Fonte: OpenWeather

    Davi Lago


    O potencial alienador das mídias digitais

    A celebridade é simplesmente alguém que é conhecido por ser conhecido, alguém cuja obra é existir no novo espaço da mídia

    Estamos em uma cultura que propicia o menor esforço intelectual
    Estamos em uma cultura que propicia o menor esforço intelectual | Foto: Reprodução

    Um aspecto central no advento das mídias sociais é a possibilidade de reestruturação do poder político.Contudo, como afirma Juliano Spyer em sua pesquisa “Mídias sociais no Brasil emergente”, devemos ser céticos contra as interpretações românticas que descrevem acriticamente a internet como uma força democratizante. Existe também a outra possibilidade, ou seja, a força alienadora destes novos dispositivos tecnológicos.

    Sobre este caráter alienante que as novas formas de comunicação digital proporcionaram há inúmeras reflexões. Um exemplo notável é a produção recente de Mario Vargas Llosa, Nobel de Literatura, em textos, discursos e entrevistas acerca do que ele chama de “imbecilização das pessoas” no contemporâneo. Na obra “A civilização do espetáculo: uma radiografia do nosso tempo e da nossa cultura” Llosa afirma que a cultura conectada mundialmente em redes sociais “em vez de promover o indivíduo, imbeciliza-o, privando-o de lucidez e livre-arbítrio, fazendo-o reagir à ‘cultura’ dominante de maneira condicionada e gregária”. Llosa observa que não é surpreendente o fato de que na era do espetáculo os efeitos especiais no cinema passaram a ter um protagonismo que relega a segundo plano temas, diretores, roteiros e até atores. Estamos em uma cultura que propicia o menor esforço intelectual, a ausência de preocupação e fuga dos problemas concretos.

    Segundo Llosa, o que se espera dos artistas em nossos dias não é talento nem destreza, mas pose e escândalo, portanto, os “atrevimentos” dos artistas não passam de máscaras de um novo conformismo. Llosa afirma que a sociedade contemporânea dá um novo sentido ao termo “frivolidade”. Segundo os dicionários, frívolo é o leviano, o volúvel e superficial. Para Llosa, em nossa época frivolidade consiste em ter uma tabela de valores invertida ou desequilibrada, em que a forma importa mais que o conteúdo, a aparência mais que a essência, em que o gesto e o descaramento – a representação – ocupam o lugar de sentimentos e ideias. Para ele, na frivolidade desta sociedade tudo é aparência, teatro, brincadeira e diversão.

    Claro que nem todos são tão críticos assim. Contudo, mesmo pensadores como Gilles Lipovetsky e Jean Serroy, conhecidos por defenderem posições diferentes de Llosa, concordam que esta é uma era propicia ao surgimento de um “neoestrelato”, uma nova maneira de ser estrela. O poder midiático da antiga estrela do cinema hollywoodiano agora divide sua força com ícones de todos os domínios: imagens de Einstein, Martin Luther King Jr., Che Guevara, indo de fotos a pôsteres, estampadas em paredes dos quartos e nas camisetas dos adolescentes do mundo inteiro, anunciam o novo star-system. Nada mais escapa ao sistema do estrelado: a política, a tecnologia, o empreendedorismo, a música erudita, o design, a academia, a imprensa, a literatura, a filosofia, a confeitaria, o turismo, a meditação transcendental, os quadrinhos, o ativismo ambiental, a igreja evangélica. Não existe mais uma grande causa sem estrela.

    O tempo atual chega ao ponto de gerar o “gênio sem obra”. A celebridade é simplesmente alguém que é conhecido por ser conhecido, alguém cuja obra é existir no novo espaço da mídia. Portanto, diante destes traços tão característicos de nossos dias, não podemos desconsiderar o potencial alienador das mídias digitais nas questões políticas que afetam concretamente a vida de todos nós. André Lara Resende afirmou: “enquanto o herói clássico adquiria fama por agir no espaço público, o herói pós-moderno, a celebridade, adquire fama por aparecer – o termo existir seria inadequado – no espaço da fantasia”.

    *Davi Lago é escritor, mestre em Teoria do Direito e pesquisador