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    Psicologia do Esporte e a saúde mental

    "A prática do esporte favorece a sociabilidade, facilita a construção da disciplina, foco, persistência, bem como estimula a cognição e as funções perceptivas". Leia mais no artigo

    Escrito por Lígia Maria, Duque Johnson de Assis e Juliana Coutinho Borges no dia 24 de agosto de 2021 - 20:02
    | Foto: Divulgação

    A palavra esporte suscita diferentes memórias, porém, a probabilidade de encontrar pessoas que não saibam o que é esporte é muito pequena. O esporte está presente na vida das pessoas, em todas as raças e etnias, alcança todas as idades, existindo inúmeros tipos e modalidades esportivas e, também, grande número de adeptos a sua prática e como admiradores; o que o torna um fenômeno sociocultural.

    Comprovadamente, a prática do esporte favorece a sociabilidade, facilita a construção da disciplina, foco, persistência, bem como estimula a cognição e as funções perceptivas, além de proporcionar melhor consciência de corpo e preparo físico, contribuindo para a saúde física e mental.

    Encontramos praticantes de esportes como recreação e como profissão, estando nesta categoria o esporte de alto rendimento. Segundo Corrêa (2002), “Motivação, auto-rendimento, liderança, conquistas, grupos, bem-estar psicológico, violência, pensamentos e sentimentos de atletas são temas que envolvem este fantástico cenário e que vem se tornando um campo de atuação importante para os psicólogos” (p.203).

    Historicamente, a Psicologia do Esporte surgiu no final do século XIX. Com pesquisas em psicofisiologia no esporte, a União Soviética foi o país que iniciou o uso de métodos e técnicas psicológicas voltadas para performance, e nos Estados Unidos surgiram as pesquisas e os laboratórios em Psicologia esportiva. Desta data até o presente, a Psicologia do Esporte teve um grande crescimento, passando a ser reconhecida em todos os continentes “como profissão e como área de concentração acadêmica” (p.205). 

    No Brasil, a Psicologia do Esporte teve seu início na década de 50, no São Paulo Futebol Clube, com o psicólogo Carvalhaes, que acompanhou a seleção brasileira de futebol, campeã da Copa de 1958, trabalhou com juízes na Federação Paulista de Futebol e escreveu “Psicologia do Futebol” em 1974. Tivemos ainda outros psicólogos que se notabilizaram e contribuíram para o crescimento da Psicologia do Esporte, como Athayde Ribeiro da Silva, psicólogo, publicou “Futebol e Psicologia” e representou o Brasil no Congresso de fundação da Sociedade Internacional de Psicologia do Esporte.

    O psicólogo Mauro Lopes de Almeida, em São Paulo. A psicóloga Eliane Abdo, que organizou o Centro de Preparação Psicológica no E.C. Pinheiros, com psicólogos para várias modalidades, realizando psicodiagnóstico esportivo e suporte psicológico a atletas. E a psicóloga Regina Brandão, reconhecida por seu trabalho com a seleção de voleibol masculina, que conquistou a medalha de ouro nas Olimpíadas.

    Neste percurso, vários clubes passaram a contratar psicólogos e tivemos ainda, a criação do laboratório de Psicologia do Esporte na Universidade Federal de Minas Gerais e a Psicologia do Esporte foi incluída no currículo de muitas Faculdades de Psicologia. Em 2007, o Conselho Federal de Psicologia, em sua resolução CFP N.º 013/2007 regulamenta a concessão do título de especialista, reconhece e descreve a atividade do especialista em Psicologia do Esporte.

    Embora toda abrangência e evolução da Psicologia do Esporte, até hoje a inserção da (o) psicóloga(o) neste campo ainda enfrenta resistência, segundo Cristiano Barreira, presidente da Abrapesp. Isto se dá nas categorias profissionais, no que diz respeito a questões político-institucionais, de formação e cultura de dirigentes e técnicas(os) e da compreensão que têm em relação ao que é a Psicologia do Esporte, à presença e ao trabalho da (o) psicóloga(o).

    Também é necessário lembrar o caráter cultural que envolve a atividade esportiva. Embora os ganhos em saúde e qualidade de vida que o esporte proporciona, poucos se beneficiam dele. A percepção coletiva de esporte, no Brasil, se configura como uma grande paixão que está fortemente associada a competição com foco na vitória, com estímulo acentuado dos meios de comunicação de massa e com uma postura capitalista, promovendo e estimulando forte admiração e suposta supremacia daquele que vence, o transformando em herói. E pelo abandono a aquele que perde, o que pode influenciar negativamente a ambos no aspecto psicológico, por distanciarem-se da auto percepção, existindo aí a necessidade de intervenção da Psicologia.

    Durante quase um mês assistimos ansiosos aos Jogos em Tóquio (2021), uma Olimpíada marcada por falta de público, mas cheia de esperança por vitórias e por um mundo melhor. Cada nação junto a seus atletas puderam viver, de suas casas, o sonho a ser conquistado. Por outro lado, tem os atletas que desafiaram o impossível em busca de seu melhor desempenho, da conquista por uma medalha no peito, por uma realização pessoal marcada muitas vezes por uma competição interna, e outros que sentiram a dor e a frustração da perda e até da desistência em competições. E como lidar com tudo isso? Como lidar com tantas emoções e, ao mesmo tempo, ter que manter a racionalidade e a concentração?

    Nas Olimpíadas, diversos atletas viveram a emoção e o sofrimento psíquico por estar ali, mas conseguiram enfrentar o preconceito e falar sobre o assunto, exemplo da ginasta Simone Biles e a tenista Naomi Osaka. Porém, o que a maioria pensa é que a vida do atleta é perfeita, ignorando o quanto de dedicação e renúncia existe naquele cotidiano, aspecto que contribui para ampliação do sofrimento.

    Sofrimento que não existe apenas nos atletas de alto rendimento, o apelo a “aparência perfeita”, a busca de corpo masculino e feminino ideal, a luta para “retardar” o envelhecimento também levam a práticas restritivas com alta exigência de performance e semelhante nível de sofrimento, levando ao adoecimento psíquico pela busca incessante e a dificuldade de lidar com as frustrações.

    Frades e cols, 2020 falam sobre o adoecimento no esporte, especificamente, “a depressão no esporte advém de vários fatores que levam esses atletas ao adoecimento. As causas mais comuns da depressão nos atletas são: personalidade do atleta, ansiedade, baixa auto-estima, fracasso, lesão física, mudanças de comportamento, auto-cobrança, problemas afetivos, perda de prestígio ou da posição de titular, baixo rendimento, dentre outras causas” (p.09). 

    Embora o treino de habilidades psicológicas seja uma prática aplicada há algum tempo com atletas, as evidências indicam a necessidade de aprimoramento desses treinos, principalmente, considerando que as pressões por resultados são cada vez maiores. Após cada vitória ou alcance de meta, cria-se a expectativa por melhores resultados de forma cumulativa, vistos como naturais pela população, porém, com efeito psicológico desastroso nos atletas que têm como cotidiano a busca de superação dos próprios limites.

    Além da intervenção nas habilidades psicológicas, também é necessária a mudança na percepção cultural que se tem do esporte, com a compreensão do valor da participação independente da classificação e medalhas obtidas, e o reconhecimento da dedicação do atleta em seu preparo para aquela prova, qualquer que seja o resultado. Tarefa da Psicologia do Esporte em sua transversalidade. 

    Autoras: Lígia Maria Duque Johnson de Assis, professora do curso de  Psicologia da Faculdade Santa Teresa. Juliana Coutinho Borges, coordenadora do curso de  Psicologia da Faculdade Santa Teresa

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