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    Opinião


    Desafios econômicos e emocionais da quarentena

    Veja a opinião do ensaísta Davi Lago!

    O impacto das restrições de comércio e circulação de pessoas é severo | Foto: Divulgação

    A pandemia de coronavírus alterou o curso dos acontecimentos em 2020. Não é por acaso que líderes e chefes de Estado chegaram a comparar o momento com uma “guerra”. Na Alemanha, a chanceler Angela Merkel proferiu um discurso histórico onde afirmou que o coronavírus é a maior luta do país desde a Segunda Guerra Mundial. Em apenas três meses a doença contaminou 272 mil pessoas conforme dados monitorados pela Universidade Johns Hopkins.

    De fato, a última vez que um surto viral destas proporções ocorreu foi entre 1918-1920 com a pandemia da gripe espanhola, responsável pela contaminação de meio bilhão de pessoas (27% da população mundial da época). Como lembrou nesta semana Ruy Castro, a gripe espanhola vitimou anônimos e famosos como o sociólogo Max Weber, o dramaturgo Edmond Rostand, autor de “Cyrano de Bergerac”, Sophie (filha de Sigmund Freud), o poeta Guillaume Apollinaire, os magnatas da indústria de automóveis John e Horace Dodge e até as crianças do “milagre de Fátima”, Francisco e Jacinta. Naquela ocasião, o número global de mortes foi estimado em 50 milhões.

    No desafio atual do coronavírus, a milenar estratégia sanitária da quarentena foi adotada por diversos países. Por que a quarentena? Porque o distanciamento social ajuda a prevenir, reduzir e retardar a disseminação do vírus desconhecido. Os registros mais antigos deste tipo de medida remontam aos escritos israelitas da Torá (nos trechos da “Tazria” e “Metzora”), passam pelos cordões sanitários da Europa durante a Peste Negra e chegam aos dias modernos.

    Contudo, apesar dos fatores epidemiológicos serem determinantes, as medidas de quarentena acarretam outros desafios que não podem ser desprezados: desafios econômicos e emocionais. As consequências econômicas já são sentidas pela maioria esmagadora dos brasileiros e brasileiras. Basta ressaltar que o Brasil é o sétimo país do mundo em número de empregos informais com cerca de 38,8 milhões de trabalhadores (41,4% da população ocupada) conforme dados do IBGE, do Dieese e da OIT.

    O impacto das restrições de comércio e circulação de pessoas é severo: a projeção de crescimento do PIB brasileiro feita pelo Ministério da Economia para 2020 era de 2,4%; caiu para 2,1% dez dias atrás e ontem despencou para 0,02%. Milhões de pessoas simplesmente não possuem fontes alternativas de trabalho e renda diante das restrições da quarentena.

    Além destes desafios financeiros, as famílias brasileiras enfrentarão desafios emocionais. O confinamento domiciliar tem potencial para agravar casos de depressão, ansiedade, agressividade e confusão mental. Um estudo liderado pelo Dr. Jon P. Furuno mostra que o isolamento social traz vantagens sanitárias, mas desvantagens para a saúde mental.

    Especialmente com a interdição das escolas e a presença das crianças nos lares, os brasileiros devem acatar a recomendação dos psicólogos: estabelecer uma rotina clara e bem definida no lar desde o início da quarentena. A organização das atividades dá um rumo coletivo, contribui na economia de tempo e dinheiro, otimiza os recursos disponíveis e reduz o stress. Nesta dinâmica excepcional é fundamental tratar as crianças e idosos com atenção e amor extra.

    Por fim, é importante sublinhar a estratégia vital aos múltiplos desafios que a pandemia impõe: a solidariedade. Todos podem ser solidários. No horizonte dos próximos dias, é imperativo evitar conflitos inúteis, valorizar a vida e demonstrar empatia, sobretudo com os brasileiros e brasileiras mais vulneráveis, incluindo os contaminados pelo vírus, seus entes próximos, bem como nossos médicos, médicas e profissionais da saúde que literalmente arriscam suas vidas.

    André Saldiba disse que “nada faz tão bem como o abraço de um amigo que nos aproxima dos outros”. Assim, os sentimentos de incerteza podem ser canalizados apropriadamente neste período de quarentena. Como C. S. Lewis afirmou no belíssimo ensaio “A última noite do mundo”: “a sensação de crise de qualquer tipo é essencialmente transitória. Os sentimentos vêm e vão, e, quando vêm, pode-se fazer um bom uso deles”.


    * Davi Lago é pesquisador do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo