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    Esporte


    Diretamente do Monte Olimpo: Sandro Viana, muito mais que um atleta

    Entrevistamos o atleta que foi medalha de bronze nos Jogos Olímpicos de Pequim 2008 e está em contagem regressiva para os Jogos Paralímpicos de Tóquio 2020

    Escrito por Ricardo Onety no dia 28 de junho de 2021 - 20:59

     

    Nosso entrevistado não é nenhum semideus, nem precisou realizar 12 trabalhos, mas pode ser considerado o maior e mais longevo atleta do atletismo amazonense
    Nosso entrevistado não é nenhum semideus, nem precisou realizar 12 trabalhos, mas pode ser considerado o maior e mais longevo atleta do atletismo amazonense | Foto: Divulgação


    A história humana é contada conforme o lugar, o espaço e o tempo em que é vivida. A Grécia berço do saber, da filosofia, nos enriquece como belas histórias de deuses e semideuses, sua coragem, seus feitos, suas realizações.

    Todos conhecem os “Dozes trabalhos de Hércules”, penitência imposta por seu irmão Euristeu. Levou 12 longos anos para realizar sua missão com êxito. Tempo semelhante para a formação de atleta de primeira linha a nível mundial para chegar ao seu ápice.

      Nossa Amazônia também é rica com sua magia, lendas, mitos e tradições tão bem decantadas pelos guardiões do folclore, o povo de Parintins. Nosso entrevistado não é nenhum semideus, nem precisou realizar 12 trabalhos, mas pode ser considerado o maior e mais longevo atleta do atletismo amazonense, nosso Ajuricaba, Sandro Viana. Medalha de bronze nos Jogos Olímpicos de Pequim 2008 e, em contagem regressiva começa a apertar os pregos de suas sapatilhas rumo os Jogos Paralímpicos de Tóquio 2020. Será um feito e tanto!  


    Especialista em provas de velocidade, Sandro aceitou nosso convite em menos de 10s, fez um sprint e nos disse: “ É sempre bom falar de esportes e, principalmente, do atletismo, ele foi responsável por transformar minha vida”. Em forma de entrevista, respondeu com muita segurança, tranquilidade e entusiasmo algumas perguntas, que passamos a dividi-las com vocês:

    Quais seus primeiros incentivadores ou referências no esporte?

    Sempre fui incentivado pela família e por professores os quais me impulsionavam rumo a busca de novos conhecimentos, novas práticas. Sou filho de uma professora e mãe solteira, lutamos junto com meu irmão, as dificuldades que passamos foram transformadas em aprendizagem. Ela é meu maior exemplo, minha maior luz, orgulho e inspiração em todos os momentos. Quando olhamos pelo retrovisor da vida, percebemos quanto ela foi rica e quanto mudamos socialmente.

    Desde de novo era apaixonado por esportes, cresci assistindo Ayrton Senna ser tricampeão de Fórmula Um, a seleção brasileira de futebol ser Tetra Campeã em 1994, estes foram alguns exemplos nos quais me espelhava. Através de suas trajetórias, estes campeões serviram de referência para minha formação esportiva.    

    Sabemos que a vida de atleta não é fácil, nos conte um pouco sobre sua trajetória.

    Meu maior sonho era praticar esporte pelo esporte! Sou extremamente realizado por ter tido a oportunidade de praticar esporte até os dias atuais, jamais imaginei quando criança chegar tão longe. Minha carreira é longa, já se passaram mais de duas décadas, além de manter a boa forma. Tive poucas lesões e manter tudo isso por muito tempo não é fácil. Viver do esporte em alto rendimento e manter bom nível é muito suor!

    Faço o meu melhor todo dia! Elegi este lema há alguns anos e tento cumprir esta meta diária, não penso no que vai acontecer amanhã, ou depois, se vou ganhar ou perder, se vou ser campeão ou não. Vivo o hoje!

    Você se sente à vontade em falar sobre a medalha tardia de bronze Pequim 2008?

    É um assunto que me causa muita dor! Muitos podem imaginar que 11 anos após a Olímpiada de 2008 a medalha de Bronze Olímpica chegou e que está tudo bem. Não é bem assim! Levar este tempo todo para receber uma medalha que deveria ter recebido imediatamente após a prova e ficar entre os três melhores do mundo não é fácil de esquecer.

    O sofrimento foi muito duro, mas consegui sobreviver e hoje estou aqui. Aprendi a olhar sempre para frente e de cabeça erguida, a justiça foi feita é uma “justiça planetária”. Onde a batalha contra o doping foi vencida, dando valor ao esporte, ao jogo limpo e ao merecimento, sem interferências artificiais e ilegais. É uma sensação de paz e liberdade, de alívio! Com a certeza que fiz a coisa certa e não me corrompi no meio do caminho.  

    (Sandro teve a medalha de bronze na Olimpíadas de Pequim 2008 confirmada após Tribunal Arbitral do esporte negar o último recurso do Jamaicano Nesta Carter, flagrado no doping. Depois de 11 anos a equipe brasileira recebeu o bronze em Lausanne, Suiça em 31/10/2019).

    Como foi sua transição para o atletismo paraolímpico?

    Foi uma surpresa para mim! Eu me aposentei do esporte olímpico em meados de 2018 e 2019, já estava com o chinelinho, relaxando. Recebi um convite de um empresário do esporte a pedido do próprio comitê Paralímpico, que procurava um atleta. Achei muito louvável e inteligente o convite, estive com eles e ficaram até surpreso com meu aceite, afinal sou um Medalhista Olímpico.

     

    | Foto: Reprodução


    Perguntaram se eu realmente aceitava. Voltei para casa e refleti: Uma coisa é você acordar as 06:00 e ir aos treinos em busca de seus sonhos, outra coisa é você levantar com a mesma disposição para correr pelo sonho do próximo. Isto foi o que me motivou a dizer sim para eles, saber que todo dia dou meu melhor, há 03 anos luto, suo, sofro para correr atrás do sonho do próximo, considero oportunidade única, rara. Sou atleta-guia (categoria que passou a receber  medalha em 2011) e não esperava isso da vida, considero um presente de DEUS!  

    Em que modalidade você participará?

    A Paralímpiada é diferente da Olímpiada, a etapa classificatória depende de uma série de cálculos, vamos esperar até o final do mês. Eu treinei com o atleta Kesley Teodoro, categoria T12 e outros. Kesley é atleta de Rondônia e da seleção permanente, basicamente estou à disposição do Comitê Paralímpico, posso estar guiando qualquer atleta em provas de velocidade. O Comitê decide quantos atletas irão e respectivo número de atletas guia, agora é aguardar para saber quantos serão convocados. Até aqui fizemos nossa parte e meu sonho é ver o atleta classificado, pois minha função, hoje, é correr atrás do sonho do próximo. 

    Parece clichê, mas o que representa o esporte paraolímpico para você?

    Algo fantástico! Fico até arrepiado de pensar e falar, é uma experiência maravilhosa e difícil de explicar, vou tentar descrever em poucas palavras: vivi em três anos no atletismo Pralímpico o que não vivi em 18 no Olímpico, é sensacional, mágico. Cada atleta é uma história fantástica de superação incrível, um livro que precisa ser contado, conviver com eles é beber da fonte da juventude. Fazem coisas absurdas, extraordinárias, um trabalho lindo! O Centro de Treinamento Paralímpico Brasileiro (Ctpb) é a melhor estrutura esportiva do Brasil, possui ótima filosofia de trabalho, referência mundial e orgulho nosso.

    Gostaria de agradecer a você, Sandro, por compartilhar muito além da sua vida como esportista, dividiste conosco suas dificuldades, trajetória e sonhos, sempre com muita leveza. Ouso passar o bastão para você fechar o revezamento 4 x 100 e cruzar mais uma vez a linha de chegada. Suas considerações finais.

    Obrigado! Eu torço que essa bagagem que eu tenho se transforme em sementes, que sejam plantadas no Amazonas e frutifiquem. Fico feliz pelas palavras, gestos e carinho que recebo seja em Manaus ou no interior, é uma verdadeira realização, pois lutei muito para colocar a bandeira do Amazonas no lugar mais alto do Pódio e acredito que entenderam minha mensagem e a refaço novamente: “Nós, amazonenses, somos tão capazes como qualquer povo do mundo”. Fica aqui minha gratidão a todos os Amazonenses que veem em mim um filho, um irmão, obrigado por tudo!                         

    Finalizo citando, e homenageando, os artistas de Parintins com a música Festa da Liberdade: “ Sem Esporte, sem Cultura o mundo é terra sem nada! ” Que venha os Jogos Olímpicos e Paralímpico Tóquio 2020. Viva o Esporte! Viva o Folclore! Viva a Cultura Popular! Viva Parintins!  

    Sandro,  o Amazonas torce por você!


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