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Polícia alerta para crimes de pedofilia no Amazonas

Casos de pedofilia crescem e assustam população do Amazonas

Em 2020, a PF realizou 84 operações contra pedofilia; 32 pessoas foram presas | Foto: Elza Fiúza / Agência Brasil

Em 2020, a PF realizou 84 operações contra pedofilia; 32 pessoas foram presas
Em 2020, a PF realizou 84 operações contra pedofilia; 32 pessoas foram presas | Foto: Elza Fiúza / Agência Brasil

Manaus - A Polícia Federal alerta para os casos de pedofilia, que vêm crescendo tanto no Brasil como no Amazonas. De acordo com o órgão, que investiga os casos de combate à pedofilia, apenas esse ano, 84 operações foram realizadas e 32 pessoas foram presas envolvidas nesse tipo de crime no país. De acordo com a Secretaria de Segurança Pública do Amazonas (SSP-AM), só no ano de 2019, foram contabilizados 1.283 casos de abuso sexual e agressões físicas e psicológicas contra crianças e adolescentes.

De acordo com a titular da Delegacia Especializada em Proteção à Criança e ao Adolescente (Depca), delegada Joyce Coelho, a maioria dos autores de violações contra o público infanto-juvenil mantém relação familiar e de proximidade. São pais, tios, irmãos, avós, vizinhos e amigos de familiares das vítimas.

“Também tem os crimes que são cometidos por meio da internet, tem os crimes que são cometidos no compartilhamento de imagens. Crimes que constam no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) também são espécies de abuso sexual”, explica a delegada titular da DEPCA, Joyce Coelho.

Exploração sexual

A exploração sexual infantil, que é um tipo específico e está no Código Penal, também é um tipo de abuso sexual. “É quando este abuso tem uma característica de mercadoria. A criança ou o adolescente é encarado como objeto. A partir do momento em que é cobrada uma quantia, que o sujeito paga alguma quantia, seja diretamente para a criança ou adolescente, seja através de algum intermediário que lucra com o corpo dessa criança ou desse adolescente”, enfatiza Coelho.

Ex-prefeito Adail Pinheiro sendo preso em 2014
Ex-prefeito Adail Pinheiro sendo preso em 2014 | Foto: Isis Capitrano

 

Um exemplo de caso de exploração sexual é envolvendo o ex-prefeito de Coari, Adail Pinheiro, que em 2014 foi condenado a 57 anos e 5 meses de prisão por chefiar uma rede de exploração sexual de crianças e adolescentes no Amazonas. Já em 2015, dentro da cadeia, foi acusado por denúncia do Ministério Público por subornar e ameaçar de morte as vítimas de estupro que testemunham contra ele. Em 2017, Adail recebeu indulto e teve extinção de pena de prisão de mais de 11 anos, em prisão domiciliar.

Um dos acusados, Marcelo Carneiro,  sendo preso em 2015
Um dos acusados, Marcelo Carneiro, sendo preso em 2015 | Foto: Divulgação

Segundo reportagem de 2018, produzida pela Amazônia Real em São Gabriel da Cachoeira, foram acusados na Operação Cunhatã da Polícia Federal, comerciantes, políticos e servidores públicos por abusarem de meninas em troca de dinheiro, roupas, celulares. Conforme investigações, as garotas eram abordadas por aliciadores em ruas do bairro e levadas para residências, no total foram doze denúncias de crimes.

Em 2019, o empresário Fabian Neves dos Santos foi acusado de estupro de vulnerável.
Em 2019, o empresário Fabian Neves dos Santos foi acusado de estupro de vulnerável. | Foto: Reprodução

No ano de 2019, o empresário Fabian Neves dos Santos foi flagrado em um motel com uma adolescente de 13 anos, sentenciado a 61 anos por crime de estupro a vulnerável. Além disso, após investigação da polícia, foi descoberto que ele abusou de outras menores de idade, segundo a polícia, a adolescente era agenciada pela própria tia que também foi sentenciada a 146 anos.

De acordo com dados do Ministério da Saúde, em 2018, foram registrados mais de 32 mil casos de abuso sexual contra crianças e adolescentes no Brasil. De 0 a 9 anos, 75% das vítimas são meninas. De 10 a 19, as vítimas meninas são 92%.

Poderosos Pedófilos

Em “Poderosos Pedófilos”,  livro publicado pelo jornalista Amaury Ribeiro, o autor traz a cobertura de uma Amazônia em 1997, denunciando os crimes citados acima e outros. Entre as cidades estão Manaus, São Gabriel da Cachoeira e Coari. Além disso, o Amaury comenta sobre a alta do crime que ainda permanece no ano de 2020.

Para o jornalista, há uma falha na legislação do ECA, em razão disso, os criminosos cometem o ato com a ideia de que não vão ser punidos no país. “A certeza da impunidade é o que leva esses caras a fazerem tudo isso. O problema é que os próprios abusadores aplicam a lei. (É preciso) uma mudança longa de pensamento da sociedade. Se a cultura não for mudada, nada acontece. É uma questão de postura da sociedade", afirma Ribeiro. 

Crimes na internet

Com a chegada da Covid-19 e a expansão principalmente de aplicativos, crianças e adolescentes ficam vulneráveis a criminosos se não utilizarem celulares sem o devido cuidado e atenção.

Conforme Associação de Combate a pedofilia na internet (Safernet Brasil), houve também um aumento de 89% de denúncias de pedofilia na internet no primeiro semestre 2020, registrando 46.278 denúncias, devido a pandemia da Covid-19, em relação ao primeiro semestre de 2019 que registrou 24.480 denúncias. 

Entre ações contra a pedofilia neste ano, a polícia civil participou da “Operação Luz na Infância”, que identifica autores de crimes de abuso e exploração sexual em 12 estados. Coordenada pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP), a operação envolve agências da aplicação de lei Colômbia, dos Estados Unidos, Paraguai e Panamá.

Identificando o crime

Segundo Alcélia Ramiro, psicóloga especialista em Terapia Cognitivo Comportamental, o abuso contra crianças e adolescente se apresenta de diversas formas, pode vir a ser praticado por alguém do âmbito familiar ou desconhecido. Entre as características de agressão, abuso sexual estão a mudança de comportamento.

“O primeiro sinal a ser observado é uma possível mudança no padrão de comportamento das crianças, esse é um fator facilmente perceptível, pois costuma ocorrer de maneira repentina e brusca. Por exemplo, se a criança nunca agiu de determinada forma e, de repente, passa a agir. Se começa a apresentar medos que não tinha antes - do escuro, de ficar sozinha ou perto de determinadas pessoas. Ou então mudanças extremas no humor: a criança era super extrovertida e passa a ser muito introvertida. Era bastante calma e passou a ser agressiva", explica Alcélia.

Como denunciar

As denúncias são recebidas por meio do disque 100, que é o disque-denúncia nacional de direitos humanos para todos os tipos de violências. É possível denunciar ao 181, o disque-denúncia da SSP, e diretamente na DEPCA, localizada na Avenida Via Láctea, Conjunto Morada do Sol, bairro Aleixo. Telefones: 3656-8575/ 3656-7445, ou o Conselho Tutelar mais próximo.

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