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    Depoimento


    Durante a gravidez, descobri que meu marido havia me passado Aids

    Angela F. M, descobriu que havia sindo infectada pelo vírus HIV, pelo namorado. Apesar do problema, a mulher o perdoou e hoje o casal vive com o filho, fruto do relacionamento. Leia o depoimento:

    O número de mulheres infectadas ainda é menor que o de homens, mas o índice vem crescendo | Foto: MARCIO MELO

    Manaus - "Meu nome é Ângela. Conheci Roberto durante o carnaval de 2016, em um bar, no bairro São Francisco, em Manaus. Ele era bonito, estava bem vestido e foi bastante galanteador durante a conversa. Eu tinha saído de um relacionamento há 6 meses e não estava a procura de ninguém, queria apenas curtir a vida,  mas naquele momento pensei ter encontrado um novo amor. Mal sabia que junto com ele, viria a luta contra a Aids.

    Durante a festa, nos beijamos, ele queria ir para minha casa e eu resistia. Dizia que não achava que nossa história não passaria daquela noite. Após a insistência e o bom papo dele, eu cedi. Fomos dormir em um motel na zona sul da cidade. Lá tivemos relações sexuais sem proteção, trocamos números e, após uma noite de muito prazer, cada um seguiu para sua casa.

    Porém, havia uma forte atração. Passamos a nos encontrar diariamente. Todo dia ele aparecia na minha casa ou às vezes marcávamos para ir ao cinema. Durante os primeiros encontros, sempre parávamos no motel e, sem proteção, mantínhamos relações sexuais.

    Meses depois mudei de casa e fui morar sozinha. Os encontros passaram a ser na minha nova casa. Após três meses, surgiu o pedido de namoro e uma semana depois já estávamos morando juntos. Estávamos apaixonados e passamos a dividir o mesmo teto, acordar na mesma cama. Ele era muito bom para mim,  eu recebia café da manhã na cama e, como ele cozinha muito bem, quando eu chegava do trabalho, sempre estava me esperando com uma surpresa no jantar.

    Quando me casei com Roberto, eu já tinha um filho de um primeiro relacionamento, porém a criança morava com o pai, pois na época, eu não tinha condições de criar.

    Com dois meses de namoro com Roberto, engravidei do segundo filho. A gravidez me trouxe uma grande felicidade, mas também uma notícia que mudaria minha vida. Ao fazer o exames para o pré-natal, descobri que eu era soro-positiva. Isso me trouxe uma grande apreensão, pois no último ano, Roberto era o meu único parceiro, portanto eu só poderia ter adquirido o vírus dele.

    Um misto de raiva e terror veio a minha cabeça:  qual seria o futuro da criança? Durante o exame, ele não estava comigo, pois precisava trabalhar e não pode me acompanhar. Eu descobri ,naquele dia, sozinha, ser portadora do vírus da AIDS. Fiquei estarrecida, sem chão e pensei, como poderia ter sido enganada daquele jeito?

    Liguei para uma amiga me buscar no hospital, fui pra casa com o meu encaminhamento para ir ao Tropical o mais rápido possível. No percurso do hospital até minha casa não falei nada para a minha amiga, apenas chorava no carro e ela entendeu que precisava me dar espaço.

    Cheguei em casa por volta das 9h, muito abalada. Fiquei sentada na cama, no quarto escuro, pensando na minha vida até às 17h. Quando Roberto chegou do trabalho, expliquei a situação. Assustado e me pedindo perdão, ele começou a chorar. No primeiro momento, achei que era por conta da notícia, mas depois, com mais calma, ele me disse que era o responsável por eu ter o vírus. Fiquei sem entender como o homem que eu amava poderia ter me feito aquilo.

    Eu estava abalada, vi meu mundo cair, o homem que eu amava havia me enganado durante todo esse tempo, e o pior, com algo que mudaria significativamente a minha vida. Senti raiva, tristeza, precisei de alguns dias para refletir sobre o assunto. Não o expulsei de casa, mas durante algumas semanas ele não dormia mais junto a mim, na mesma cama. Eu não estava preparada ainda para aceitá-lo.

    Comecei o tratamento para não infectar o meu bebê, e durante o processo eu entendi que, apesar de tudo, eu amava aquele homem. Percebi que ficaria muito pior, se enfrentasse tudo, sem ele.  Ele me explicou que não me contou porque tinha medo de me perder, que eu fui a mulher que mais acreditou nele e o incentivou. Que não queria ficar sem mim.

    Meu filho nasceu, passou por diversos exames durante toda a infância, foi um alívio saber que ele não tinha o vírus, que está a salvo.

    Quanto a mim, minha vida virou da cabeça para baixo. Tenho que tomar coquetéis de remédios para prolongar minha vida e tenho medo de adoecer ainda mais, e não ver meu filho crescer, por isso estou sempre me cuidando.

    Hoje vivemos em uma casa no terreno do quintal dos meus pais. Não contei pra eles que sou soropositiva, tenho medo da reação e do que eles podem fazer com a minha família. As únicas pessoas que sabem são o meu marido e alguns amigos que confio. Sei que jamais irão interferir de forma negativa na minha vida.

    É estranho para as pessoas aceitarem que eu tenha perdoado o meu marido. Ele poderia ter me preservado, mas eu também fui errada em ter me relacionado sem o uso de preservativos. Não me vejo sem o amor dele. Apesar de tudo, tenho a sorte de tê-lo comigo, cuidado de mim e do meu filho, mas deixo a todas as mulheres um recado: o vírus não tem cara, é ´preciso cuidado, pois apesar do amor estar ao meu lado, terei que conviver com essa doença para o resto da vida, com cuidados extremos, sabendo que não posso vacilar".

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