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    Literatura


    “Inspiração”: considerações acerca do processo de criação de texto

    O processo de criação de texto é penoso e dolorido — e, se pode comparar a alguma coisa, digamos que se assemelha terrivelmente a uma gestação. E, para poetizar coisas difíceis, utiliza-se a inspiração

    Escrito por Flavio Lauria no dia 30 de janeiro de 2021 - 14:00

    Flávio Lauria

    Administrador de empresas com Mestrado e Doutorado em Administração Pública

     

    | Foto: Divulgação

    É comum a pergunta de amigos ou de alguém que lê alguns artigos meus, sobre como eu faço para escrever e às vezes até poetizar coisas tão difíceis como foi o último artigo sobre a morte. Eu respondo sempre, que é a inspiração, em momentos às vezes e sempre no dia anterior que mando o artigo, muito só ou com pensamentos vagando.

    A noção comum que se tem a respeito do escritor é que pessoas excepcionais, nascidas com o dom de escrever bem o belo, são periodicamente visitadas por uma espécie de iluminação das musas, ou do Espírito Santo, ou de outro espírito propriamente dito — fenômeno a que se dá o nome de ‘‘inspiração’’. O escritor fica sendo assim uma espécie de agente ou médium, que apenas capta as inspirações sobre ele descidas, manipulando-as no papel graças àquele dom de nascimento que é a sua marca.

    Pode ser que existam esses privilegiados — mas os que conheço são diferentes. Não há nada de súbito, nem de claro, nem de fácil. O processo todo é penoso e dolorido — e, se pode comparar a alguma coisa, digamos que se parece muito com um processo fisiológico — que se assemelha terrivelmente a uma gestação cujo parto se arrastasse por muitos meses e até anos.

    Começa você sentindo vagamente que tem umas coisas para dizer ou uma história para contar. Ou, às vezes, ambas. Fica aquilo lá dentro, meio incômodo, meio inchado (na minha terra se diria como ‘‘uma dor incausada’’), quando um belo dia a coisa dá para se mexer.

    Surgem frases já inteiras, surgem indefinições que, se você for ladino bastante, anota para depois aproveitar; mas se for o contumaz preguiçoso, confia-os à memória e depois os esquece.  Dentro da enxurrada de frases e de ideias aparecem, então, as pessoas. Surgem como desencarnados numa sessão espírita — timidamente, imprecisamente. São uma cabeça, uma silhueta, uma voz. Nesse ponto, junto com as frases, pensamentos e criaturas (e mormente com o cenário, embora ainda não se haja falado nele).

    Nessa altura, a história já se está arrumando. Você sabe mais ou menos o que contar. Os autores meticulosos, nessa fase dos acontecimentos, já delinearam o que eles costumam chamar ‘‘plano de obras’’, ou seja, um esqueleto do enredo.   Se é um romance, o esquema será mais amplo — os claros serão facilmente preenchíveis. A história corre a bem dizer por si. Mas se se trata de teatro, o esquema bem linear é imperioso: aquilo tem que ser como um pingue-pongue, ter um crescente constante, uma economia, uma nitidez...  

    E então chega um dos piores momentos nessa fase embrionária da obra por escrever. O autor enguiça. Falta-lhe imaginação para desenrolar o resto da história, falta a centelha necessária para criar a situação única, indispensável, climática, que será como a tônica do trabalho. E a gente fica numa irritabilidade característica, e numa pena enorme de Deus Nosso Senhor, que é obrigado a dirigir as histórias não apenas de um punhado de personagens, mas os milhões de viventes que andam pelo mundo — e se concebe um respeito trêmulo pela divina capacidade de intenção, que tão pouco se repete e tão invariavelmente cria...

    Talvez com autores de imaginação rica o fenômeno se passe diferente. É provável que eles, ao contrário de nós, os terra-a-terra, primeiro imaginem um enredo e depois, segundo as necessidades desse enredo, vão criando os personagens e os situando no tempo e no espaço. Aí a sensação criadora deve ser de plenitude e gratificação. Mas esses são os estrelos. A arraia miúda escrevente — ai de nós — é mesmo assim como eu disse: pena, padece e só então escreve.