Artigo de opinião


Movimento Negro: fruta estranha em duas américas

A violência contra os negros, mas não só ela, guarda uma reincidência marcante na história humana, apesar de extremamente desumana

Não há como mensurar a maldade contra um ou outro grupo humano, mas a violência contra os negros é paradigmática
Não há como mensurar a maldade contra um ou outro grupo humano, mas a violência contra os negros é paradigmática | Foto: Divulgação

“Please I Can’t Breath... Please I can’t breath...”, dizia o homem negro, enquanto era sufocado e imobilizado por três policiais. A agonia e o ato assassino duraram exatamente 8 minutos e 46 segundos, tempo suficiente para ceifar uma vida e dar origem a uma grande mobilização contra o racismo.

Luta dos movimentos pelos direitos civis, embalou tanto o sonho multirracial de Martin Luther King, quanto os gritos reivindicatórios de Malcolm X contra o pesadelo de segregação e maus-tratos da sociedade americana, no lema: “É o voto ou a bala...”.

Entretanto, nem a cédula nem o projétil conseguiram dar cabo às diferenças raciais, sociais, de gênero, e tantas outras que assolam o mundo.

A violência contra os negros, mas não só ela, guarda uma reincidência marcante na história humana, apesar de extremamente desumana.

Retratada em poemas, filmes, músicas, mas também em cicatrizes que marcam o corpo e o espírito dos que atravessam seu caminho, esse símbolo de discriminação e injustiça traz junto de si, o ódio, a mágoa, o preconceito, o medo, enfim, uma hostilidade difícil de compreender e de aceitar.

Mas essa visão não é unanimidade, principalmente, num tempo em que a extrema direita aumenta cada vez mais os seus ressentimentos macabros e grita mais forte: as vidas dos negros pouco importam!

Esse grito ecoou tão forte nos últimos tempos que sufoca a liberdade também de outros segmentos sociais: judeus, latinos, LGBTS, índios... E verticaliza seu furor aos pobres, orientais, deficientes, idosos. O estranho passa a ser o objeto odiado.

Não há como mensurar a maldade contra um ou outro grupo humano, mas a violência contra os negros é paradigmática. Pensemos nos linchamentos e enforcamentos de negros americanos na década de 30. Um espetáculo assustador.

Um poema, depois musicado e cantado por Billie Holiday, chamado “Strange fruit”, nos possibilita ter uma visão aproximada desses acontecimentos: “Árvores do Sul dão uma fruta estranha, sangue nas folhas...e nas raízes.

Corpos negros balançando... Frutas estranhas balançando nos álamos. E de repente o cheiro de carne queimada. Aqui está a fruta para os corvos puxarem, para a chuva recolher, para o vento sugar, para o sol apodrecer, para a árvore pingar, aqui está a estranha e amarga colheita.” E na outra América, a do Sul, como estão sendo tratadas as suas/nossas “frutas estranhas”?

Têm elas direito há pelo menos uma alegria fugaz? Ou não passam de cegos penitentes? Segregadas da riqueza nacional, marginalizadas dentro de um Estado que se diz de Direito, e párias no interior de sua própria sociedade, sua mobilização, agora, é contra a negação de sua importância no processo histórico, político, social e cultural nacional.

É pra não ver apagada sua própria história. Duas Américas. Estranha relação. Lá, luta-se por mais igualdade, contra a violência racial e social,... por mais direitos. Aqui, a problemática circunscreve-se na defesa da própria identidade do negro como povo, de seus valores, memória, ancestralidade,... como ser humano. Lutas reais e vitais.

Nas duas Américas, Napoleões retintos tentam colocar numa camisa de força e neutralizar o protagonismo popular através da violência estatal ou de grupos de Direita. Quem sabe para estrangular e sufocar os já agonizantes direitos fundamentais e humanos.

Mas, esquecem que onde há força há resistência. Frutas estranhas. Estranhos desejos. Estranhos direitos. Estranha vida. “Dói-me o estômago, dói-me o pescoço, dói-me tudo... Não consigo respirar.” 

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