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    Menor infrator


    Em menos de dois anos,1,3 mil adolescentes foram apreendidos em Manaus

    Dados confirmam recrutamento de menores à criminalidade, de forma cada vez mais intensa, especialmente para o mercado do tráfico de drogas na capital do Amazonas

     

    De acordo com a Polícia Civil, só neste ano, foram mais de 419 apreensões
    De acordo com a Polícia Civil, só neste ano, foram mais de 419 apreensões | Foto: Reprodução/Internet

    MANAUS (AM) - Dados divulgados pela Secretaria de Segurança Pública (SSP-AM), na terça-feira (28), confirmaram um cenário preocupante onde há, de forma cada vez mais intensa, o recrutamento de menores à criminalidade, especialmente para o mercado do tráfico de drogas na capital do Amazonas. De janeiro do ano passado até agosto deste ano, 1,3 mil adolescentes foram apreendidos em Manaus, a maior parte por envolvimento com a venda de drogas.

      De acordo com a Polícia Civil, só neste ano, foram mais de 419 apreensões. Mais de um terço das ações policiais que tiveram menores de idade como alvos foram motivadas pelo tráfico de drogas. Ao todo, 137 adolescentes foram capturados vendendo entorpecentes como maconha e cocaína. Além disso, outros 93 foram apreendidos por casos de roubo.  

    A delegada Especializada em Apuração de Atos Infracionais (Deaai), Elizabeth de Paula, explica que a maioria dos crimes de tráfico e roubo, geralmente, estão interligados. “Às vezes, eu apreendo um adolescente por roubo, porque ele está alimentando o tráfico. Em outras, apreendo por tráfico que está envolvido até o pescoço com roubo, principalmente a veículos, a aplicativos e ao transporte coletivo, principalmente na Zona Norte de Manaus”, disse.

    Violência doméstica

    Elizabeth de Paula afirma que, além dos casos como tráfico de drogas, outro tipo de crime chama a atenção das autoridades: a violência doméstica cometida por adolescentes.

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    Durante a pandemia, nós observamos um aumento muito grande de casos de filhos que estão empurrando a mãe, xingando, desrespeitando a própria genitora. Também há relações com as namoradas. São adolescentes que estão causando constrangimento para a garota, fazendo ameaças, tentando acessar os dados do celular "

    , ressalta a delegada.

     

    Jovens no 'mundo do crime'

    O sociólogo André Rolim atribui a uma série de fatores o envolvimento precoce de adolescentes e até crianças no mundo do crime, especialmente a educação oferecida no ensino público.

    "Nós temos vários problemas sociais muito profundos no Amazonas e no resto do país também. Muitos meninos que se afastam da escola são, de fato, recrutados pelo tráfico de drogas e são socializados de maneira extremamente perversa, passando a enxergar na figura de líderes de facções, por exemplo, um espelho de sucesso a ser seguido e alcançado", explica André.

    O sociólogo explica que o sistema público de ensino no país não está preparado para lidar com alunos mais vulneráveis e problemáticos.

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    Por exemplo, o jovem que historicamente sempre morou em uma área de exclusão, que nunca abriu um livro e teve pai analfabeto ou assassinado por envolvimento com crimes, tem toda uma diferença de preparação, e grande parte dos professores não está preparada para lidar com ele, infelizmente "

    , , afirma

     

    Sobre os dados alarmantes de menores apreendidos por cometerem crimes relacionados à violência doméstica, o especialista afirma que, em muitos casos, adolescentes são cercados de ambientes onde há poucos laços sociais, além do comportamento individual.

    "De alguma maneira, esses jovens vivenciaram dinâmicas de agressão física, desrespeito e injustiça entre seus familiares em ambientes de hostilidade, onde a tensão é permanente", anota o autor.

    Por fim, André também pondera que a sensação de impunidade em todo o país acaba facilitando a vida de quem comete crimes. "A redução dos homicídios não é prioridade em nenhum lugar do Brasil. Como grande parte das vítimas é pobre, não há pressão social para investigação. E você lança uma mensagem de que o crime compensa", finalizou. 

    Iniciativa da Sejusc

    Para fortalecer o vínculo afetivo e tentar resgatar laços fragilizados ou rompidos entre o adolescente que cumpre medida e seus familiares,  a Secretaria de Justiça, Direitos Humanos e Cidadania (Sejusc), implantou o projeto Família Acolhedora no Processo Socioeducativo (Fape).

    A iniciativa busca trabalhar de maneira mais efetiva o fortalecimento do vínculo e responsabilidade familiar junto aos internos, seus responsáveis e demais familiares como irmãos, avós e tios. Isso de maneira psicossocial, educativa e lúdica para que todas as etapas sejam cumpridas com resultados positivos.

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