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    Guerra


    Seis PMs morrem em guerra contra criminosos no ano de 2020 no Amazonas

    Algumas dessas trocas de tiros começam no confronto entre as facções criminosas presentes no Amazonas

    | Foto: Reprodução

    MANAUS - A pandemia do novo coronavírus poderia ter diminuído o número de crimes no Amazonas por conta da imposição do isolamento social, mas isso não ocorreu. O confronto direto levou, inclusive, a policiais e suspeitos a trocarem tiros muitas das vezes. Com isso, policiais são vitimados nesses confrontos. De janeiro de 2020 a março de 2021, seis policiais militares e 84 suspeitos são mortos durante intervenção policial no Amazonas. Já em 2019, foram três policiais e 93 suspeitos, conforme dados divulgados pela Secretaria de Segurança Pública do Amazonas (SSP-AM).

    Algumas dessas trocas de tiros começam no confronto entre as facções criminosas presentes no Amazonas. Uma dessas histórias que pertencem a este fatídico dado foram os acontecimentos do dia 21 de fevereiro deste ano no bairro Santo Agostinho, Zona Oeste de Manaus.

     

    Três suspeitos morreram em trocas de tiros
    Três suspeitos morreram em trocas de tiros | Foto: Divulgação

    Na madrugada do dia 21 de fevereiro, três homens foram mortos em um confronto contra a Rocam, no bairro Santo Agostinho. Dois não foram identificados pela polícia e um foi reconhecido como Herbert de Almeida Pereira, de 30 anos. 

    O primeiro confronto começou por volta de 2h, quando a Rocam foi acionada com informações de um tiroteio na rua Santa Rita, onde um grupo armado estaria invadindo o bairro. 

    No local, os criminosos trocaram tiros com a Rocam, que revidou e atingiu dois homens. A dupla foi encaminhada ao Serviço de Pronto Atendimento (SPA) Joventina Dias, mas não resistiram aos ferimentos e morreram no local. Junto com eles, foram apreendidas uma submetralhadora e 20 munições.

    Por volta de 3h30 da madrugada, o confronto seguiu na rua Esmeralda, onde mais um homem foi baleado em uma troca de tiros com a polícia. Ele também foi encaminhado ao Joventina Dias e morreu no local. Com o homem, foram apreendidos um revólver calibre 38 e seis munições. Os materiais apreendidos com os três foram apresentados ao 19° Distrito Integrado de Polícia (DIP).

    Na mesma madrugada, também foram presos seis homens que participaram do tiroteio. Por meio de denúncias, a Rocam seguiu o grupo até o beco Ursa Menor, que tentou fugir para uma área de mata no bairro Santo Agostinho. 

    Um dos homens foi preso em uma residência, onde várias armas de fogo e drogas estavam escondidas - um revólver calibre 38, duas pistolas, uma arma de fabricação caseira, 96 munições e seis tabletes de maconha. O grupo foi conduzido ao 19° DIP, onde todos os procedimentos legais foram realizados. A polícia informou que o tiroteio começou com uma discussão entre facções criminosas. Ao fim de toda a briga na região foram contabilizados seis mortos.

    Emboscada para policiais em Nova Olinda do Norte

     

    Márcio Souza e Manoel Souza foram mortos em operação em Nova Olinda do Norte
    Márcio Souza e Manoel Souza foram mortos em operação em Nova Olinda do Norte | Foto: Divulgação

    Enquanto realizavam uma operação no município de Nova Olinda do Norte (a 135 quilômetros de Manaus), equipes da COE e do Batalhão Ambiental da Polícia Militar foram alvos de um ataque, na noite do dia 3 de agosto de 2020, no Rio Abacaxis. Dois policiais militares foram mortos e outros dois ficaram feridos após o intenso confronto com traficantes.

    Informações preliminares não confirmadas pelas autoridades deram conta que além dos policiais também houve suspeitos mortos e feridos na região. Os PMs ainda foram socorridos para o hospital de Nova Olinda do Norte, onde o caso rapidamente ganhou repercussão na cidade. Uma multidão se aglomerou em frente da unidade de saúde. 

    A investigação policial se deu após denúncias de que traficantes estavam tomando a região. No dia 24 de julho de 2020 o pescador esportivo Saulo Moyses Rezende da Costa, de 36 anos, foi impedido de navegar no rio Abacaxi, em Nova Olinda do Norte. Na ocasião ele foi ferido com um tiro no ombro.

     

    Adepto da pesca esportiva há 10 anos, a vítima contou ao EM TEMPO que nunca vivenciou uma situação parecida
    Adepto da pesca esportiva há 10 anos, a vítima contou ao EM TEMPO que nunca vivenciou uma situação parecida | Foto: Reprodução/Arquivo Pessoal

    Conforme a denúncia da vítima feita à Polícia Civil, o ataque foi ordenado por um grupo de milicianos que querem se apropriar, de forma indevida, de uma área da União.

    Policial militar é vítima de latrocínio

    O cabo da Polícia Militar do Amazonas (PMAM), Adeilson de Oliveira Pinho, de 34 anos, foi morto após reagir a um assalto na casa dele, situada na Rua das Quarabas, loteamento Cidade do Leste, bairro Gilberto Mestrinha, Zona Leste de Manaus. O crime ocorreu na madrugada do dia 19 de março de 2020 e segundo a Polícia Civil, a vítima estava dormindo com a esposa quando foi surpreendido pelos suspeitos.

    A dupla de assaltantes acordou o casal perguntando pela localização de um dinheiro. Adeilson reagiu ao assalto lutando contra os invasores, foi quando a vítima foi atingida com uma facada no pescoço.

     

    Adeilson era cabo na 4ª Companhia Interativa Comunitária
    Adeilson era cabo na 4ª Companhia Interativa Comunitária | Foto: Arquivo Pessoal

    Mortes no Brasil

    Uma pesquisa realizada pelo Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo (NEV-USP) mostrou que no ano de 2020 somente nos seis primeiros meses, 3.251 pessoas morreram em intervenções que envolviam policiais em todo o Brasil. Deste total, 3% são policiais (103) e 97% são cidadãos comuns (3.148). A título de comparação, nos seis primeiros meses de 2019, tais intervenções provocaram 3.017 mortos: 83 policiais e 2.934 cidadãos comuns. Neste sentido, o cenário, que em 2019 já era bastante preocupante, tanto para policiais como para cidadãos comuns, faz do período da pandemia algo preocupante com a vida de ambos os lados.

    Quando se consideram as taxas por 100 mil habitantes, existem algumas surpresas. O Amapá continua liderando o ranking, sendo o estado onde a população mais é morta pela polícia. As grandes surpresas são Sergipe, que passa, em 2020, de 4º para o 2º lugar, e a Bahia, que passa do 5º para o 4º lugar. Na outra ponta, entre os estados em que a relação entre número de mortos pela polícia pelo total da população é menor está Rondônia, que teve forte queda no número de mortos pela polícia nos primeiros seis meses de 2020. O Amazonas não está nem entre os 10 primeiros.

    "Negligenciamento de políticas de prevenção à violência"

    Na opinião da especialista em Segurança Pública, Samira Bueno, o aumento no número de mortes durante a pandemia não era esperado. “É um pouco surpreendente porque, embora os homicídios já estivessem em trajetória crescente desde outubro de 2019, com a pandemia era de se esperar que fosse interrompida, porque reduziu-se a mobilidade, pessoas na rua à noite, em bares".

    Para o professor de mestrado em segurança pública da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), Dorli Marques, o aumento dos dados sobre total de mortes envolvendo ações policiais no Brasil não permite falar em coincidência.

    "Isso evidencia que a lógica de 'guerra' contra o crime, o recrudescimento de penas e ações repressivas, o negligenciamento de políticas de prevenção à violência e criminalidade não tem surtido efeito. Por isso, faz-se rever a lógica da guerra contra o crime e investir na promoção de uma segurança pública alinhada com a racionalidade do estado democrático e de direito, além da observância dos tratados de direitos humanos dos quais o Brasil é signatário", destaca Dorli.

    Mortos por Covid-19

    Não obstante a isso, os policiais ainda enfrentam a covid-19, pois grande parte deles estão nas ruas, e assim expostos ao vírus.  Segundo dados da Secretaria de Segurança Pública (SSP), a segurança pública do Amazonas perdeu nos dois anos, 2020 e 2021, 56 profissionais. Conforme dados da Secretaria no ano de 2020 foram registrados quatro óbitos de servidores da Polícia Militar, duas mortes da Polícia Civil e um óbito da SSP. Já em 2021, somente em janeiro e fevereiro foram registrados 49 óbitos de servidores da ativa, sendo 23 da Polícia Civil, 21 da Polícia Militar e dois da SSP, os outros óbitos são relacionados a servidores do Detran/Am. Os números representam uma alta de 600% em 2021 no número de mortes destes profissionais por covid-19, se comparado a 2020.

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