17 mortes no Crespo


Novo depoimento pode mudar o rumo das investigações de chacina no AM

Na ação, que resultou na morte de 17 no bairro Crespo em outubro de 2019, uma nova testemunha quebrou o silêncio em entrevista a um jornal nacional

A ação é questionada pela Folha de São Paulo que traz informações do inquérito policial e uma testemunha ocular do confronto
A ação é questionada pela Folha de São Paulo que traz informações do inquérito policial e uma testemunha ocular do confronto | Foto: Reprodução

Manaus - A madrugada do dia 30 de outubro de 2019 ficará marcada na história do Amazonas. Um confronto entre traficantes de facções rivais que comandam o tráfico no Estado resultou na morte de 17 pessoas após uma intervenção da polícia no bairro Crespo, Zona Sul de Manaus.

A ação policial está sendo questionada pela Folha de S. Paulo, após divulgação do inquérito policial apontar partes importantes sobre a madrugada das mortes. A operação “Bonde” foi realizada de forma conjunta entre os policiais da Rocam, Batalhão de Choque, Força Tática e 7ª Companhia Interativa Comunitária (Cicom). 

Testemunhas

O ponto chave para a publicação da Folha de São Paulo, no último sábado (4), é o relato de uma testemunha que afirma ter visto os policiais matarem e define o momento como "massacre". Questionada sobre se pronunciar após dois meses depois das mortes, a testemunha afirma não confiar na polícia e tão pouco nas facções que tomam conta de áreas estratégicas do tráfico em Manaus e demarcam seu território com pichações. 

“Os policiais repetiram várias vezes: a ordem é para matar, a ordem é para matar. Então fizeram. Mataram. Ali aconteceu um massacre naquela noite, massacre”, afirmou a testemunha.

Em seu relato à Folha de São Paulo, a testemunha afirma que a polícia executou um dos envolvidos, que já estava rendido e de joelhos. "Arrastaram para fora e executaram ele na nossa frente", a testemunha afirma que o homem atingido havia entregado uma chave de ignição, que possivelmente seria do veículo que transportou os outros envolvidos no confronto.

De acordo com informações, ainda da testemunha, outras mortes aconteceram dentro dos casebres, localizados no beco. Um dia após o ocorrido, moradores ficaram com as casas fechadas e evitavam falar sobre o assunto com a imprensa. 

Outros relatos afirmam a versão da invasão por tomada de território, informada pela polícia. No momento da chegada de rivais da facção criminosa, uma testemunha envia uma mensagem de áudio para a polícia pedindo socorro “Sargento ajuda nós, pelo amor de Deus. É muito homem e eles estão todos armados”.

Ouça o áudio: 

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Um vídeo circulou nas redes sociais, momentos antes e depois do massacre, em que integrantes da facção criminosa Família do Norte (FDN) ameaçavam membros do Comando Vermelho (CV), no Beco JB Silva.

Em um dos vídeos, um traficante deixa evidente que o confronto é por disputa de território. “Já ganhamos. Estamos na quadra, e entramos em todos os becos e estamos ganhando essa p****”, afirma o criminoso. Na ação, foram apreendidas 17 armas de fogo, de grosso calibre, entre elas uma submetralhadora e munições.

Veja o vídeo:

Vídeo mostra membros da Família do Norte (FDN) ameaçando a facção rival Comando Vermelho (CV) | Autor: Reprodução
 

Em entrevista coletiva concedida pelo secretário de segurança pública do Amazonas, no mesmo dia do confronto, coronel Louismar Bonates considerou como o maior confronto entre policiais e traficantes. Ao todo, foram 60 policiais envolvidos na ação. 

O Secretário afirmou que este foi o maior confronto de policiais e traficantes na história da segurança do AM
O Secretário afirmou que este foi o maior confronto de policiais e traficantes na história da segurança do AM | Foto: Divulgação

"Sentimos pelos familiares. A polícia não tem a intenção de matar, ela tem a intenção de intervir na ação para levar tranquilidade à população, mas se eles vierem levantar armas e trocar tiros com a polícia - infelizmente são as famílias deles que irão chorar", afirmou. Segundo Bonates, a ação se deu após 27 denúncias anônimas, que acionaram a polícia após tiroteios. 

O inquérito 

O Inquérito da Polícia Civil do Amazonas, sob responsabilidade da Unidade de Apuração de Atos Infracionais (Uaip) e do Departamento de Repressão ao Crime Organizado (DRCO), apontou que das 17 mortes no bairro Crespo sete estavam sem vestígios de pólvora nas mãos, os outros dez havia a confirmação. 

Entre os mortos na madrugada do dia 30, apenas um não tinha antecedentes criminais, tratando-se do menor Uelington do Nascimento da Silva Júnior, de 14 anos. Os outros 16, que foram atingidos no tórax, tinham passagem por roubo, tráfico de drogas, porte ilegal de arma, tentativa de homicídio, furto, posse de drogas, receptação, narcotráfico, estupro de vulnerável e processos como menor infrator.

Do outro lado estavam os policiais envolvidos na ação, 11 dos 21 possuem antecedentes criminais. Na lista estão ações de homicídio simples, crime militar, constrangimento ilegal, tortura, roubo majorado, maus-tratos a animais e improbidade administrativa. 

Em nota, a Secretaria de Segurança Pública do Amazonas (SSP-AM) informou que a ação dos policiais foi "uma reação à agressão que sofreram por um grupo que se preparava para atacar uma facção rival. O inquérito não encontrou indícios de execução, conforme sugere a reportagem. Nenhuma das mais de 30 testemunhas ouvidas no curso do inquérito deu informações no sentido sugerido pela reportagem", afirmou a nota.

Dezessete armas foram apreendidas no confronto
Dezessete armas foram apreendidas no confronto | Foto: Divulgação

A nota segue informando que os policiais agiram em defesa da corporação e da comunidade. “Contudo não contavam com a intervenção policial. Efetuaram disparos de arma de fogo contra equipe policial, que revidaram à injusta agressão e atingiram as vítimas. E esses, apesar de serem socorridos e levados para as unidades hospitalares próximas, não resistiram ao trauma ocasionado pelos disparos”.

O inquérito conclui “que não vislumbrou nos referidos autos indícios mínimos de dolo homicida na conduta praticada por parte dos agentes estatais”. Ninguém foi indiciado.

Análise do MPE-AM

O inquérito, assinado no dia 3 de dezembro, está sob a análise do Ministério Público Estadual (MPE-AM), que tem um procedimento administrativo na Promotoria Especializada no Controle Externo da Atividade Policial (Proceap), sob a responsabilidade do promotor João Gaspar.

A medida foi informada oficialmente pelo subprocurador-geral de Justiça para Assuntos Jurídicos (SubJur), Carlos Fábio Monteiro, no mesmo dia do confronto. O Ministério Público irá investigar sobre os casos e as denúncias feitas. O MPE pode devolver o inquérito para a polícia aprofundar as apurações, caso haja necessidade. 

Identificação 

Os corpos foram identificados pelo Instituto Médico Legal (IML), em tempo recorde, com trabalhadores em jornada dupla. A lista do inquérito aponta entre os mortos quem estava com indícios de pólvora e quem não possuía.  

Os corpos identificados mo Instituto Médico Legal passaram por perícia
Os corpos identificados mo Instituto Médico Legal passaram por perícia | Foto: Kennedson Paz

Com registro de pólvoras em uma das mãos estão:  Markleuson Batista da Silva, 18 anos; Michel dos Santos Cardoso, 27 anos; Max William Sampaio da Silva Cavalcante, 29 anos; Lucas da Costa Pereira, 21 anos; Samuel Pinheiro Campos, 23 anos; Uelinton do Nascimento da Silva Junior, 14 anos.

Com registro de pólvora em ambas as mãos: Alexsandro Custódio de Carvalho, 16 anos; Eder Júlio Canto Costa Junior, 20 anos; Aldair Campos Nascimento, 21 anos; Vinicius Eduardo Souza da Silva, de 21 anos; Rodrigo Rebelo Fialho, 28 anos.

Sem registro de pólvora: Bruno Cardoso Lopes, 23 anos; Erick Osmarino Silva Santos, 17 anos; Natanael Costa Melo, 20 anos; Francisco Eduardo Farias da Silva, 24 anos; Eligelson Maia de Souza, 28 anos; Laércio Lucas de Oliveira, 19 anos.