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    Homicídios e Ameaças


    Suposta aproximação de cantores com facções pode resultar em mortes

    Morte de Romarinho Mec e ameaças a MC Poze apontam indícios de envolvimento com organizações criminosas

     

    Romarinho postou vídeo de agradecimento a MC Poze horas antes de morrer
    Romarinho postou vídeo de agradecimento a MC Poze horas antes de morrer | Foto: Reprodução

    MANAUS - “Melhor presente de aniversário que já ganhei de todos os anos. Valeu MC Poze pela humildade, sou fã demais do homem", disse o cantor de forró Romarinho de Jesus, de 27 anos, conhecido como "Bruxo do Amazonas”, em um dos seus últimos vídeos publicados no Instagram, no dia 8 de setembro. Horas depois, o seu rosto e o seu nome ganharam repercussão nacional e inundaram as manchetes dos principais jornais manauaras: o cantor foi assassinado no bairro Redenção, Zona Centro-Oeste da capital.

      Uma das principais suspeitas da execução do artista amazonense remete ao envolvimento da facção criminosa Cartel do Norte (CDN). Poucos dias depois do assassinato de Romarinho, o cantor a quem ele agradecia no Instagram, o funkeiro Mc Poze do Rodo, ligado ao Comando Vermelho (CV), segundo a Polícia Civil do Rio de Janeiro - precisou cancelar um show que estava marcado para fazer em Manaus, após também ser ameaçado por traficantes do CDN.  

    Os dois casos evidenciam como a elevada tensão entre as duas organizações criminosas rivais no Amazonas envolve até cantores na rixa da criminalidade. Logo após a morte do "Bruxo do Amazonas", sucessivos indícios surgiram para dar sustentação à suspeita de que houve participação de facções no assassinato. Apesar da versão ainda não ser oficialmente confirmada pelas autoridades, agentes da Polícia Civil trabalham com a hipótese nos bastidores da investigação.

    Ligações perigosas

    Pouco tempo antes de ser perseguido e assassinado, o forrozeiro foi ameaçado por um perfil supostamente ligado ao CDN. “Aviso foi dado. O próximo é o Romarinho Mec. Bora ver se ele é o doidão mesmo de bater de frente com o cartel. Lembra que o ***** não bota o queixo aqui não *****", publicou o perfil. 

    Já após a morte do cantor, um vídeo que viralizou nas redes sociais, mostra Romarinho em um evento cantando músicas cujo teor da letra é altamente suspeito. Em um trecho, o "Bruxo do Amazonas" recita frases atribuídas à facção Comando Vermelho (CV). 

     

    Ameaças foram publicadas no facebook
    Ameaças foram publicadas no facebook | Foto: Reprodução

    "É o bonde do jacaré, é tudo dois", diz Romarinho. 

      "Tudo dois", por exemplo, é um lema reconhecidamente declamado por membros do CV. No próprio vídeo, inclusive, há vários símbolos que também reforçam o teor de exaltação à organização criminosas fluminense, que possui um poderoso braço no Amazonas.  

    Capa do Vídeo
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    Em outro vídeo, que também ganhou as redes depois do assassinato do cantor, Romarinho novamente canta música com suspeições acerca de termos que fazem alusão ao CV. 

    "Tu vai tomar, tu vai, tu vai tomar, vai tomar pau. Brota aqui na Penha, na tropa de Manaus… É a tropa de Manaus”. A palavra “Tropa” é outro termo utilizado exaustivamente como bordão do Comando Vermelho.

    O próprio Mc Poze, amigo pessoal de "Romarinho", escreveu uma música cujo título é "Fala Que a Tropa É Comando Vermelho". 

    Apesar das suspeitas, familiares do cantor relataram que não sabiam se ele estava sofrendo ameaças.

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    Não sabemos dizer se ele estava sendo ameaçado. Ele nunca chegou a contar nada disso. Tudo aconteceu ao término do show. Ele levou os amigos para casa e depois aconteceu isso. Possivelmente teria sido perseguição, pois não tinha como acontecer do nada "

    afirmou Dávila de Souza, primo da vítima

     

    Tiroteio em velório

    A poucos metros de onde ocorria o velório de Romarinho, bandidos assassinaram Marco IllguinnerPaiva de Menezes, 24, amigo do cantor. Segundo testemunhas, a vítima foi surpreendida por pistoleiros que já chegaram atirando contra um grupo de pessoas que aguardava a chegada do corpo do cantor para a cerimônia de velório. 

     

    Illguiner, à esquerda, e Romarinho, à direita
    Illguiner, à esquerda, e Romarinho, à direita | Foto: Reprodução

    O ataque ocorreu na tarde do dia 9 de setembro, no Cacau Pirêra, em Iranduba, na Região Metropolitana de Manaus. Illguinner chegou a fazer registros da concentração das pessoas antes do tiroteio. Enquanto atendia a ocorrência de homicídios, policiais militares não descartaram a hipótese do jovem e do próprio cantor terem envolvimento com o tráfico de drogas. 

    MC Poze: cercado de ameaças e suspeitas

    Três dias após a execução de Romarinho, MC Poze decidiu cancelar o show que faria em Manaus, no próximo dia 22 de outubro, na mesma casa de show onde o cantor amazonense comemorou o aniversário antes de morrer. O funkeiro desmarcou o evento após receber ameaças de morte do Cartel do Norte, por meio do perfil no Facebook atribuído à facção.

    Em julho,  MC Poze, cujo nome é Marlon Brendon Coelho Couto da Silva, estava sendo procurado pelas autoridades cariocas. De acordo com informações da Polícia Civil do Rio de Janeiro, o cantor tem fortes ligações com o Comando Vermelho. 

     

    Funkeiro teve show cancelado em Manaus
    Funkeiro teve show cancelado em Manaus | Foto: Reprodução

      A polícia diz ainda que ele incita a violência, promove o grupo criminoso e participa de shows pagos pelo tráfico. Ele chegou a assumir que traficou drogas entre os anos de 2015 e 2016, mas nega participação no crime atualmente. Já o delegado Alan Luxardo, responsável pela investigação no Rio de Janeiro, defende que existem provas do envolvimento do funkeiro.  

    "Tem foto em que ele está portando arma, fuzil. Tem foto em que ele está ao lado de traficante armado, tem vídeo dele enaltecendo o tráfico", argumentou o delegado. 

    Um dos fatos levantados no inquérito é a apresentação do MC em uma festa na favela do Jacarezinho, zona Norte do Rio, em março deste ano. O evento em questão seria o aniversário do traficante Felipe Ferreira Manoel, o Fred, um dos líderes do tráfico de drogas na comunidade.

    Segundo o delegado Alan Luxardo, um dos indícios da participação de Poze no Comando Vermelho seria o fato de ele só poder fazer shows em favelas comandadas pela facção, a maior do Rio, sendo considerado inimigo em outros locais.

    Investigação

    Em nota, a Polícia Civil do Amazonas afirmou que os homicídios de Romarinho e Illguiner estão sob investigação, e novas informações não podem ser repassadas para não atrapalhar os casos. 

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