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    Esporte e vida


    Aprender com as derrotas – por que é tão difícil aceitar um revés?

    Não conseguir algo imediato é sinônimo de fracasso?

    Escrito por Ricardo Onety no dia 04 de maio de 2021 - 08:00

     

    No sistema econômico capitalista em que a profissionalização e o dinheiro norteiam os jogos de futebol precisa-se urgentemente resgatar o espírito Fair Play
    No sistema econômico capitalista em que a profissionalização e o dinheiro norteiam os jogos de futebol precisa-se urgentemente resgatar o espírito Fair Play | Foto: Divulgação


    Na realidade frenética dos dias de hoje, em que a competição e a busca por excelência, ou aprovação, começa cada vez mais cedo por vezes as pessoas não estão preparadas para lidar com falhas ou resultados inesperados e, erradamente, acabam por descartar qualquer aprendizado que dessas experiências possam surgir. Não conseguir algo imediato é sinônimo de fracasso?

    Saber admitir uma derrota é tão importante como lidar com a glória da vitória. Nestas linhas, trago experiências de equipes de futebol, piloto de Fórmula 1, maratonista, jogador-treinador e seus diferentes comportamentos perante a comunidade esportiva após vivenciarem essas situações adversas.

    No sistema econômico capitalista em que a profissionalização e o dinheiro norteiam os jogos de futebol precisa-se urgentemente resgatar o espírito Fair Play, que significa “jogo limpo”, difundindo por Pierre de Coubentin. Na prática refere-se honestidade na execução da tarefa e respeito ao adversário e, consequentemente, aos seus admiradores.

    Ao analisar algumas finais de campeonatos de futebol mundo afora, observei a maneira como alguns jogadores lidaram com a derrota, com o segundo lugar. Cito a decisão realizada aqui no Brasil das copas sul-americana, em 2017 e na recente final da supercopa em 2021.

    A postura de alguns jogadores do time perdedor por ocasião da premiação deve ser repensada. Trataram os organizadores e a equipe de premiação com rispidez, desrespeito, menosprezo e, consequentemente, o telespectador, alguns não aceitaram ser premiados, outros retiraram a medalha de forma brusca. Não há demérito algum em ser o segundo lugar, em ser coadjuvante naquela premiação. Que exemplo se passa as crianças e aos jovens fãs torcedores? 

    Se você foi um dos que “zoaram” com o piloto de Fórmula 1, Rubens Barichello, veja seus números na Ferrari: Segundo a imprensa Italiana seu contrato foi de US$ 10 milhões por ano; Sagrou-se duas vezes vice-campeão mundial; venceu 11 Grandes Prêmios (02 pela Brawn e 09 Ferrari).

    Em 2002 recebeu ordem da equipe para deixar o piloto nº 01 da escuderia passar, envergonhado com a possível repercussão negativa, Schumaker (que aconteça um milagre para sua cura), entregou o troféu a Barrichello e o colocou no mais alto lugar do pódio, após este acontecimento as conversas passaram a ser transmitidas ao vivo.

    Apesar de não ter os melhores engenheiros, ser o número dois da escuderia e, ainda sofrer com as “brincadeiras” em seu próprio país (se fosse você?), mostrou uma enorme força interior. Rubinho nunca desistiu é um dos pilotos com mais corridas na F1, em 2021, aos 48 anos correrá a Stock Car pela Full Time Sports. Nada mal para um piloto!

    Como esquecer o sorriso e o aviãozinho de nosso maratonista Vanderlei Cordeiro de Lima nas Olimpíadas de 2004? Liderava a corrida e foi surpreendido por um louco-torcedor que o segurou, perdeu a liderança, continuou e ao adentar no estádio Panathinaikos, em Atenas, foi aplaudido de pé por todos os torcedores chegando ao terceiro lugar ao pódio.

     


    Seu feito foi reconhecido pelo Comitê Olímpico Internacional (COI), concedendo-lhe a maior honraria: A medalha de Pierre de Coubertin, idealizador das Olimpíadas Modernas. Concedida somente a quem demonstre alto grau de esportividade e espírito olímpico exemplar diante de situações inusitadas. Vanderlei não ganhou, mas alcançou feito raro, essa medalha que premia o cunho humanitário-esportivo realizado.

    De coadjuvante há um dos maiores e mais longevos atletas como jogador e treinador de futebol de todos os tempos, seu nome: Mário Jorge Lobo Zagallo, em uma seleção que possuía Vavá, Pelé e Garrincha surge um ponta esquerda diferente. O primeiro a ajudar na recomposição do meio campo, o Brasil jogava com o esquema tático 4-2-4 e com Zagalo passava rapidamente para o 4-3-3 povoando com um jogador a mais seu meio campo, tornado sua defesa mais sólida, uma inovação à época.

    Participou de cinco decisões de Copa do Mundo, ganhou três, Zagallo passa a ser o coadjuvante revolucionário. Aos que ainda não o veem como multicampeão, tiveram que engolir o velho lobo, hoje aos 90 anos, “Zagallo-Vacina” (13 letras) é um belo exemplo de resiliência frente as derrotas.

    Há uma enorme diferença entre derrota e fracasso. Ser derrotado é um resultado completamente normal, natural; fracasso é uma atitude. “Pessoas com enormes dificuldades para admitir uma derrota possui alguns aspectos que precisam ser resolvidos: Tolerância à Frustação, Falsa Autoestima e Sistemas de Valores” (amentemaravilhosa.com.br). Este último a meu ver é a grande neblina que turva essa inquietação, além de exagerada importância dada ao sucesso.

     


    Vê-se que, em geral, pessoas que possuem dificuldades para aceitar derrotas geralmente experimentam um sentimento falso de superioridade. Por isso, quando as coisas não seguem como o planejado essa narrativa que constroem cai por terra. A derrota é uma importante maneira de tornar-se mais forte -parece um paradoxo- e preparado para conquistar aquilo que tanto deseja, de observar as falhas, de empenhar-se ainda mais para poder chegar e dizer: felizmente eu tentei de novo.

    “A conduta mais equilibrada e inteligente é firmar um acordo de paz com os maus resultados, afinal irão ocorrer e são nossos” (Frei Aldo)   

    “Pouco se aprende com a vitória, mas muito com a derrota” (Provérbio Japonês)  


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