Fonte: OpenWeather

    Drogas


    Manaus Moderna pode se tornar 'coração da cracolândia manauara'

    Comerciantes ouvidos pelo EM TEMPO relatam que o consumo de drogas na área é intenso e ocorre em qualquer horário do dia

     

    A área dominada pelos dependentes químicos está a poucos metros do 24º DIP
    A área dominada pelos dependentes químicos está a poucos metros do 24º DIP | Foto: Brayan Riker

    MANAUS (AM) - Ninguém considera razoável realizar as compras do mês, e encontrar rastros de consumo de crack em calçadas de um mercado público. No entanto, a cena já é uma dura realidade da capital do Amazonas, e não ocorre em uma área periférica, mas no entorno da Manaus Moderna, a principal feira da cidade. Símbolo da identidade amazônica, o espaço pode se tornar o coração da "cracolândia manauara".

    Durante visita pela área, na última sexta-feira (10), a equipe de reportagem do EM TEMPO flagrou um grupo de ao menos cinco pessoas consumindo drogas na calçada. Eles improvisavam uma lata de cerveja vazia como um cachimbo. A cena ocorreu a poucos metros da feira e do 24º Distrito Integrado de Polícia (DIP).

     

    Dependentes consomem drogas em via pública
    Dependentes consomem drogas em via pública | Foto: Brayan Riker

    Comerciantes da região ouvidos pela reportagem afirmaram que o intenso consumo de entorpecentes, especialmente o crack, está cada vez mais recorrente na área. "Aqui não tem mais hora para eles se drogarem, é o tempo inteiro. Eles trabalham como flanelinha e assim que recebem um trocado, vão correndo comprar mais entorpecentes", diz um feirante.

    Na mesma região, mais especificamente na Praça dos Remédios, há outra movimentação com forte consumo de drogas. O vendedor de uma loja de equipamentos de pesca afirma que já testemunhou, em várias ocasiões, brigas entre os dependentes químicos.

    "

    Eles se desentendem rotineiramente entre eles, por qualquer motivo, aí um tenta esfaquear o outro, às vezes ficam se agredido com pauladas, isso é muito rotineiro. Já vi até eles brigarem por droga mesmo "

    , relata o vendedor que preferiu não se identificar.

     

    Mortes na área

    Somente nos últimos meses, foram registrados três homicídios nas imediações da Manaus Moderna, cujas principais suspeitas são ligações com o furto ou acerto de contas pelo tráfico de drogas.

    Em março, Ronaldo dos Santos, de 25 anos, foi assassinado com três tiros na cabeça, na avenida Lourenço da Silva Braga, Centro de Manaus. Segundo informações repassadas por policiais militares, ele tinha envolvimento com tráfico de drogas. 

      Já no dia 4 de abril, o autônomo Marcelo Ramos Pinon, 38, foi morto a facadas após discussão, na rua Barão de São Domingos, em trecho próximo à Feira da Manaus Moderna. O acusado, José Rui Cosme dos Santos, 45, discutiu com a vítima a respeito de furtos que ele estaria realizando no local, segundo divulgado em relatório da Polícia Militar na época.  

    Mais recentemente, Gedson Araújo Pereira, de 27 anos, foi assassinado com quatro tiros, na noite do dia 15 de agosto, também nas proximidades da Manaus Moderna. A vítima usava uma tornozeleira eletrônica.

    Segundo as autoridades, o jovem caminhava pela avenida Lourenço da Silva Braga, quando criminosos que estavam em um Gol, atiraram contra a vítima, que não resistiu e morreu no local.

    Cenário precisa ser revertido

    Para evitar o trágico cenário que se desenha em um futuro próximo, especialistas alertam que a área precisa ser "reintegrada" à sociedade com ações voltadas ao atendimento de viciados e ao combate ostensivo ao tráfico de drogas na área. 

     

    Especialistas alertam sobre a necessidade do poder público reocupar a área
    Especialistas alertam sobre a necessidade do poder público reocupar a área | Foto: Brayan Riker

    Uma das alternativas, em casos específicos, é a internação involuntária para a recuperação dos dependentes químicos. Segundo alguns ex-usuários, o caminho para não usar mais drogas está, muitas vezes, em ajudar os outros usuários a também superarem o vício. Segundo o neurologista Sandro Sposito, a internação compulsória é um mal necessário.

    "

    Como a droga causa uma dependência profunda, que o indivíduo perde realmente a crítica e a capacidade de imaginar outras possibilidades, outras alternativas, e a busca é tão ativa por isso, a dependência química é tão forte que não é uma dependência só psicológica, não é isto. É uma coisa mais séria, é uma dependência química, uma alteração química que aconteceu no seu cérebro "

    , relata.

     

    O médico explica que esse tipo de alteração química leva mais tempo para se restabelecer ao normal. Ninguém chega na clínica e consegue apenas por meio de orientação, de conversas, apagar aquilo como se fosse uma escrita a lápis e você passa uma borracha, pelo contrário, o processo é demorado.

    “Quando ele perdeu o discernimento do que está fazendo, seja para ele ou para os outros, não tem condições de decidir por ele mesmo. Mas o sucesso de uma internação, de um tratamento, só vai ser alcançado quando esse tratamento se tornar voluntário pelo paciente”, finaliza.

     

    Segundo comerciantes da região, a maioria deles atua como flanelinha
    Segundo comerciantes da região, a maioria deles atua como flanelinha | Foto: Brayan Riker

    Paralelamente às ações para tratar dependentes, é preciso uma ação eficiente de agentes da PM e da guarda municipal para reumanizar as vias atualmente utilizadas como ponto de vendas e consumo de drogas. 

    "Somente com um policiamento efetivamente ostensivo, em que se respeite a lei e a ordem, a população de forma geral voltará a ter confiança e se sentir segura para andar naquela área, sem que tenha de conviver com o consumo de drogas. Para isso, é necessário traçar estratégias de segurança pública que contemplem esses espaços públicos que pertencem à sociedade", afirma o César Marte, especialista em segurança pública. 

    Resposta do poder público

    A Polícia Militar informou que realiza patrulhamentos pela área e que vai intensificar o policiamento na região. Sobre o atendimento a viciados, a Secretaria de Segurança Pública do Amazonas (SSP-AM) informou que as famílias com dependentes químicos podem procurar o Departamento de Prevenção à Violência (DPV) da SSP-AM, em busca de medidas que vão desde a busca por vagas em clínicas de reabilitação terapêutica até o encaminhamento a reuniões de assistência social que ajudam a lidar com o processo.

    Leia mais

    CDN e CV deixam rastros de sangue na disputa do tráfico no Coroado

    Detentos do AM enfrentam preconceitos ao tentar mudar de vida

    Após 4h de cirurgia, morre cantor de forró que foi fuzilado em Manaus