Defensor da Amazônia


Dom Pedro Casaldáliga e a Missa da Terra Sem Males em Manaus

Dom Pedro Casaldáliga morreu no último sábado (8), aos 92 anos, devido a uma infecção pulmonar

Casaldàliga era reconhecido por seu intenso trabalho social e defesa dos mais vulneráveis
Casaldàliga era reconhecido por seu intenso trabalho social e defesa dos mais vulneráveis | Foto: Divulgação


Falecido no último dia 8 de agosto aos 92 anos de idade, o catalão Dom Pedro Casaldáliga, reconhecidamente, foi uma das maiores estrelas de amor e luta por liberdades democráticas e pelos direitos dos povos indígenas no Brasil. Em 23 de outubro de 1971, ao assumir a Prelazia de São Félix do Araguaia, no Estado do Mato Grosso,  Dom Pedro divulgou uma carta pastoral que o projetou no cenário internacional como um grande líder religioso engajado na causa indígena e contra as desigualdades sociais.

A carta pastoral foi a nitroglicerina que explodiu dentro das hostes militares que naquele período impunham ao Brasil uma ditadura implacável, de deliberada perseguição aos opositores fossem eles comunistas ou de outros matizes. Todos que ousassem levantar a voz contra o regime fardado eram violentamente perseguidos, e Dom Pedro não foi exceção.  

Famoso mundialmente, em 1978 ele visitou Manaus, onde veio participar da cerimônia de ordenação episcopal de Dom Jorge Marskell, falecido em 1998. Jovem na época, o hoje professor universitário e coordenador do Projeto Jaraqui, Ademir Ramos, lembra da visita.

“Eu me recordo da missa que coordenamos pelo CIMI (Conselho Indigenista Missionário), em favor dos direitos dos povos indígenas, uma missa escrita por Pedro Tierra (Hamilton Pereira da Silva), um poeta brasileiro que, inclusive, fora exilado em Cuba. Na época fiz uma longa entrevista com Dom Pedro que publiquei no Porantim com o título ‘Só o Socialismo Salvará os Povos Indígenas’. Quem presidiu a missa foi Dom Milton Corrêa Pereira, às 19h30, na Catedral Metropolitana de Manaus”.

“Dedo duro da PF”

A missa era um longo texto escrito conjuntamente por Pedro Tierra e Dom Pedro Casáldaliga, que também resultou em um poema celebrizado na bela voz da cantora Diana Pequeno. “A Missa da Terra Sem Males é um tributo aos povos indígenas, é um combate em favor da vida e contra o genocídio, bem apropriado para o momento em que vivemos, é um tributo à mitologia do povo guarani, que acreditava em que, atravessando o mar, encontraria uma terra sem males”, conta Ademir Ramos. 

O militante esquerdista da década de 70 conta que, durante sua passagem por Manaus, Casaldáliga ficou hospedado na Maromba, no bairro da Chapada. “Ele ficou hospedado na Maromba e o Grupo Tariri foi quem executou a música da Terra Sem Males no grande evento católico que realizamos na Catedral. Fizemos a celebração com muito dedo duro da Polícia Federal vigiando a gente na Igreja superlotada. Quando a missa terminou, Dom Pedro me contou um caso que me envolveu. Dom Milton perguntou se ele podia me ordenar, ao que Casaldáliga respondeu: ‘A nossa função é ordenar os desordenados’.

Segundo Ademir, Dom Frei Leonardo Ulrich Steiner, hoje Arcebispo de Manaus, foi quem substituiu Dom Pedro quando ele se afastou do Arcebispado do Araguaia.

“Há um depoimento muito importante de Dom Leonardo sobre Dom Pedro, sobre sua humildade e sua dimensão profética em favor dos povos indígenas e dos despossuídos da Amazônia”.

Conforme Ademir, Casaldáliga era um ilustre membro da tríade de três bispos “companheiros de luta”. Os outros eram Dom Jorge Maskel, na época bispo de Itacoatiara e Dom Tomás Balduíno, que era presidente da Comissão Pastoral da Terra. “Esses três bispos eram fundamentais para a luta do movimento social da Igreja Católica nos anos 70”. 

Teologia da Libertação

Em 1978, ano em que a Teologia da Libertação atingia o seu auge e o movimento sócio-político de Dom Pedro, impulsionado pelas Comunidades Eclesiais de Base, assombrava os generais da Ditadura Verde-Oliva, acontecia a morte do Papa Paulo VI, precisamente em 6 de agosto. Seu sucessor, João Paulo I, demorou apenas um mês no pontificado, tendo falecido em circunstâncias polêmicas depois de ter anunciado rígidas medidas de combate a corrupção envolvendo o Banco do Vaticano.

João Paulo II, que substituiu Albino Luciani, mudou os rumos da Igreja e, seguindo a cartilha norte-americana de guerra ao socialismo e, contracenando com os generais ditadores da América Latina, decretou o fim da Teologia da Libertação, contestando duramente a corrente teológica cristã que defendia os princípios do Concílio Vaticano II e a Conferência de Medelin, decretando o isolamento de todas as lideranças religiosas que professavam a opção da Igreja pelos pobres.

Décadas depois, aos 92 anos, Dom Pedro Casaldáliga deixou o mundo em Batatais, São Paulo, sob os cuidados da Congregação Claretiana, da qual fazia parte. Ele só aceitou a remoção por conta de sua saúde extremamente precária. Rigorosamente viveu em São Félix do Araguaia, ao lado dos pobres por quem fez opção de vida, combatendo as desigualdades e a violência no campo até hoje fomentadas pelo latifúndio feroz e pelo capital sem pátria.

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