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    Educação


    O desmonte da ciência e o corte de recursos das universidades federais

    É triste constatar que, em paralelo ao negacionismo com que nossos gestores públicos administram a pandemia da Covid 19, assiste-se ao desmoronamento do ensino público no país

    Escrito por Gaudêncio Torquato no dia 19 de maio de 2021 - 08:00

    Gaudêncio Torquato

    Jornalista, professor titular da USP, consultor político e de comunicação Twitter @gaudtorquato

     

    A imagem é dura, porém necessária: para salvar a vida de uma pessoa, ao invés de amputar um dedo, um braço, extirpam-se as veias
    A imagem é dura, porém necessária: para salvar a vida de uma pessoa, ao invés de amputar um dedo, um braço, extirpam-se as veias | Foto: Divulgação


    É crise puxando crise. Mais uma se desenvolve, ameaçando jogar a ciência brasileira ou, em outros termos, seus entulhos, no fundo do poço. As instituições de ensino superior e técnico estão recebendo apenas 2,22% dos recursos anuais a que têm direito, deixando perplexos reitores das universidades federais, apavorando o alunado que recebe bolsas de iniciação científica, comprometendo a assistência estudantil, deixando pesquisadores frustrados ante à descontinuidade de suas tarefas, enfim, enterrando descobertas da ciência em profundo fosso.

    O desmonte é coisa nunca vista, o que, de pronto, lança a pergunta: alguém sabe o nome do ministro da Educação? É triste constatar que, em paralelo ao negacionismo com que nossos gestores públicos, a partir do mais poderoso, o presidente da República, administram a pandemia da Covid 19, assiste-se ao desmoronamento do ensino público no país.

      Os impactos podem ser sentidos não apenas nos cortes de recursos que paralisam atividades, mas na própria estética dos campi, como o da Universidade Federal do Rio de Janeiro, que já foi celebrada como um centro de excelência em ensino e pesquisa, figurando entre as melhores do mundo. Eram os saudosos tempos da Universidade do Brasil.  



    O que diriam deste descalabro alguns de seus reitores do passado, como Benjamin Franklin Ramiz Galvão, primeiro reitor da universidade e ex-membro da Academia Brasileira de Letras (ABL); o médico Raul Leitão da Cunha, o ex-ministro da Educação e Saúde Pedro Calmon; o também imortal da ABL Deolindo Couto; o ex-ministro da Educação Raymundo Augusto de Castro Moniz de Aragão; e o economista Carlos Lessa, ex-presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES)? Teriam vergonha do Brasil.

    Que decepção ver que nem serviços de vigilância, limpeza e higiene são pagos por carência de recursos. A energia e a água ainda não foram desligadas por concessão das companhias. As rachaduras nos prédios e a falta de conservação assustam visitantes. Na Bahia, no Paraná, no Rio, as evidências de descaso até foram expostas, mas o feio retrato é o mesmo em todos os espaços ocupados por universidades federais.

    O que se pode alegar? Cortes para viabilizar o chamado “teto de gastos”. Mesmo assim, justifica-se esse corte brutal de gastos? A imagem é dura, porém necessária: para salvar a vida de uma pessoa, ao invés de amputar um dedo, um braço, extirpam-se as veias.

    É claro que não haverá salvamento. Assim agem os burocratas, esses que, em seus compartimentos na Esplanada dos Ministérios, com a lâmina afiada, cortam as veias do corpo nacional. Ora, a educação é a base matricial de uma Nação. Sem educação, não há processo civilizatório, não há avanços, progresso, vida saudável. Sem educação, um território deixa de ser Nação para continuar a ser um pedaço bruto de terra.

    A maior revolução de uma Nação é a da educação. Sem ela emerge aquela moldura descrita pelo filósofo argentino José Ingenieros: “em certos períodos, a nação adormece dentro do país. O organismo vegeta; o espírito se amodorra. Os apetites acossam os ideais, tornando-os dominadores e agressivos. Não há astros no horizonte; não se percebe clamor algum do povo; não ressoa o eco de grandes vozes animadoras. Todos se apinham em torno dos mantos oficiais, para conseguir, alguma migalha da merenda. É o clima da mediocridade...."

      E onde está a esfera política nessa crise de mediocridade? Preocupada com outras coisitas que podem lhe render recompensas, retorno, resultados, votos. Verbas para comprar tratores, articulações para conseguir inserir emendas no Orçamento. Assim é a vida nos espaços da representação parlamentar. Será que suas excelências, em postos nos ministérios, autarquias e casas congressuais não devem nada ao motor educacional que impulsionou suas vidas? No momento de decidir, pensam: o que pode ser melhor para mim nesse momento?



    E, assim, a ciência, mesmo sob loas e aplausos de alguns, acaba sacrificada por “outras prioridades”.

    O que diz o MEC? Os recursos, infelizmente, estão “condicionados”. Não podem ser usados. Ou seja, a educação está “condicionada”. A esta altura, alguém sabe responder à pergunta acima: como é mesmo o nome do ministro da Educação?

    P.S. O clamor foi tão intenso que o governo acabou dando um pouco mais de recursos às universidades.


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