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    Religião


    Habitavit in nobis; e habitou entre nós

    O Filho de Deus que se fez carne humana no seio da Virgem Maria, armou a sua tenda entre nós, se fez nosso filho. Mas, na realidade, não veio habitar entre nós, mas em nós, in nobis

    Escrito por Dom Leonardo Ulrich Steiner no dia 07 de março de 2021 - 23:59

     

    | Foto: Divulgação

    por Dom Leonardo Ulrich Steiner

    Habitavit in nobis; E habitou entre nós! Na realidade habitou em nós. O Filho de Deus que se fez carne humana no seio da Virgem Maria, armou a sua tenda entre nós, se fez nosso filho. Mas, na realidade, não veio habitar entre nós, mas em nós, in nobis! Nele todos nos tornamos filhos e filhas, pois a sua morte e ressurreição nos plenificam.

    Na quinta-feira nos despedimos de Dom Sergio Castriani, nosso irmão e pai. Irmão porque conosco em Cristo Jesus. Pai porque pastor, pai porque paternal, quase maternal. Pai porque não suportava deixar ninguém sem casa, nem guarida. Irmão porque próximo de todos, especialmente dos pequenos e desprotegidos, dos que vivem nas nossas ruas, dos imigrantes, dos pobres. Com o fio de voz que lhe restava, desejava recordar-nos onde, como e com quem deveríamos estar. Pai, pois bom pastor magnânimo, dedicado, afetuoso, atencioso, suave, cuidando de todos como filhos e filhas. O seu senso paternal até, às vezes, nos incomodava.

    O lema episcopal “habitou entre nós” deu sentido a sua vida e ministério. Foi enviado para a Amazônia: Tefé e depois Manaus. Não veio passear, não veio olhar, não foi turista, missionário de um dia, de alguns anos. Aqui permaneceu, aqui habitou; fez da Amazônia o ser em casa. Veio para ficar, não como alguém que toma posse, mas como aquele que vem para experimentar com seu povo a fé, para partilhar os dias e as horas, para levar esperança, para consolar, para apreender, para partilhar, para compartilhar, para clamar pela justiça, para despertar para a ética. Coração manso com gestos de profeta. Era escuta que discernia e propunha caminhos. Veio habitar entre nós.

    Esse habitar, o modo da habitação, certamente lhe foi concedido pelo carisma espiritano: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque Ele me ungiu. Enviou-me a anunciar a Boa Nova aos pobres…” (Lc 4,18). Com a força do Espírito tinha preferência para estar entre os pobres, com os ribeirinhos, com os indígenas, sem deixar de alentar os que mais tem. Deixou-se guiar pelo Espírito quase como o barco agitado pelas ondas. Como bom espiritano, viveu pobre, despojado, desapegado. Não teve ostentação, mas simplicidade. Às vezes parecia ingenuidade, mas era a sabedoria do Espírito, a singeleza e esperteza da pomba.

    Não apenas habitou entre nós, habitou em nós. Nos atraia com o seu modo, a sua espiritualidade, a sua palavra, o seu silêncio; a sua dor, o seu sofrer, sem queixumes, mas sempre no desejo de servir, permanece em nós e animará a vida da nossa Igreja. Um homem que no auge de sua vida sente diminuírem as forças, desaparecer a voz, cercear os passos, mas permaneceu no coração desejoso de sair, sair e sair..., encontrar, acalentar, animar.

    Permanecerá entre nós e em nós pela palavra. Palavra fala e escrita. A sua pena era ágil, sábia, contundente, perspicaz, animadora. Como apreciávamos os seus escritos inspirados pelo Espírito, pois sabia ler a realidade, social, política, religiosa. Sabia discernir os caminhos do Espírito. Escreveu até o fim. As palavras que perderam o som, tornaram-se audíveis no seu semblante, na sua receptividade, no desejo de servir.

    A graça de Deus em mim não foi em vão. Trabalhei mais que todos; não eu, mas a graça de Deus que vive em mim. (cf. 1Cor 15,9). Espiritano, sem fronteiras, tendo como fronteira o amor. Um amor generoso, gratuito, aquele do Espírito Santo.

    São Paulo nos ensina: “Quem nos separará do amor de Cristo? Tribulação, angústia, perseguição, fome, nudez, perigo, espada? (...) em tudo somos mais que vencedores, graças àquele que nos amou. Tenho certeza de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem o presente, nem o futuro, nem as potestades, nem altura, nem a profundeza, nem outra criatura qualquer será capaz de nos separar do amor de Deus que está em Cristo Jesus, nosso Senhor.” (Rm 8.31-39) E nós acrescentaríamos, nem o Parkinson o separou, mas o fez ainda mais íntimo de Cristo e do seu povo.

    Tudo agora na Trindade Santa, tudo na transfiguração. Nada mais figuras, agora realidade dos eleitos. Hoje temos como obrigação agradecer a Deus por nos ter dado um irmão, pai e pastor que habita em nós.

    *Extrato da Homilia na Missa de corpo presente de Dom Sergio Eduardo Castriani

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