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    Manaus 350 anos


    Sou manauara e

    Do Largo São Sebastião ao Rio Tarumã, veja o que os filhos da terra têm a dizer sobre Manaus

    Jadson Maciel, um dos idealizadores do Projeto Remada Ambiental | Foto: Arquivo Pessoal

    Manaus - Como disse o poeta Celdo Braga, "Manaus, cidade querida, pareces muito comigo, também pareço contigo (...) quero passar minha vida bem ligado ao teu umbigo, sendo teu fiel amigo". Vamos conhecer as histórias dos filhos da terra, os que nasceram aqui e amam viver na bela capital amazonense.

    A cúpula 

    Luana Picanço, 27, sempre teve uma relação muito especial com Manaus. Especialmente com um ponto turístico da nossa cidade: o Teatro Amazonas. Na verdade, a cúpula do Teatro. A turismóloga relata que o que mais a encanta é a história da capital, em especial deste ponto turístico.

    Luana Picanço ama o Largo de São Sebastião.
    Luana Picanço ama o Largo de São Sebastião. | Foto: Arquivo Pessoal

    "Aquela cúpula não estava no projeto original. O Eduardo Ribeiro que a idealizou. As pessoas da época não eram muito a favor dele, ainda mais quando ele teve a ideia de fazer aquela cúpula, que fazia com que o projeto não fosse muito tradicional. Ainda bem que ele conseguiu fazer, porque eu sou apaixonada por aquela cúpula", compartilha. 

    Ela destaca que do centro se vê de longe o Teatro. "É lindo demais, é uma expressão da nossa cidade. Eu acho incrível sentar na praça do Largo e observar a exuberância do prédio".

    Sua paixão por esta parte específica da cidade surgiu após visitas ao Museu Eduardo Ribeiro, ali pertinho. Esta visão mais cultural da cidade é fruto de sua relação com as tias,  pessoas que gostam muito de viajar.

    Ela conta que gosta de conhecer culturas, tanto que até cursou turismo, mas diz que é importante ter uma relação com a própria região. "Eu comecei a pensar nos espaços de maneira diferente, após cursar turismo. Depois disso, todas as vezes que eu viajo, vejo os lugares com um novo olhar. É uma oportunidade de aproveitar ao máximo as experiências de outras culturas".

    Para ela, é quase tradição viajar todo ano, mas, quando volta, sempre há aquele sentimento de retorno às origens. "Eu explorei tudo o que tinha para explorar em Manaus, não só por minha conta, mas também pelo curso. Fiz várias visitas técnicas e conheci lugares muito bacanas", relata. 

    "Os centros de uma cidade sempre são parecidos, porém as histórias são diferentes e isso se revela nas arquiteturas. O centro de Manaus, por exemplo, cada casinha guarda histórias muito bacanas de um tempo passado e que guarda os estilos da época".

    Calor humano

    O manauara Cleber Santos, 22, só começou a se relacionar com Manaus na adolescência. "Até os meus 17 anos, eu não conhecia bem a cidade, mas então comecei um projeto com pessoas em situação de rua e isso fez com que eu descobrisse novos lugares na cidade", conta. 

    Cleber Santos é apaixonado pelo Paço.
    Cleber Santos é apaixonado pelo Paço. | Foto: Arquivo Pessoal

    Quando começou a viajar para outros estados, percebeu o potencial arquitetônico e turístico do Amazonas. Por conta disso, passou a explorar mais a capital e os municípios vizinhos. "Sempre que viajo, eu falo de Manaus e conto como é bom viver aqui, mas sempre trago algo na bagagem que compartilho com amigos. Isso, de certa maneira, causa um impacto positivo na cidade", compartilha.

    O que Cleber mais gosta na terra são as pessoas. "Eu sempre vejo amigos de fora comentando o quanto foram bem acolhidos em Manaus e eu também sinto isso. Em algumas viagens, eu senti falta do calor humano da capital".

    E o que fazer em Manaus? Cleber diz que é sempre bom tomar banho de rio, em uma comunidade ribeirinha ou em um flutuante. "Poucas coisas são tão nossas como as relações com as águas. Também gosto de lugares de aprendizado sobre a Amazônia, como Bosque da Ciência e o Museu da Amazônia, onde há uma enorme torre de observação".

    "Manaus tem muitos lugares lindos, e muita gente que mora aqui não sabe. Um dos meus lugares preferidos é o Paço da Liberdade", relata. Cleber conta que muitas vezes vai para um lugar que fica atrás do Museu da Cidade para ficar admirando o pôr do sol sob a Ponte Rio Negro.

    Quanto à nossa culinária, ele diz que o melhor que há por aqui é o tambaqui assado preparado por seus avós e o nosso fast food favorito, o x-caboquinho. 

    Paris dos Trópicos

    Nem sempre a beleza da cidade é clara aos olhos de quem nasceu por aqui. Daniely Farias, 27, professora de língua francesa, conta que sempre pensou em morar fora do país. "Quando eu tive oportunidade de morar fora,  percebi o quanto Manaus é especial", relata.

    Por causa de um intercâmbio, Daniely mudou sua perspectiva sobre a cidade.
    Por causa de um intercâmbio, Daniely mudou sua perspectiva sobre a cidade. | Foto: Arquivo Pessoal

    Aos 21 anos, Daniely teve a oportunidade de fazer intercâmbio de um ano em Paris, na França. "Quando eu falava de Manaus, ninguém sabia o que era. As pessoas pensavam que aqui era mato, tinham uma visão um pouco ignorante sobre a cidade. Eu explicava sobre a Amazônia e as pessoas tinham uma ideia melhor do que era", conta.

    Até seus amigos brasileiros, de outros estados, tinham uma concepção limitada sobre Manaus. "Eu comecei a defender Manaus e passei a falar que a cidade era muito mais do que eles pensavam". 

    De volta a capital do Amazonas, Daniely é só amor pela Paris do Trópicos. Seus locais favoritos são o Largo de São Sebastião e Praia da Ponta Negra. 

    Nativo do Turumã 

    Jadson Maciel é um dos idealizadores do" Projeto Remada Ambiental". Um grupo de voluntários que se reúne uma vez por mês para fazer uma limpeza no Rio Tarumã-Açu. O projeto surgiu por conta da relação que ele tem desde a infância com o rio. 

    A ideia inicial era fazer apenas um passeio de prancha no rio com uns amigos, mas acabaram realizando uma coleta de lixo. Foi assim a primeira edição do projeto, em maio de 2016. "O Remada foi uma das melhores coisas que aconteceu na minha vida, me tornou um homem melhor, um pai melhor, uma pessoa melhor", diz. 

    Jadson luta pela preservação do Rio Tarumã-Açu.
    Jadson luta pela preservação do Rio Tarumã-Açu. | Foto: Arquivo Pessoal

    "Quando eu era criança, eu tomei banho nesses rios que estão lotados de sujeira e que nem servem mais para nadar. Minha luta pelo Tarumã é para que meus filhos possam tomar banho aqui também", conta.

    O amor pelo rio levou Jadson a ter um flutuante próximo à Marina do Davi, de onde tira todo seu sustento, por meio de serviços de stand up paddle e recebendo banhistas que querem se deliciar no rio. 

    No seu flutuante, ele costuma receber muitas pessoas de outros estados do país. O que mais os impressiona é a possibilidade que as pessoas em Manaus ainda têm de poder estar em contato com a natureza. 

    "O que eu mais gosto em Manaus é a opção e a oportunidade que temos de ter tanta água e fauna. No meu flutuante, eu recebo mutas pessoas de outros estados e eles se maravilham com isso, eles não têm contato com a natureza. O manauara tem e não valoriza", diz. 

    Jadson costuma dizer que sua relação com a cidade é bem paradoxal. Se por um lado ele ama e luta pela preservação da nossa cultura, por outro, ele se vê insatisfeito com o crescimento irresponsável da capital nos últimos 20 anos. 

    Igarapé do Mindu, Cachoeira Baixa, Cachoeira Alta e Ponte da Bolívia são alguns dos pontos em que ele teve a oportunidade de tomar banho em Manaus. Hoje, esses locais encontram-se poluídos. 

    "Nós, manauaras, sabemos o potencial de capital que nós temos. Manaus não é só o Polo Industrial, é a sua origem, sua identidade, sua cultura", afirma. 

    Para ele, a solução para resolver os problemas da cidade é por meio da responsabilidade compartilhada. Entender que o cuidado com a capital não é só responsabilidade do poder público é um dever de todos.