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    Artigo de Opinião


    A educação da sensibilidade

    Observações sobre uma educação inclusiva

    Escrito por Ricardo Onety no dia 06 de setembro de 2021 - 16:29

     

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    Leia o artigo | Foto: Reprodução

    Caro leitores! Ao iniciar a crônica semanal tenho por hábito tentar ser o mais contemporâneo possível. O mister não é fácil, pois, quase tudo instantaneamente é dito e postado nos mais diversos canais digitais, na velocidade do som. Vejamos!

    Parece que foi ontem, em meados de 2010 e 2011 vimos ao vivo algumas revoltas populares no Oriente Médio e parte da África. As revoltas começaram na Tunísia e se espalharam pela região, assistimos com perplexidade a tentativa de milhares de refugiados tentando cruzar o mediterrâneo em barcos, boiais improvisadas completamente lotadas, vários naufrágios e uma crise humanitária sem precedentes transmitida ao vivo.

    Acompanhamos em foco o mais significativo ataque terrorista do século XXI, o atentado das torres gêmeas onde dois aviões sequestrados acertaram em cheio os edifícios do Word Trade Center, em Nova York (lá se vão 20 anos).

      Assistimos nossos vizinhos venezuelanos cruzarem a fronteira em total desespero. O pavor do povo afegão, com a volta do grupo Talibã e a invasão por quadrilha de assaltantes fortemente armados em Araçatuba-SP em agosto recente, cenas impressionantes. São fotonovelas de péssimo gosto transmitida online.  

    A meu ver há algo muito estranho, pois, as pessoas parecem se acostumar com essas cenas violentas que cada vez menos choca, surpreende, e aparentemente causam indiferenças em muitos. Onde a violência começa? As pessoas estão mais insensíveis ou o mundo estão tornando-as assim? Em que direção devemos olhar?

    Nãos sei, acredito que não encontraremos respostas, mais, ao folhear um dos livros de cabeceira achei muito atual a reflexão de dois mestres apaixonados pela educação, são eles: Celso Antunes e Rubem Alves – Uma conversa sobre educação.

    A educação da sensibilidade

    Rubem- A Unesco preparou um relatório sobre os pilares da educação do século XXI:  Aprender a aprender, aprender a fazer, aprender a conviver e aprender a ser. Para mim, na questão do conviver, do “viver com” é que está o início do sentimento de ética, porque a ética surge quando sou capaz de pensar o sentimento do outro.

    Um dia, lá em casa, minha neta de 11 anos estava à mesa, almoçando. Repentinamente, ela se levantou, foi para a sala e começou a chorar; aliás, já tinha saído da mesa chorando. Aí eu me levantei e fui conversar com ela. Perguntei-lhe o que estava acontecendo. Ela respondeu: “vô, não posso ver uma pessoa sofrendo sem que meu coração fique junto com ela”.

    Fiquei assombrado com a capacidade que ela tinha de perceber... “meu coração está junto com ela. ” Essa capacidade de se colocar no lugar do outro é a base de tudo: a base da civilização, da sociedade, a base da ética, da bondade. Essa é uma questão que não é bem tratada nas nossas escolas. As nossas escolas não trabalham a sensibilidade em relação às outras pessoas.

    Uma vez, numa noite chuvosa, eu estava voltando para casa por volta das dez da noite, fazia frio.... Na esquina vazia havia duas crianças, um menino e uma menina, pedindo coisas. Olhei para as duas crianças, e o meu coração ficou junto do coração delas. Eu deveria ter pegado as duas e levado para minha casa, mas não fiz isso! Fui para casa com aquela dor....

      Não sei, honestamente, se as escolas têm pensado sobre essa questão, se têm se dedicado a ela ou com esse imperativo de sofrer ao pensar no sofrimento da outra pessoa.  

    Celso – concordo inteiramente, nem poderia ser diferente. E parto de um principio muito simples: o sentimento de amizade em relação aos colegas da classe é inato? Não, não é.

    Ninguém nasce pré-disposto a fazer amizade com esta ou aquela pessoa. Se não é inato, é aprendido. Se é aprendido, deveria ser aprendido na família e na escola. Infelizmente, o papel da família hoje está se transfigurando muito. A emancipação da mulher geralmente afastou-a do crescimento dos filhos. Hoje ela trabalha tanto quanto o marido. Então, de repente, sobra para escola um papel que deveria ser dos dois...  (Fim)

    Esta passagem encontrada neste livreto, me remete a algo que aconteceu comigo, sei que são dois mestres generosos que irão ouvir este aprendiz, permissão para contar-lhes algo que vivi recentemente.  

    Professores! Nossas esquinas estão cheias de famílias pedintes. Outro dia estava em um shopping center aqui de Manaus, avistei uma criança vendendo bala na praça de alimentação, percebi que vinha em minha direção e quase instantaneamente, retirei alguns trocados da carteira e dei a ela. Esta ação automática é lamentável.

    Mais meu olhar não saiu daquela criança, ao abordar um cliente que estava almoçando, pensei qual reação iria tomar, fiquei maravilhado com o belo exemplo deste senhor! Fez uma pausa em sua refeição, cobrindo-a com vários guardanapos de papel, junto com a criança se dirigiram ao balcão do restaurante e ofereceu-lhe o cardápio, após receber sua bandeja sentaram frente a frente e juntos almoçaram.

    Professores Rubens e Celso, confesso que também fui para casa com esse sentimento, com aquela dor...

    Não podemos fugir dos fatos que estão em nosso cotidiano, nos sinais, nas portas do supermercado, nas feiras, ao sermos abordados tenhamos cuidado com a indiferença, o desprezo. São nossos irmãos que não gostariam de estar ali. Quem gostaria?

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