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    DENÚNCIA


    Sem manutenção, motos da PM recebem conserto pago por militares do AM

    Policiais do batalhão de trânsito da PM estão tendo que arcar com os gastos, e sem chances de ressarcimento por parte da corporação

    Os policiais mostraram os recibos que comprovam gastos com a manutenção das motocicletas que pertencem ao Estado | Foto: Lucas Vitor Sena

    Manaus - Moto, por si só, já é um veículo perigoso. A manutenção deve estar em dia para que possa garantir maior segurança ao condutor. Iluminação, motor, suspensão pneus precisam estar em bom estado, e se isso for negligenciado, o risco de acidente é quase certo. Para não deixar a população sem policiamento, os policiais do Batalhão de Policiamento de Trânsito da Polícia Militar do Amazonas (BPTran/PMAM) têm arcando com um compromisso que deveria ser do Governo do Estado do Amazonas e tiram dinheiro do próprio bolso para pagar os custos das manutenções.

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    A falta de manutenção pode causar acidentes, derrapagens, deficiência de frenagem, entre outros problemas. E foi justamente a falta de manutenção nas motocicletas do BPTran/PMAM que causou um acidente a um cabo da PM.

    PMs reclamam de falta de manutenção em motocicletas
    PMs reclamam de falta de manutenção em motocicletas | Foto: Marcely Gomes


    “Outro dia o cabo Castelo Branco sofreu um sinistro devido às más condições da motocicleta e também devido ao período de chuva que duplica as condições adversas da via”, diz um trecho da conversa entre os militares em um grupo no WhatsApp.

    Outro oficial expressa a preocupação em áudio. “Chuva e sol, estamos sempre prontos, mas diante da situação desse sucateamento, fica inviável o cumprimento de 'excelência' do nosso trabalho”, diz o áudio.

    Outra pessoa ainda se diz preocupada toda vez que um outro soldado sai para o policiamento na motocicleta, e ora para que volte são e salvo. "E isso não é sensacionalismo, não. Só quem anda nessas motos sabe o quanto é perigoso, principalmente com as motocicletas que eles usam", conta.

    Um PM alerta que além do pneu careca, a motocicleta estaria com aros empenados
    Um PM alerta que além do pneu careca, a motocicleta estaria com aros empenados | Foto: Marcely Gomes


    Problemas

    Os integrantes do batalhão, que trabalham diretamente no policiamento em motocicletas, passam por diversos problemas. Muitas das motos estão com os pneus carecas, falhas no motor e danos em peças, como aponta o documento mostrado à reportagem do EM TEMPO. Um PM alerta que além do pneu careca, a motocicleta estaria com aros empenados, bateria danificada, sistema de embreagem com mal funcionamento e problemas na suspensão.

    Além das peças danificadas, as motocicletas ainda apresentam prefixos apagados, placas danificadas, carenagens quebradas, pneus carecas e outros problemas. O documento de outra moto mostra que, além dessas avarias, ainda está sem o giroflex. A sirene não funciona. Até capacete falta para os policiais, que precisam procurar peças em motos de outras unidades para não comprar com o próprio dinheiro. 

    Policiais militares do Batalhão de Policiamento de Trânsito da Polícia Militar do Amazonas (BPTran/PMAM) têm tirado dinheiro do próprio bolso para pagar os custos com manutenções, arcando com um compromisso que devia ser do Governo do Estado do Amazonas para suprir a necessidade de colocar nas ruas as motocicletas usadas no patrulhamento de rotina. | Autor: Em Tempo


    Manutenção

    Até 2016, a manutenção das motocicletas era feita pela empresa ServCar Ltda., localizada no bairro do São Lázaro, na Zona Sul de Manaus. A ServCar tinha contrato com o Governo do Amazonas, mas, naquele ano, o contrato foi rescindido, de acordo com o empresário João Fernandes, dono da empresa.

    “Fomos comunicados pela Secretaria de Estado de Administração e Gestão (Sead) que o contrato não iria mais ser renovado. Pelo o que ficamos sabendo na época, isso acontecia pela situação financeira que o Estado estava passando. E aí, nós deixamos de fazer os serviços das motocicletas e eu não tenho conhecimento de como eles estão fazendo essa manutenção agora", disse o empresário.

    A ServCar tinha contrato com o Governo do Amazonas, mas, naquele ano, o contrato foi rescindido
    A ServCar tinha contrato com o Governo do Amazonas, mas, naquele ano, o contrato foi rescindido | Foto: Marcely Gomes


    Desde o fim do contrato, são os próprios PMs que arcam com a manutenção das motocicletas. Eles compram as peças e ainda arcam com a manutenção preventiva das motos. Um policial relata que já não sabe mais nem quanto gastou em peças.

    "Temos um amigo que tem uma loja pequena, que faz um desconto na troca de peças. Já troquei tantas que não sei mais nem quanto gastei", informa o soldado.

    Fábio Ferreira, dono de uma das oficinas onde os policiais fazem os serviços de manutenção, localizada na Zona Norte de Manaus, explica que os próprios oficiais pagam pelos serviços. “São os policiais mesmo que pagam o serviço com o dinheiro deles. Mas também é só o básico, guia de transmissão, a corrente cai, eles vêm e ajeitam”, disse.

    Posicionamento

    Os policiais garantem que nunca receberam o dinheiro gasto nos serviços
    Os policiais garantem que nunca receberam o dinheiro gasto nos serviços | Foto: Marcely Gomes


    A reportagem do EM TEMPO entrou em contato com a Diretoria de Comunicação Social da PM (DCS) para averiguar as situações no dia 3 de abril de 2018, e até a publicação desta matéria, não obteve retorno. Entretanto, no dia seguinte ao envio da demanda, a reportagem obteve áudios que mostram que o comandante geral da PM ordenou que todas as motos saíssem das ruas e fossem devolvidas à sede do BPTran.

    "A determinação do comandante era que todos deixassem as motos no Batalhão. Ligaram para ele para saber as informações, e aí o próprio comandante do Batalhão mandou recolher todas as motos. Quem for fazer policiamento, pega a moto no batalhão, faz o serviço, e quando terminar, volta pro batalhão e deixa", diz um áudio.

    Mesmo com a falta de manutenção dos seus instrumentos de trabalho, os policiais não deixam de cumprir a missão de trazer segurança à sociedade. "Nós temos comprometimento com o nosso serviço, e só queremos que o comandante reconheça isso. Para ser policial no Brasil, tem que ter amor à profissão. Como batedores, também fazemos esse serviço, isso porque amamos o que fazemos".

    Edição: Bruna Souza

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