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    Paralimpíadas


    Diálogo entre os Povos

    Leia o artigo de opinião de Ricardo Onety

    Escrito por Ricardo Onety no dia 31 de agosto de 2021 - 10:54

     

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    Leia o artigo | Foto: Reprodução

    Nobres amigos, como temos observado, a dinâmica da relação internacional entre os países mudou significativamente, assim como, também, mudou a forma com que os indivíduos das mais diferentes nações se relacionam entre si.

    Durante os últimos anos, a velocidade da informação fez com que distâncias fossem diminuídas, barreiras superadas e trouxe para o centro do debate mundial questões que antes eram apenas locais, como exemplo, lembremos da preocupação com os direitos das mulheres afegãs, após a tomada do poder pelo grupo Talibã. Neste contexto, começamos a enxergar a importância da universalidade para a evolução da humanidade.

    Caro leitor, este intenso processo de transformação, por óbvio, também causa conflitos seríssimos, de forma que o principal desafio dos próximos anos será fazer um diálogo sobre como conviver com o diferente, respeitando as mais diversas culturas. 

    Partindo destas premissas busquei respostas e encontrei bons exemplos recentemente na ação do Comitê Olímpico Internacional (COI) e Comitê Paralímpico Internacional (IPC), durante os jogos Tóquio 2020. Em ambas competições os atletas puderam competir livremente amparados pelos comitês organizadores.

    As críticas também surgiram em vários grupos que se posicionaram contra a participação de atletas, representando seus países que estavam punidos ou banidos. É justo que participem? Seria um estimulo a impunidade ou uma oportunidade para que esses países reflitam suas ações de Estado?

    Para nos ajudar a entender a participação destes atletas e a importância do diálogo entre nações, convidei o professor e cientista político Breno Messias Leite, que prontamente aceitou nosso convite para juntos dirimir dúvidas comuns sobre a importância do diálogo e diplomacia entre nações divergentes. 

    Professor, o mundo está mais polarizado ou sempre foi assim?

    O sistema internacional de Estados paira sobre uma ordem estruturalmente anárquica, o que significa dizer que o mundo oscila entre a paz e a guerra. A ausência de um governo mundial, capaz de controlar todas as nações da terra, faz com que o mundo assimile processos de cooperação e, em outros momentos, tensões, disrupturas e conflitos armados. 

    O COI e o IPC permitem que atletas participem dos jogos, mesmo que seu país tenha sido banido por sérias violações, porém, sem poder ter seu hino tocado e bandeira hasteada. Utilizam os símbolos dos comitês (bandeira e hino) caso cheguem ao pódio.  Você acredita que a política destes comitês é acertada em não excluir nenhum atleta? Ao participar não seria uma punição branda ao país que ele representa?

    O modelo ONU, organizado em torno da Carta de São Francisco, pretende adotar princípios de incorporação e não-exclusão de nações. Ou seja, é uma clara aposta na diplomacia e resolução pacífica de controvérsias. Todavia, a relação entre países e seus cidadãos nem sempre é amistosa e equânime. Muitos indivíduos têm os seus direitos violados e, por isso, precisam sair dos seus territórios de origem. Os problemas políticos não podem interferir na vida esportiva, sobretudo dos atletas de alta performance. Estes órgãos priorizam a qualidade desportiva e a plena capacidade dos atletas de exercerem as suas atividades. É por isso que muitas vezes países, mesmo afetados por conflitos, permitem que seus atletas participem de eventos internacionais.

    Como conviver no mesmo espaço sem crise moral ou de consciência com países que não respeitam os direitos humanos, sendo tão diferentes em termos de liberdades e garantias sociais? Os jogos contribuem para esse diálogo? 

    Os jogos olímpicos, desde a antiguidade, já enfrentavam a triste realidade da guerra. Foi nesse período que surgiu o termo Paz Olímpica (suspensão temporária da guerra para a prática esportiva). Se a guerra faz de tudo para aniquilar o outro, o esporte busca a redenção por meio do respeito, de um rígido código moral de deferência recíproca entre os competidores. 

    Você vê restrição ou apoia o crescente ativismo político nos esportes? É local e momento para fazê-lo?

    Creio que não seja adequado utilizar toda a infraestrutura esportiva para manifestação de causas políticas. Em respeito à audiência, aos organizadores e ao adversário, acredito que os atletas devam manter a cordialidade e a reserva.

    Na semana passada o mundo assistiu com perplexidade a volta ao poder do Talibã no Afeganistão (foi marcante sua bandeira no desfile de abertura dos jogos Paralímpicos). Aqui próximo de nós vimos o povo venezuelano (ganharam 1 ouro e 3 pratas nos jogos Olímpicos), em desespero semelhante. Como devemos agir como sociedade além da solidariedade, frente a dura realidade que assola estas nações.

    Mesmo com todos os nossos problemas domésticos, o Brasil reconhece os direitos humanos como um valor universal. Afinal, o país é signatário de praticamente todos os tratados sobre o tema. E por ser participe da comunidade internacional de países democráticos e defensores dos direitos humanos, o país não pode agir unilateralmente. O Brasil acredita, e isso está expresso na nossa carta magna, na solução pacífica dos conflitos, vale dizer, na ação multilateral com o respaldo da comunidade internacional. Cabe ao Brasil, por mais difícil que seja, respeitar a autodeterminação dos povos e promover as boas práticas dos direitos humanos, concedendo asilo e ajuda internacional.

    Agradeço ao professor Breno pela entrevista e gostaria de dizer que o espaço está aberto para outras discussões de interesse da sociedade. 

    Finalizo parafraseando um ditado da sabedoria popular “Jamais haverá mundo novo, se continuarmos a copiar os erros dos anos velhos”. Todos sonham com um mundo livre, fraterno e mais igualitário. Por fim deixo uma dica de Massulo Corrêa – “Para haver diálogo é preciso certa disposição de ânimo e um certo desejo de escuta”.

    Você topa?

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