vendedor estava jogando bola com um grupo de amigos, quando dois criminosos chegaram ao local, e efetuaram vários disparos de arma de fogo contra ele.

    Além do vendedor, outras duas pessoas, que não tiveram os nomes divulgados, também foram atingidas pelos disparos. 

    Jovem leva tiro na mão em futebol clandestino

    Um grupo de criminosos invadiu uma partida de futebol clandestina e atiraram contra um jovem de 24 anos, que por pouco não perdeu sua vida.

    O tiro acertou a mão esquerda da vítima e ocorreu no dia 10 de fevereiro deste ano, no campo do conjunto Parque das Garças, bairro Novo Aleixo, zona Norte de Manaus.

    Em depoimento à polícia, o jovem relatou que estava jogando bola, quando os bandidos se aproximaram e atiraram contra ele. O bando fugiu do local logo após a ação criminosa, enquanto a vítima foi socorrida e levada para o Serviço de Pronto Atendimento (SPA) do Coroado, na zona Leste de Manaus, onde recebeu atendimento médico. As motivações do ataque não foram divulgadas pelas autoridades.

    Morto enquanto se preparava

     

    De acordo com testemunhas, a vítima não teria envolvimento com o crime e que morreu por estar no local errado, na hora errada
    De acordo com testemunhas, a vítima não teria envolvimento com o crime e que morreu por estar no local errado, na hora errada | Foto: Arquivo/Em Tempo

    Enquanto estava se preparando para partida de futebol, um homem, que não teve a identidade revelada, foi morto a tiros por criminosos que chegaram atirando contra a equipe. Além dele, um outro jogador do time também foi baleado. O caso aconteceu no dia 12 de março, na rua Arueira, no bairro Monte das Oliveiras, na Zona Norte de Manaus. 

    De acordo com testemunhas, a vítima não teria envolvimento com criminalidade e que morreu por estar no local errado, na hora errada. O outro homem ferido tentou correr dos atiradores, mas acabou sendo baleado e caiu em uma rua nas proximidades.

    Confraternização termina em morte

    Na madrugada do dia 27 de março deste ano,  um campo de futebol foi palco de uma briga generalizada entre amigos que terminou na morte de Alex Júnior Linhares Fernandes, de 24 anos. O crime aconteceu após um jogo, na comunidade Nossa Senhora de Fátima, localizada na zona Rural de Manaus.

    De acordo com testemunhas,  Alex estava conversando e consumindo bebidas alcoólicas com alguns amigos, próximo a um campo de futebol, depois de um jogo. Entretanto, em um dado momento, as brincadeiras deram lugar a uma intensa discussão entre o jovem e um outro rapaz, identificado apenas como “Gregory”.

    Na ocasião, Alex foi atingido com três golpes de faca, desferidos por “Gregory”. O jovem de 24 anos ainda tentou correr, mas foi alcançado e esfaqueado. Ainda segundo o relato de testemunhas, alguns amigos ficaram revoltados com a situação e resolveram ir atrás do suspeito. O rapaz foi encontrado pelos colegas revoltados e também foi atingido com facadas.

    Executado após jogo 

     

    Railson foi abordado por dois suspeitos em uma moto e levou 14 tiros
    Railson foi abordado por dois suspeitos em uma moto e levou 14 tiros | Foto: Arquivo/Em Tempo

    Após sair de um campo de futebol, Railson Silva Moreira, o "Bocão",  foi alvejado com vários tiros, no bairro Zumbi dos Palmares, na Zona Leste de Manaus. O caso aconteceu no dia 1° de junho e surpreendeu os moradores da região. O crime pode ser mais um acerto de tráfico de drogas ocorridos na capital. 

    Railson foi abordado por dois suspeitos em uma moto e levou 14 tiros. A família ainda tentou socorrer, no entanto, o homem morreu no local. 

    Partida interrompida por tiroteio 

    Uma partida de futebol foi interrompida após três homens e dois menores serem alvejados com disparos de arma de fogo na noite do dia 19 de junho. O caso aconteceu em um campo de futebol conhecido como "Campo do Palete", no bairro Monte Sião, zona Leste de Manaus.  

    Segundo informações de policiais da 13ª Companhia Interativa Comunitária (Cicom),  dois homens chegaram a pé atirando contra todos que estavam no campo. A polícia acredita que os autores queriam executar alguém que estava participando da partida no momento do crime. Kennedy Silva Abreu, de 25, foi alvejado com um tiro no peito e veio a falecer horas após dar entrada no hospital.

    SSP se pronuncia 

    A reportagem do Portal Em Tempo questionou o Sistema de Segurança Pública do Amazonas (SSP-AM) sobre a responsabilidade da segurança em locais esportivos. A SSP-AM afirmou que é responsável pelo policiamento nas ruas e por atender aos acionamentos da população na comunidade. 

    Além disso, afirmou também que é da responsabilidade dos organizadores dos eventos e que devem ser regularizados junto aos órgãos públicos.

    “É preciso verificar se esses eventos mencionados são regularizados junto aos órgãos de segurança e da Prefeitura de Manaus, e se seguem todos os critérios para realização de eventos, pois cada organizador de evento é responsável pelo atendimento de condições mínimas de segurança”, afirmou a nota.

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