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    Organizações criminosas


    CDN perde força na guerra do tráfico com 'saída' de Zé Roberto e 'L7'

    “L7” e “Zé Roberto” estão detidos em presídios e anunciaram que mudaram de vida e são evangélicos

     

    Só na primeira quinzena de setembro, quase 60 pessoas foram assassinadas por armas de fogo na Região Metropolitana de Manaus
    Só na primeira quinzena de setembro, quase 60 pessoas foram assassinadas por armas de fogo na Região Metropolitana de Manaus | Foto: Reprodução

    MANAUS (AM) - Após assistirem os seus principais pontos de vendas de drogas serem “arrebatados” pelo Comando Vermelho (CV), remanescentes da "esfacelada" facção criminosa Família do Norte (FDN) se reorganizaram e criaram o Cartel do Norte (CDN), para voltar ao campo de batalha que tem os bairros manauaras como "pano de fundo". A “guerra”, que parece não ter fim, tem deixado poças de sangue em disputas pelas áreas consideradas estratégicas por narcotraficantes da capital do Amazonas.

      Um dos problemas enfrentados pelo CDN para “concorrer” em pé de igualdade com o CV é a falta de organização operacional. Os desafios iniciaram quando o famoso narcotraficante Zé Roberto da Compensa, um dos fundadores da FDN, se afastou do crime para se batizar à doutrina evangélica, recentemente. Ele cumpre pena em um presídio de segurança máxima no Mato Grosso do Sul.  

     

    O narcotraficante Zé Roberto
    O narcotraficante Zé Roberto | Foto: Reprodução

    Já o filho de Zé, Luciano Barbosa, conhecido como “L7”, foi capturado enquanto participava de uma audiência no Fórum Henoch Reis, Zona Centro-Sul, no início de setembro. Ele é conhecido pela extensa ficha criminal, que incluiu execuções de rivais e tráfico internacional de drogas. 

     

    L7 foi preso neste mês
    L7 foi preso neste mês | Foto: Suyanne Lima

    Em um vídeo gravado dentro de uma penitenciária - que não foi revelada pelo Governo do Amazonas, “L7” diz que cansou de ter que viver fugindo e enviou um recado a “Chico Velho”, desejando boa sorte.

    "Quero dizer que estou abrindo mão de tudo, já chega. Senão, minha vida só vai ser essa aqui, cadeia ou morte. É de coração, espero que ele me entenda, eu fiz o que pude. Não dá não se não vou acabar que nem meu pai. Eu não tive nem a oportunidade de ver meu filho, não estou nem há um ano na rua e já fui perseguido de novo. Chico Velho, tu é meu irmão, mas para mim já deu. Quero que você tenha uma boa sorte aí, que eu vou buscar a Deus", afirmou.

    A prisão de "L7" pode fragilizar o projeto do CDN para dominar a capital do Amazonas, por ter potencial para causar vertigem nas relações de poder do movimento. 

    "

    Me parece que o CDN não possui o poder centralizado como era o caso da FDN e do próprio CV, e com a prisão do L7, é provável que as forças atuantes nesse movimento fiquem ainda mais fragmentadas dentro da facção. Paralelamente a isso, você tem observado uma sequência de prisões de outros líderes criminosos de ambas as facções "

    , explica um agente da SSP que preferiu não se identificar.

     

    Entretanto, o narcotraficante amazonense Kaio Wuellington Cardoso dos Santos, de 25 anos, o “Mano Kaio”, apontado como chefe do braço do CV no Amazonas, segue foragido. Em junho, a Polícia Civil de três Estados realizou uma caçada em busca do criminoso, mas ele conseguiu escapar.

    Interesse do PCC

    Ainda de acordo com a fonte da pasta de segurança do Amazonas, o surgimento do CDN foi turbinado por investimentos de uma outra facção famosa no país: o Primeiro Comando da Capital (PCC), que teve integrantes esmagados em unidades prisionais da capital, em janeiro de 2017, a mando de um plano arquitetado por uma aliança entre CV e FDN para minar o controle da organização paulista em Manaus. 

    No entanto, como as alianças entre criminosos tendem a ser pouco sólidas, não surpreende que elas estejam em posições completamente diferentes do cenário encontrado há pouco mais de quatro anos.

    "O apoio estrutural e logístico do PCC ao CDN não é gratuito, tudo isso se explica pelo interesse da facção paulista na rota do Solimões, uma das principais entradas de materiais entorpecentes do Brasil, em que a capital do Amazonas está localizada em um ponto estratégico desse corredor", afirma o agente da SSP.

    Mortos na “guerra” do tráfico

     Só na primeira quinzena de setembro, 59 pessoas foram assassinadas por armas de fogo em Manaus e nos municípios da Região Metropolitana, de acordo com dados do Instituto Médico Legal (IML). Segundo a Secretaria de Segurança Pública (SSP-AM), a maioria dos crimes possui características de execução e acerto de contas, relacionada com a briga entre essas facções.

     

    Policiais atendem à ocorrência no bairro Jorge Teixeira
    Policiais atendem à ocorrência no bairro Jorge Teixeira | Foto: Reprodução

    O 1º de setembro apresentou o cartão de visita do mês sangrento à cidade com sete homicídios em menos de 12 horas. Naquele dia, soldados do CDN invadiram a região do Jorge Teixeira, na Zona Leste, para ocupar o território, até então dominado pelo Comando Vermelho.

      Berço da FDN, a Compensa, na Zona Oeste, é outra área cobiçada entre os narcotraficantes. A posição geográfica do bairro, às margens do Rio Negro e com uma série de portos clandestinos que facilitam o escoamento de drogas provenientes de países como a Colômbia e o Peru explicam a disputa intensa na região. Além disso, a Compensa é formada por becos e vielas que dificultam a realização de operações policiais e ajudam na fuga de bandidos.  

    Ex-aliada, a supremacia do Comando Vermelho em áreas vermelhas de Manaus iniciou com implosão da própria FDN, em 2019. Após romper com a facção carioca, os líderes da Família do Norte entraram em conflito, o que acabou facilitando a soberania do CV em Manaus. 

    Violência só terá fim com as facções asfixiadas

    Segundo Hilton Ferreira, especialista em segurança pública, a força do poder bruto é o  único método instituído por essas quadrilhas. Para coibir a expansão das organizações criminosas, é necessário mais investimento e estratégia do poder público.

    "Quando se tem uma área dominada por traficantes, a morte vira motivo para tudo. Então morrem pessoas dos dois lados e a população acaba ficando no meio desse fogo cruzado. Por isso é necessário um combate muito duro na forma como essas organizações criminosas atuam, com inteligência e efetividade", explicou.

     

    Homicídio em Manaus
    Homicídio em Manaus | Foto: Brayan Riker

    De acordo com o especialista, falta política nacional de combate ao narcotráfico e tráfico de armas nas fronteiras com orçamento adequado.

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    É primordial uma legislação com penas mais fortes, incluindo o confisco de bens. Também são necessárias ações permanentes nas fronteiras brasileiras, por parte da Polícia Federal (PF). Sem estas ações, muitas cidades brasileiras, incluindo Manaus, recebem toneladas de drogas e armas, com consequências previsíveis, em que o crime organizado avança e as polícias estaduais acabam fazendo apenas o papel de enxugar gelo "

    , explanou Hilton Ferreira.

     

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