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    Criminalidade


    Refém, população mantém obediência à lei do tráfico em Manaus

    Temendo pela própria vida, moradores de áreas vermelhas da capital preferem adotar "lei do silêncio" e evitam confronto com criminosos

     

    "Lei do silêncio" é dura realidade em áreas dominadas pelo tráfico
    "Lei do silêncio" é dura realidade em áreas dominadas pelo tráfico | Foto: AET

    MANAUS (AM) - Entre a "cruz" do medo permanente e a "espada" das ameaças aos moradores das áreas vermelhas de Manaus, restou apenas a opção de se submeter às leis de traficantes de drogas que dominam grandes territórios da capital. Silenciar-se diante do horror é a única forma segura para sobreviver em meio à violência que encurralou a maior cidade da Amazônia.

      No bairro Compensa, zona Oeste de Manaus, é difícil encontrar moradores dispostos a falar sobre o poder paralelo que atua no local. O bairro tem sido utilizado como campo de batalhas entre integrantes das facções Comando Vermelho (CV) e Cartel do Norte (CDN) - formado por antigos soldados da Família do Norte e desertores do próprio CV.  

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    Moro aqui há muitos anos, nunca tive problema com eles, muitos deles frequentam o mercadinho. Não vou dizer que gosto de viver nessa guerra, para mim eles estão todos errados. Isso nunca passou pela minha cabeça. O que adianta? Depois eles estão soltos, e aí vão querer vir para cima de mim, infelizmente, não dá para arriscar "

    , argumenta um comerciante de 59 anos.

     

    No bairro Educandos, Zona Sul de Manaus, a professora Roseane Sousa*, de 47 anos, mora em um beco onde o tráfico de drogas é intenso ao longo de todo dia. Apesar de não se sentir confortável com a situação, ela relata nunca ter tido problemas com criminosos.

    "Aqui todo mundo se conhece, quando passo por eles [traficantes] sempre me cumprimentam, alguns até me chamam de tia. A verdade é que eu acho muito triste quando vejo esses meninos que, alguns deles, eu vi nascer seguirem por esse caminho ruim. A saída é sempre a mesma, cadeia ou morte. Já vi várias mães chorando pelas escolhas erradas que os filhos infelizmente fazem", comenta.

    Roseane também diz que já presenciou homicídios, mas nunca pensou em fazer denúncias. "Já ouvi muito tiroteio, quando eles ficam se matando entre eles mesmos, ou quando a polícia vem aqui. E infelizmente não posso ajudar as autoridades, porque tenho filha pequena, família e temo muito pela vida de todos nós, por isso fico na minha. E até prefiro que eles não me vejam como uma inimiga, né?", completa. 

    Na lógica peculiar dos criminosos, o importante é manter rivais e policiais afastados. Por este motivo, é comum que sejam punidos quem comete crimes como violência doméstica e assaltos em regiões de domínio. A regra é que quem não obedece às suas leis está sujeito a punições do tribunal do tráfico.

    Vácuo do poder público

    De acordo com o sociólogo Israel Pinheiro, há uma série de aspectos que permeiam a relação de poder entre moradores de áreas dominadas por facções criminosos e traficantes.

    "Essa boa relação, não é algo que se tenha uma opção de escolha porque um embate entre moradores e criminosos seria trágico. Essas condições acabam sendo propiciadas pela ausência do Estado, e não estamos falando apenas da presença da polícia, pelo contrário. Nessa área, acaba existindo um vácuo de políticas públicas voltadas para a redução de desigualdade social e para o risco social, abrangendo fatores como a evasão escolar, desemprego e a rendas básicas", explica.  

     

    Rua de periferia de Manaus
    Rua de periferia de Manaus | Foto: Reprodução

    O especialista argumenta que é preciso haver uma mudança nas estratégias de combate à criminalidade no Amazonas, que mude a concepção sobre como os aparelhos repressivos se relacionam com a sociedade.

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    A gente vive uma política pública de segurança que coloca no centro das estratégias a doutrina do inimigo, desenvolvida nos anos 60/70. Essa doutrina de guerra, lançada sobre a população em que o criminoso é uma figura desse inimigo que precisa ser morto e aprisionado a qualquer custo em nome da seguridade da ordem social, mas o que vemos é o agravamento da segurança pública no estado, ano após ano. É preciso traçar novas estratégias de policiamento comunitário, por exemplo, que realmente diminua a criminalidade "

    , afirma.

     

    Lei do silêncio

    Um dos efeitos nefasto da submissão da população à lei de criminosos é o alto índice de crimes contra a vida que não são elucidados, em grande parte por falta da colaboração de testemunhas que temem sofrer retaliações.

    Sobrecarregadas com o excesso de casos, as investigações da Polícia Civil também são prejudicadas pela escassez de depoentes que presenciaram execuções, por exemplo.

     

    "Lei do silêncio" dificulta elucidação de crimes
    "Lei do silêncio" dificulta elucidação de crimes | Foto: Reprodução

    “A apuração dos homicídios, especialmente, quando há o envolvimento de traficantes ou em áreashttps://languagetool.org/pt-BR dominadas por facções criminosos, é muito difícil. Não há testemunhas, porque existe um medo de relatar muito grande”, explica Charles Araújo, titular da Delegacia Especializada em Homicídios e Sequestros.   

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