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    TRÁFICO


    Entenda como atua a 'Zona Franca' do narcotráfico no Amazonas

    Manaus é conhecida pelo Polo Industrial, mas há outro tipo de 'Zona Franca' obscura e que nada tem a ver com o Distrito. É a importação e exportação de drogas modificadas na capital do Amazonas

    | Foto: Waldick Junior

    Manaus - Considerado atividade criminosa, o tráfico de drogas funciona como uma 'Zona Franca' no Amazonas. Sem pagamento de impostos, o mercado ilícito praticamente só rende lucro para os patrões que fazem negócios na região. O principal polo desta rede econômica é Manaus, mas há ligações importantes no interior, especialmente em cidades na fronteira do estado, como Tabatinga e São Gabriel da Cachoeira. 

      Segundo o Escritório das Nações Unidas Sobre Drogas e Crimes (UNODC), a 'economia das drogas' chega a movimentar 40% das atividades ilegais do crime organizado, como tráfico de armas, de pessoas e lavagem de dinheiro.  

    As facções que atuam nesta prática funcionam como verdadeiras empresas multinacionais de drogas, fazendo negócios entre vários países e continentes. Dentro destas corporações ilegais há ainda mecanismos e estruturas de poder bem definidos, com cargos e possibilidade de promoção de carreira.

     

    Apreensão de drogas pela Polícia Civil do Amazonas
    Apreensão de drogas pela Polícia Civil do Amazonas | Foto: Mayara Viana/PC-AM

    Empresários do crime

    Os grupos mais  conhecidos que atuam no Amazonas são o Primeiro Comando da Capital (PCC), Comando Vermelho (CV) e a agora 'falida' Família do Norte (FDN). Esta última surgiu em Manaus, cresceu e dominou o Amazonas, mas foi atacada e perdeu o domínio da região para o CV em 2020. 

    Fontes policiais confirmaram o Comando Vermelho como a principal facção que atualmente desenvolve negócios no Amazonas. O grupo teve origem no Rio de Janeiro, cidade que hoje tem ligação direta com Manaus na rota de drogas.

    O CV tem uma estrutura bem definida de poder. Os líderes supremos, como diz o nome, estão no topo e atuam como CEO da facção. Decidem o futuro dos negócios, como territórios a serem conquistados e novos produtos a serem vendidos. Abaixo estão os conselheiros de regiões, sendo divididos nas cidades onde o CV tem 'escritório' e atuam como subchefes do crime. Nesta posição, têm poder de voto em reuniões que decidem sobre a entrada de novos membros ou a conquista de territórios menores, como bairros. 

     

    Membro de facção faz pichação em muro no bairro Compensa, em Manaus
    Membro de facção faz pichação em muro no bairro Compensa, em Manaus | Foto: Reprodução

    Por último, há os traficantes locais. Estes vendem as drogas para o comércio doméstico, ou seja, em bairros de diferentes cidades. Além deles, há outros cargos menores, como os aviõezinhos (transportadores de pequenas porções de droga) e os vigias que alertam sobre a polícia, caso circule próximo das bocas. 

    Fornecimento e caminho da droga

    A região amazônica se tornou uma "divisão internacional do trabalho" das drogas. O Amazonas, por exemplo, é tido como porta de entrada para os entorpecentes. Os principais municípios nessa teia de negócios são Tabatinga, que faz fronteira terrestre com Letícia (Colômbia) e fluvial com Santa Rosa (Peru). As informações são do artigo 'Ameaça e caráter transnacional do narcotráfico na Amazônia brasileira', escrito por Aiala Colares Couto. As informações também são de conhecimento do Departamento de Investigação sobre Narcóticos (Denarc), da Polícia Civil do Amazonas.

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    Traficantes importam o Skank, também conhecido como super maconha, da Colômbia. Do outro lado, no Peru, vem a pasta base de cocaína. Boa parte da droga que circula no Brasil tem origem nesses pontos "

    Paulo Mavignier, titular do Departamento de Investigação sobre Narcóticos (Denarc) da Polícia Civil do Amazonas

     

    A partir da entrada da droga na fronteira do Amazonas, os entorpecentes são enviados para Manaus ou Belém (PA), em sua maioria. O caminho para chegar até esses pontos é feito por via fluvial, mas também existem rotas terrestres e aéreas. 

     

    Delegado Mavignier
    Delegado Mavignier | Foto: Divulgação

    Do total de 16 rios de grandes extensões na região, há pelo menos 12 sendo utilizados por traficantes. Os principais são: Solimões, Amazonas, Uaupés, Içá, Japurá, Envira e Juruá. 

     

    Rotas do tráfico no Amazonas
    Rotas do tráfico no Amazonas | Foto: Ana Gabriela/Em Tempo

    Além disso, o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) afirma que existem 65 rodovias na região amazônica. Segundo mapeamento, 42 delas são usadas para escoamento de cocaína e maconha. 

     

    | Foto: Waldick Junior/Em Tempo

    A via aérea é utilizada por pequenos aviões que transportam cargas até áreas com estradas. Para o pouso, são construídas pistas clandestinas em meio à floresta, ou então, utilizadas fazendas como fachada. A informação é de policiais federais que atuam no combate ao tráfico de drogas.

      Um dos métodos mais comuns para a aquisição dessas drogas é o chamado consórcio. Por esse meio, traficantes se unem, pedem uma porcentagem dos entorpecentes e pagam todos juntos um só frete.  

    "A droga chega em Manaus, um carregamento, e cada traficante tem uma parte. Alguns têm 50 kg, por exemplo. Aí eles dividem com os gerentes, os quais, por sua vez, abastecem as 'bocas' da cidade com os entorpecentes", esclarece o delegado Mavignier. 

    Manaus, o polo de produção

    A chegada dos ilícitos em Manaus ocorre especialmente pela via fluvial. Um dos pontos mais cobiçados para essa ação é a orla do bairro Compensa, Zona Oeste, onde surgiu a Família do Norte (FDN). O local faz beirada com o Rio Negro, por onde também circulam as drogas. Atualmente a região é ocupada pelo Comando Vermelho.

     

    Canoas no porto de Coari (AM), outra cidade dominada pelo tráfico
    Canoas no porto de Coari (AM), outra cidade dominada pelo tráfico | Foto: Brayan Riker/Em Tempo

    "Às vezes a droga chega mais acima, ali por Manacapuru, por exemplo. Eles retiram a carga e guardam em um sítio e vão soltando aos poucos pela estrada. Outros vão direto para o estado do Pará, através da rota até Santarém", elucida o titular do Departamento de Investigação sobre Narcóticos (Denarc).

    Segundo o delegado, em Manaus, as drogas passam por um processo de modificação antes de serem exportadas. A maconha é dividida em tabletes menores e a cocaína, se for pura, é alterada por químicos. Esses trabalhos ocorrem em lugares chamados laboratórios de drogas. É o que explica também o tenente Thiago Silva, da Ronda Ostensiva Cândido Mariano (Rocam), da Polícia Militar do Amazonas.

     

    Balanças de precisão utilizadas pelo tráfico
    Balanças de precisão utilizadas pelo tráfico | Foto: Divulgação/PAM
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    Nesses lugares, há a separação da droga em porções menores. Quando falamos em laboratório, é porque eles pesam e organizam os entorpecentes para a venda. Também tem mistura para aumentar a quantidade de drogas "

    Thiago Silva, tenente da Rocam

     

    Exportação e lucro 

    Após a modificação das drogas ocorrida em Manaus, os entorpecentes ganham o país e o mundo. Há caminhos fluviais que levam até Belém, de onde os ilícitos pegam a estrada a caminho do Rio de Janeiro, São Paulo e estados do Nordeste, como o Ceará. "Deste último local, as drogas são exportadas para países da Europa", comenta o tenente da Rocam.

      De acordo com a pesquisa do artigo de Aiala Colares Couto, já mencionado, os principais países que recebem drogas da região amazônica estão localizados na Europa e no continente africano.  

    Segundo o Departamento de Investigação sobre Narcóticos (Denarc), a maconha mais comum que chega a Manaus - e é exportada - é do tipo Skank. O quilo desse entorpecente sai por R$ 7 mil, em média. Os valores podem sofrer alterações a depender da escassez do produto no mercado. 

    Apreensões recordes

    Para tentar reduzir o avanço da Zona Franca do narcotráfico, forças policiais do Amazonas estão em ação com a operação Jatuarana, protagonizada pelo Departamento de Repressão ao Crime Organizado (DRCO) e apoiada por oito forças de segurança, dentre elas o Grupo Força Especial de Resgate e Assalto (Fera) e a Força Nacional de Segurança.

    A operação está na segunda fase, sendo a primeira realizada em 25 de junho e a última no dia 28 do mesmo mês. Somando as apreensões dos dois dias, a PCAM recolheu pouco mais de 1,5 toneladas de cocaína no Lago do Macaco, bairro Puraquequara, Zona Leste de Manaus. Segundo a Polícia Civil,  o prejuízo ao tráfico é de R$ 25 milhões, a somar também a apreensão de uma lancha blindada e dois fuzis. Apesar das operações, o tráfico na região ainda segue a todo vapor.

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