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    GESTÃO


    ‘Cada governante deixa um legado’

    Os Estados Unidos da América são um país muito importante para ser governado por uma pessoa qualquer, exige aptidão para diplomacia, exige espírito público e transigência com os adversários

    Escrito por Arthur Virgílio Neto no dia 11 de janeiro de 2021 - 18:05

     

    | Foto: Divulgação


    Cada governante deixa um legado. Uns constroem a paz, constroem prosperidade, pensam em união e lutam pelo entendimento, inclusive com seus adversários. Esses são os democratas, são os que ficam bem posicionados na história. Outros pregam a violência, o ódio e a separação entre eles e nós. São os autoritários, que costumam chamar de eles aqueles que não participam de suas ideias, não raro exóticas e inapropriadas, não raro indecorosas.

    Donald Trump não realizou obra nenhuma durante seu período de presidente americano, nem mesmo a obra do ódio, que seria o muro a separar americanos de mexicanos. Passou em branco nesse campo. O que houve na economia, de bom ou ruim, em nada dependeu dele. A política de juros não é ele quem comandava e também passou em branco nessa área. Mas, tinha que marcar o final.

     Trump ensaiou o início do seu legado, o introito, com aquela estapafúrdia tentativa de declarar fraude eleitoral e, por essa via, buscar inviabilizar ou diminuir a conquista do presidente Joe Biden. Não deu certo! Foi repudiado em todas as instâncias do judiciário e pela maioria da opinião pública. Mas, ainda não era esse o seu legado. Na cabeça dele, o seu ‘grand finale’ era a invasão do Capitólio. Ele é o mentor, ainda que não tenha dado ordem para isso, encorajou desordeiros para que fizessem algo imperdoável, desrespeitando a instituição do povo, da liberdade e da democracia.

     No fundo, Freud pode muito bem explicar isso. Hitler tocou fogo no Reichstag, Mussoline trabalhou o ódio durante todo o período de seu consulado ditatorial e Trump conseguiu a façanha de invadir o parlamento, que é o principal esteio de um regime efetivamente democrático. Ele plantou, durante todo o seu tempo de governo, esse desejo de separar pessoas de pessoas, de evitar a união, o sentimento do racismo, do preconceito e da grosseira.

    Faço uma comparação entre ele e o ex-vice-presidente Albert Gore, que com fundadas razões poderia ter ido à Justiça contra George Walker Bush, mas não o fez. Preferiu não levar uma eleição que, talvez, tenha vencido legitimamente para não arranhar as instituições do seu país, para não contribuir com a divisão do seu país.

    As palavras de Gore o colocaram na história, assim como as atitudes de Trump o colocam na história. O primeiro, de maneira maiúscula, como defensor do meio ambiente, pessoa séria. O outro, de maneira anã, porque não tem dimensão para ser como Theodore Roosevelt, John Kennedy, Barack Obama ou Bill Clinton e tantos outros presidentes que essa grande nação já teve ao longo de sua história democrática.

    Que bom que esse tempo obscuro está passando. Os Estados Unidos da América são um país muito importante para ser governado por uma pessoa qualquer, exige aptidão para diplomacia, decisão na hora da tomada de posições militares, exige espírito público e transigência com os adversários, exige educação e polidez. Tudo o que Donald Trump não tinha. Lamento por esse tempo, como alguém que admira os EUA, uma potência extraordinária e que construiu uma democracia tão forte. Torço para que os dias corram rápido, de modo que Biden possa dizer ao que veio e possa deixar para trás o período de trevas de Donald Trump.