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    Artigo de Opinião


    Apocalipse: surto de Covid-19 escancarou o drama do Amazonas

    Euclides da Cunha disse que a floresta amazônica era a última página do Gênesis ainda sendo escrita. No presente, o estado do Amazonas mais se parece com um trecho do Apocalipse. Leia no artigo de Davi Lago.

    Escrito por Daví Lago no dia 29 de abril de 2020 - 21:24
    | Foto: divulgação

    Euclides da Cunha disse que a floresta amazônica era a última página do Gênesis ainda sendo escrita. No presente, o estado do Amazonas mais se parece com um trecho do Apocalipse: as imagens de cadáveres empilhados e sepultados em valas comuns, disseminadas pela imprensa internacional, atestam a dimensão da crise na pandemia de coronavírus.

    Com a situação alarmante, no último sábado (25 de abril), o papa Francisco fez questão de ligar para dom Leonardo Steiner, arcebispo metropolitano de Manaus, demonstrando preocupação, sobretudo com os povos indígenas, os ribeirinhos e os mais pobres.

    O surto de Covid-19 apenas escancarou o drama político amazonense que se arrasta nos últimos anos com episódios difíceis como: cassação e prisão de ex-governador, diversos esquemas de corrupção revelados pela operação Maus Caminhos, rebeliões e massacres prisionais e o aumento da devastação ambiental.

    A pandemia de coronavírus terminou de expor as graves mazelas da região, incluindo as deficiências da própria capital Manaus: não há infraestrutura sanitária, os hospitais carecem de equipamentos básicos e até mesmo os cemitérios são precários. Ao cenário desolador acrescentaram-se nestes dias tempestades e alagamentos.

    Vale ressaltar que o termo grego “apocalipse” significa literalmente “revelação”, e é neste sentido que o Amazonas vive um apocalipse: suas estruturas defasadas estão sendo expostas, sua gestão incompetente, desmascarada.

    Mais do que lamentar a catástrofe, é preciso refletir e agir sobre o que está diante de nós. Este é, definitivamente, um ponto de inflexão na história amazonense. Assim como o ciclo da borracha terminou no início dos anos 1910, encerrando uma etapa histórica no Amazonas, a atual crise sanitária, política e institucional amazonense revela um esgotamento do modelo socioeconômico implantado desde a segunda metade do século 20. O filósofo José Alcimar de Oliveira, professor da UFAM, afirmou: “a Manaus de 2020, que se fez pós-moderna sem que tivesse assimilado as conquistas básicas da modernidade, se abraça de forma necropolitana com a Manaus de quase 100 anos atrás, da pandemia da chamada gripe espanhola”.

    É necessário repensar não apenas estratégias de curto prazo, mas todo o projeto brasileiro no norte do país. O projeto da Zona Franca de Manaus, desenhado desde os anos 1950 e implementado a partir de 1967, teve como objetivo industrializar a região, oferecendo incentivos fiscais, aumentando sua população, garantindo não apenas o desenvolvimento econômico regional, mas a própria integridade do território soberano brasileiro.

    Este plano demonstra sinais de absoluta exaustão. O Amazonas pós-covid-19 precisa superar práticas políticas viciadas e arcaicas, unir cidadãos interessados em repensar e renovar ideias e ações para a região.

    No estudo “Amazônia: por uma economia do conhecimento da natureza”, por exemplo, o pesquisador Ricardo Abramovay apresenta inúmeras evidências empíricas de que a visão econômica de curto prazo na região amazônica é completamente desastrosa. É momento de superar impasses elementares, reunir quem deseja o bem do Amazonas e não apenas seus bens.

     * Davi Lago é pesquisador do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo

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