Política


Tenho muito a falar

Leia o artigo de opinião do deputado estadual da 15ª a 17ª legislatura, governador do Amazonas em 2017 e presidente estadual do partido Avante no Amazonas David Almeida

| Foto: Divulgação

Ao longo da minha existência, constatei que vida é movimento. Em meio a essa pandemia, vivendo a quarentena, percebi com mais clareza que os termos ação e reação, usados nos estudos da física, são movimentos difíceis de controlar. Quando mais precisávamos de calmaria, de isolamento para vencer o novo coronavírus (Covid-19), algumas ações no meio político causavam reações que não ajudaram em nada no enfrentamento ao vírus. Agora, um novo ato deve desencadear uma série de iniciativas e jeitos de lidar com a coisa pública.

Nesta semana, a Assembleia Legislativa do Estado do Amazonas (Aleam) deve efetuar a instalação, ao seu modo, de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI). O objetivo dessa empreitada é apurar supostos crimes em meio à gestão da saúde pública do Estado do Amazonas. Antes resumida, no seu nascedouro, a atual gestão, a proposta se expandiu nas últimas semanas para as administrações anteriores, a contar de 2011.

Como governador do Amazonas, de maio a outubro de 2017, eu fui perguntado por amigos e jornalistas sobre o que eu penso dessa CPI. Diante da experiência que eu vivi, naquele período de 144 dias como chefe do Executivo, a resposta que tenho é: quando o quadro da pandemia já estiver passado e for seguro para as pessoas que trabalham no Parlamento estadual, eu quero ir ao plenário da Assembleia Legislativa. Tenho muito a falar. Desde já me coloco à disposição da CPI. Mas digo que ela não deve ocorrer a salas escondidas e de portas fechadas.

Espero, de verdade, que essa comissão não seja engavetada pelos deputados dessa legislatura. E digo mais. Que ela seja realizada de forma transparente, com a participação do povo. Espero, ainda, que todos os investigados sejam realmente chamados, em plenário, para serem questionados. Da minha parte, eu tenho números e documentos para apresentar, não apenas aos parlamentares que serão chamados para compor essa comissão, mas também para a sociedade amazonense como um todo.

Sei que hoje posso ser questionado pelo fato de, quando eu estava presidente da Aleam, uma CPI sobre a saúde não ter sido montada. Entre as razões da época, uma das mais claras era o fato de o objeto daquele pedido já ter sido todo destrinchado, naquele ano, pela Polícia Federal (PF), órgão da maior competência para esse tipo de investigação. O caso, inclusive, já tinha levado pessoas à prisão. Àquela altura, criar uma CPI para tal finalidade, sem a expertise da PF, seria fazer o que já estava sendo feito, ou chover no molhado.

Agora, se os deputados entenderem que esse novo pedido de CPI sobre a saúde do nosso Estado deve prosperar, então que ela alcance o objetivo em favor da população do Amazonas. E que essa instituição da Comissão Parlamentar de Inquérito não sirva apenas de mero instrumento político, que ela não seja mais uma CPI sem resultados, em um momento que as nossas atenções estão todas voltadas a uma maior razão: a defesa pela vida.