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    Artigo de Opinião


    Santa Casa da Misericórdia de Manaus: uma pesada cruz

    Aqui urgia a construção de um hospital a atender com humanidade e beneficência as doenças e epidemias que grassavam na terra como a da febre amarela, a gripe espanhola, o tifo

    O IPHAM – embargou a obra, mas está excluída a capela. Somente o hospital às ruínas diz a faixa no prédio.
    O IPHAM – embargou a obra, mas está excluída a capela. Somente o hospital às ruínas diz a faixa no prédio. | Foto: Divulgação

    A Santa Casa da Misericórdia de Manaus agoniza. Em artigo recente narrei que a Santa Casa foi erguida há 135 anos a duras penas pelo esforço conjunto de homens e mulheres filantropos, caboclos, imigrantes e... voluntários.

    Aqui urgia a construção de um hospital a atender com humanidade e beneficência as doenças e epidemias que grassavam na terra como a da febre amarela, a gripe espanhola, o tifo...

    Contei que meu tio Urbano Novoa, imigrante espanhol e já diretor do então “Hospital – Colônia Eduardo Ribeiro” (Hospital Psiquiátrico) exerceu junto a muitos esse voluntariado, no carregar tijolos em canoa pelo igarapé São Vicente e, ao iniciar a Av. Sete de Setembro, transportava o material em carroça até os altos da Av. Eduardo Ribeiro onde se erguia ainda incipiente o futuro hospital.

    Essa sua força voluntária, concedeu-lhe o direito de leito cativo de 1ª classe até sua morte. Sua foto exibida junto às fotos dos outros benfeitores no salão nobre da referida Casa de Saúde. Mas hoje outros são os ritos, outros são os mitos.

    Outros são os odores e outros são os louvores. Em tempos terceiro milenaristas a cidade não recende a solidariedade. Por muitas vezes possui o odor do personalismo. Em Manaus não mais se louva o genuíno mérito. Mas cultuam-se egos inflados e méritos industrializados. A cidade perdeu o cheiro do chão molhado sob o sol após chuva de verão.

    Aquela sempre finalizada pelo canto de um galo. Manaus no agora cheira a multidões solitárias e não solidárias por entre os neóns da mega modernidade. George Steiner pensador europeu contemporâneo colocou num ensaio recém-publicado os diferenciais entre países tradicionais e países emergentes no tocante às suas identidades:

    Santa Casa sempre foi apanágio da saúde para todas as classes sociais
    Santa Casa sempre foi apanágio da saúde para todas as classes sociais | Foto: Divulgação

    Primeiro diferencial – nos países com tradição e afetivos, predomina a paisagem civilizada preocupada com o meio ambiente despoluindo seus rios, sem paralisar o progresso. Nos países emergentes, rios transmudam-se em bueiros ou cloacas. Não despoluem os mananciais com receio de paralisar o progresso.

    Segundo diferencial – nos locais com tradição costuma-se denominar as ruas, praças com nomes de grandes estadistas, científicos, artistas e escritores do passado. Nos países emergentes e insensíveis as ruas são designadas por números, letras, nomes de árvores, plantas, frutas, nome de pagodeiro, Catirina e Pai Francisco. E pasmem! Nomes de pessoas vivas para incensar-lhes o ego.

    Terceiro diferencial – nos países afetivos nas estações de ônibus é obrigatório instruir viajantes sobre as casas dos poetas ou figuras ilustres da vizinhança. Nos países invadidos pelos emergentes indica-se a casa de Madonna, Michael Jackson e Al Capone. Quarto – nos países tradicionais é densa a presença do passado e do presente.

    Nos outros, os indiferentes, prefere-se olhar somente o futuro nuns, o velho, o gasto pelos séculos é de sumo valor. Nos outros, é um estorvo para os megalomaníacos. Existem, pois locais lúcidos. E os amnésicos. Bem a propósito. Salve o Exército Brasileiro pela iniciativa patriótica da limpeza do prédio... Santa Casa sempre foi apanágio da saúde para todas as classes sociais.

    Anos atrás li numa notícia aqui do Em Tempo, “O caso da Cruz Pesada”. Dizia a reportagem: na Cidade Nova, um ladrão resolveu roubar a cruz de um templo protestante. Mas a cruz de 1 metro e oitenta centímetros e uns 50 cm de largura era de bronze. Setenta quilos de bronze puro! Foi então largada no meio do caminho pelo larápio. Era pesada demais... Assim também nós, largamos no meio do caminho a Santa Casa. Pesada demais para nós. À semelhança do Gólgota longínquo imitamos os soldados romanos sorteando túnica inconsútil e indiferentes jogando dados aos pés da cruz... (Publicada em 2012) republicada a reiterados pedidos. Virou bem particular, um hospital.

    O IPHAM – embargou a obra, mas está excluída a capela. Somente o hospital, às ruínas, diz a faixa no prédio. “A Santa Casa fez parte de sua história, agora faz parte da Fametro. Justifica-se o injustificável.  

    * O artigo acima é de responsabilidade da autora. Não reflete a opinião da Rede Em Tempo de Comunicação. 

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