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    Justiça


    Inquérito inocenta PMs que participaram de chacina em Manaus

    Segundo matéria publicada na Folha de S.Paulo, 11 dos 21 PMs possuem antecedentes criminais

    Dos 17 mortos, um deles era menor de idade | Foto: Kennedson Paz

    Manaus -  Após dois meses do confronto entre policiais militares e suspeitos, que resultou na morte de 17 pessoas no bairro Crespo, na Zona Sul de Manaus, o inquérito Polícia Civil do Amazonas (PC-AM) não identificou indícios de homicídio doloso. O documento afirma ainda que os policiais agiram no “estrito cumprimento do dever legal”.

    Uma matéria publicada na manhã deste sábado (4), no portal de notícias Folha de S. Paulo, deu voz a uma testemunha que afirmou estar presente no dia da execução. Sob condições de anonimato, a testemunha alegou ter visto a execução do integrante da FDN, Michel dos Santos Cardoso de 27 anos; e da apreensão do adolescente de 14 anos, Uelinton do Nascimento da Silva Júnior, ainda em vida.

    "[Os policiais] repetiram várias vezes: a ordem é para matar, a ordem é para matar, a ordem é para matar. Então fizeram. Eles mataram. Ali aconteceu um massacre", afirma a testemunha à Folha.

    Em seu relato, a testemunha conta que um dos integrantes da facção foi encontrado embaixo de uma casa e rendido.

    “Quando deram tiros na perna dele, ele estava de joelhos. Já estava dominado, não estava mais com arma, nada”, contou a testemunha.

    Segundo a testemunha, depois do tiro na perna, o homem teria corrido para dentro de uma casa próxima, onde foi atingido no peito. “Aí botaram ele para fora e mataram na nossa frente”. Antes de morrer, o homem teria entregue uma chave de ignição aos policiais. Horas depois, um PM pegou uma rede de um dos moradores para cobrir o corpo.

    A reportagem afirma que a descrição da execução pela testemunha coincide com a autópsia do corpo de Michel, incluído no inquérito policial, obtido pela Folha de S. Paulo e ao qual a testemunha não teve acesso. O exame mostra quatro tiros: um no joelho esquerdo, um no tornozelo direito e dois no tórax.

    Não foi encontrado vestígio de pólvora na mão de Cardoso, que tinha passagens por furto, posse de droga e narcotráfico.

    Outra coincidência entre o testemunho e o inquérito é a apreensão da chave de ignição, que seria de um carro roubado usado para transportar membros da FDN.

    A testemunha não presenciou outras mortes, mas afirma que os policiais levaram alguns homens a uma casa no bairro. Dentro, teriam sido agredidos e assassinados. 

    Um deles seria o adolescente. A testemunha diz que estava se alimentando no momento do ocorrido. Ueliton não estava armado.

    “Ele estava com um espeto de churrasco na mão e um copo de farofa pequeno. Na hora que ele viu, ele correu. Qualquer um que vê tiro, corre. Até eu, se vir um tiro, corro", ressaltou a testemunha.

    A testemunha diz que não prestou depoimento à polícia por medo de represálias. “Não confio em nenhum dos dois [polícia e facção criminosa]. Só confio em Deus. Só que eu penso o seguinte: a verdade tem de vir à tona”.

    O adolescente é o único morador do bairro morto pela polícia e o único sem antecedentes criminais. Ele foi morto por um tiro, que atingiu o coração e o fígado. O exame do corpo detectou vestígio de pólvora na mão direita.

    SSP-AM

    Segundo nota da Secretaria de Segurança Pública do Amazonas (SSP-AM), o inquérito da Polícia Civil diz que a ação dos policiais foi "uma reação à agressão que sofreram por um grupo que se preparava para atacar uma facção rival".

    "O inquérito não encontrou indícios de execução, conforme sugere a reportagem. Nenhuma das mais de 30 testemunhas ouvidas no curso do inquérito deu informações no sentido sugerido pela reportagem", afirmou a nota.

    Segundo o inquérito, sob responsabilidade da Unidade de Apuração de Atos Infracionais da Polícia Civil do Amazonas (UAIP) e do Departamento de Repressão ao Crime Organizado (DRCO), os 17 mortos pertenciam à FDN e participaram da ação fortemente armados contra a facção rival.

    “Contudo não contavam com a intervenção policial. Efetuaram disparos de arma de fogo contra equipe policial, e esses revidaram a injusta agressão e atingiram as vítimas. E esses, apesar de serem socorridos e levados para as unidades hospitalares próximas, não resistiram ao trauma ocasionado pelos disparos e vieram a óbito”.

    Ninguém foi indiciado. O inquérito, assinado em 3 de dezembro e enviado à Justiça, conclui “que não vislumbrou nos referidos autos indícios mínimos de dolo homicida na conduta praticada por parte dos agentes estatais”.

    O inquérito está sob a análise do Ministério Público Estadual, que tem um procedimento administrativo na Promotoria Especializada no Controle Externo da Atividade Policial (Proceap), sob a responsabilidade do promotor João Gaspar.