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    Opinião


    Brasil x Uruguai – ruídos na arena da Amazônia

    A belíssima Arena da Amazônia estava pronta para receber este grande espetáculo e o elenco estava recheado de craques talentosos

    Escrito por Ricardo Onety no dia 23 de outubro de 2021 - 09:55

     

    | Foto: Reprodução

    Olá boleiros!    

    Após quase dois anos sem público em jogos da seleção brasileira devido a pandemia, Manaus recebeu a partida entre Brasil e Uruguai pela eliminatória sul-americana, rumo a copa do mundo no Qatar 2022. Um público presente de 12.538, foi um verdadeiro teste para a volta dos grandes espetáculos culturais e esportivos em nossa cidade que completará 352 anos, em 24 de outubro. Um presente antecipado para os manauaras!

    As duas seleções possuem juntas 07 títulos mundiais. O Uruguai foi o campeão da primeira copa do mundo em 1932 e em 1950. O Brasil é pentacampeão venceu as copas de 58, 62, 70, 92 e 2002. A belíssima Arena da Amazônia estava pronta para receber este grande espetáculo, o elenco estava recheado de craques talentosos, mas, mesmo assim a imprensa e torcedores estavam céticos à espera de um bom futebol, principalmente da seleção líder das eliminatórias contra a forte e aguerrida “seleção cisplatina”.

    Foi uma bela apresentação, os artistas brasileiros ganharam o “Oscar de melhor atuação”. Os boleiros sabem que “cada jogo é um jogo e, pode não ocorrer na partida seguinte”, é normal. Porém, alguns pessimistas disseram - “A equipe do Uruguai é velha, lenta e não suportou o calor”, por isso a seleção ganhou fácil. Eu discordo! Foi um belo espetáculo proposto por nossa seleção, onde todos os jogadores atuaram e encontraram raro ritmo coletivo. A seleção estava devendo!

      Não vou entrar nesta bola dividida, fica para os especialistas, quero apenas dizer: “O NEYMAR é um gênio da bola!” Uma mistura de Tom Jobim, com Zeca Pagodinho, uma das matérias-primas mais raras de se encontrar no planeta futebol e, é nosso!  

    Nunca presenciei de pertinho (na tv é diferente), um atleta com tamanha habilidade psicomotora. A bola é um implemento que já incorporado ao seu corpo, percebi uma rapidez de raciocínio e tomadas de decisão incrível. Sua visão periférica e ampla é extremamente desenvolvida; sua velocidade na condução da bola, seus dribles, equilíbrio e outros adjetivos, nos dá impressão que jogar futebol é simples, é fácil.

    Venho propor uma tabelinha com vocês, não sobre futebol, mas, partilhar reações e ruídos dos torcedores, neste jogo inesquecível do dia 14.10.2021. Em meio a tanto barulho, euforia e entusiasmo, procurei histórias que rolavam durante a partida. Posso ter perdido alguns lances em campo, mas, ao meu redor consegui captar áudios e vídeos à espera de pérolas que saiam as dezenas. Espero que ao lerem estas linhas, o resultado final não seja zero a zero.

    - A primeira que compartilho já na arquibancada. Com tantos lugares disponível, quis o destino que sentasse à frente de um amigo dos tempos do colégio Dom Bosco, colocamos o papo quase que em dia. O entrosamento com as pessoas em volta era inevitável, afinal, além da reclusão por quase dois anos, devemos ser gentis com todos.

    - Na primeira cadeira estava um senhor por nome “Braga” que veio de Maceió - Alagoas de carro até Porto Velho, depois um aéreo até Manaus, com a noiva. Perguntamos por ela e ele disse: está cansada no hotel me esperando, poderia atrapalhar a concentração! A gargalhada foi geral, como alguém passa quase 5.000 Km em trânsito, com a noiva para assistir um jogo de futebol? Ao retornar, serão 10.000 km, tempo suficiente para ensaiarem os votos. Só noivos apaixonados fazem isso.

    - As primeiras peças a entrarem no tabuleiro verde são os árbitros, que foram recebidos pela tradicional vaia, uma espécie de boas-vindas! Eles já sabem que irão receber. Já os jogadores no aquecimento sentem o clima, recebem aplausos e gritos entusiásticos. Uma observação – as mulheres gritam com alguns decibéis a mais, algo impressionante, parece que o público todo é composto por elas, Neymar o favorito, recebe alguns impublicáveis.

    - Após a primeira tentativa de Gabriel Jesus sem êxito, os milhares de treinadores já pediam substituição por Gabigol, parece comum essa relação de apoio e ódio, para eles o jogo se encerra em cada lance. Não pensam no todo, afinal são torcedores.

    - Neymar quando se aproxima para uma cobrança de falta ou escanteio é um alvoroço, após alguns dribles e chute a gol mesmo distante da meta, a galera levanta e grita UUUUUUUU, como se tivesse passado pertinho. Gabriel faz bela jogada e participa do lance do gol, a galera aplaude o camisa nove, já esqueceram o erro anterior.

    - Em outro lance, falta cometida por jogador Uruguaio, se quer dar tempo ao juiz sancionar ou não, já é chamado de ladrão e que deveria expulsar o faltoso. Juiz vai comer caju! Baralho! Filho de uma Porca! Juiz ladrão, porrada é solução! São os palavrões que fluem da boca dos torcedores com naturalidade, parece que é um ato inato. Xingar o juiz faz parte do jogo.

     

    | Foto: Bianca Ribeiro

    - Em determinado momento, ouvi ruídos de uma família onde a filha, “parecia não compreender a dinâmica do futebol”, além de trocar constantemente os nomes dos jogadores brasileiros, sendo corrigida pelo mais novo. Dou razão a jovem, pois, mais de 95% dos jogadores da seleção brasileira estão fora do país, dificultando a familiaridade com os jogadores. Ela continuou a torcer e a gritar, pedindo até pênalti fora da área. Estava feliz e não resistiu, chamou alguns palavrões provocando risos de seus familiares. 

    - No intervalo ouvir conversas entre dois torcedores, que lembravam do “Vivaldão” e que estavam sentados no lado da “torcida do Rio Negro”. Falaram carinhosamente do saudoso Amadeu Teixeira, o multi–homem, que dava as caras algumas vezes em seu bar, quando não estava no banco orientando o América. E os intermináveis comentários de Orlando Rebelo, mesmo saindo 30 minutos depois do término da partida, por causa do trânsito e, ao chegar em casa, o saudoso Orlando ainda detalhava o jogo.

     - Alguns gritos de Neymar, Neymar e Rafinha,Rafinha não me surpreenderam, estavam jogando muito bem. Assim quando entraram Gabigol e Éverton Ribeiro, os apaixonados torcedores rubro-negros ensaiaram alguns gritos de Mengo, Mengo, Mengo, foram gritos contidos, não “vingou”. Entendi não como desrespeito à seleção, mas uma “pitada de sarcasmo ao grande contingente de torcedores rivais”, corro dirigido a eles.

      Finalizo debruçado em algumas pesquisas sobre este ato de torcer, que parece transformar pessoas extremamente educadas, carolas e pudicas, em tresloucados torcedores. O que acontece com essas pessoas? Porque reagem assim?  

    Estudiosos sobre o lazer dão pistas deste comportamento – “O lazer é espaço único, diferente do dia-a-dia. Possui característica, suprir as necessidades da “falta de oportunidade de se expressar de forma prazerosa”. Os xingamentos proferidos por torcedores são considerados deselegantes na vida cotidiana, mas, são comportamentos típicos nos estádios de futebol e fora seriam descontextualizados.

    Talvez o encontro do público com a seleção brasileira, trouxe novo ânimo não só aos jogadores, mas ao povo amazonense que estava precisando de carinho, sorrisos e colo. Juntos seremos novamente campeões.

    Vamos fazer muitos ruídos, barulhos e celebrar o aniversário de Manaus. Afinal merecemos!

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